30 de novembro de 2025
A Epidemia da Conveniência
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DAVI MOLINARI

Eu avistei Juvenal à distância, equilibrando uma bandeja de long necks como se carregasse urânio enriquecido. O homem estava impossível. Hoje, ele não era apenas o garçom-proprietário-filósofo do Fale Mais Sobre Isso; ele era um diplomata da ONU sem crachá. Na mesa três, sob o toldo puído, ele mediava uma discussão acalorada entre um grupo de palestinos e outro de judeus. Não havia pedras nem mísseis, apenas concordâncias etílicas sobre como líderes estúpidos transformaram a Faixa de Gaza em um inferno. Juvenal presidia o armistício servindo tremoços. A paz mundial, aparentemente, dependia do teor de sódio da conserva.

Caminhei até a minha mesa habitual, o canto sagrado onde a psicanálise encontra a baixa gastronomia. O Doutor já estava lá. Impecável. Paletó pendurado na cadeira, mangas da camisa social arregaçadas com precisão cirúrgica, uma tulipa suando frio na mão esquerda e o indefectível bloquinho de notas aberto ao lado da Montblanc. Ele não olhou para mim. Apenas deu um gole, encarando o nada, esperando minhas especulações emocionais como um urubu aguarda o último suspiro da carcaça.

Sentei-me. Meus ombros pesavam umas três toneladas.

Juvenal surgiu, materializando-se com a toalha no ombro e a porção de manjubinhas.

— Doutor, meu chapa! — cumprimentou o analista com um aceno de cabeça, recebendo em troca um leve erguer de sobrancelha.

Virou-se para mim. — E você, campeão? Tá com uma cara de quem apostou no Palmeiras e esqueceu de rezar. Desculpe a demora, estava ali no “Conselho de Segurança” da mesa três. Incrível como a cerveja une o que a geopolítica separa.

— Tô mal, Juvenal — confessei. — Me sinto culpado por envelhecer bem demais. Minha saúde tá ótima… e eu já sofro pela velhice que nem chegou. É tipo fazer velório da minha cartilagem com 30 anos.

O Doutor anotou algo. Aposto que desenhou uma manjubinha em coma.

Juvenal serviu o chope:

— Fica tranquilo. Acima dos 60, só 25% não têm “ziquizira”. Passou dos 70? Vira rifa: 10% inteiros, o resto é coleção de CID. Você tá no lucro.

Ele deu uma pausa dramática, limpando uma mancha imaginária na mesa.

— O curioso, meu caro, é que essa estatística parece ser o novo “Habeas Corpus” da República. Não é à toa que a ala geriátrica da Papuda tá lotada de gente que descobriu doenças gravíssimas assim que a Polícia Federal bateu na porta.

— Mecanismo de Defesa? — arrisquei.

— Mecanismo de Safadeza. Olha o General Heleno: era o Rambo do Planalto. Agora diz que esqueceu tudo desde 2018. Só não esqueceu a senha da ABIN.

— E o Bolsonaro? — perguntei. — Virou refém do próprio intestino.

— Pois é. A máscara caiu e sobrou só o aparelho digestivo. A doença virou bunker jurídico. A verdade psíquica deles? O medo da cadeia é tão forte que o corpo inventa diagnóstico à la carte.

Eu respirei fundo, a indignação subindo junto com o colarinho do chope.

— Mas pensa comigo, Juvenal. Se doença fosse motivo para soltar preso, a gente tinha que abrir as portas do inferno que é o sistema prisional brasileiro. Era rua pra uns 600 mil do total de 800 mil presos vivendo numa fábrica de tuberculose, HIV e sarna.

Juvenal trouxe a porção de manjubinha fumegante e um pouco de senso de realidade:

— Mas doença como álibi, meu jovem, só serve pra quem tem CPF com capa dura. Olha o Daniel Vorcaro: fraude bilionária, tentou fugir pros Emirados… a defesa alegou risco à integridade física.

— É, o colarinho branco é o melhor plano de saúde que existe — completei. — O dinheiro não compra felicidade, mas compra uma prisão domiciliar com vista para o jardim.

Silêncio. O Doutor parou de esgrimir a caneta, fechou o bloquinho com estalo cirúrgico, olhou pra mim pela primeira vez e soltou:

A doença é a única confissão que o narcisista admite quando a onipotência desmonta. O resto é laudo médico encomendado pelo medo.

Essa eu até anotei. Juvenal, já voltando para a mesa três, virou e completou:

— E para curar esse medo, Doutor, o remédio é um voo direto pra lucidez. Mas olha, tem passageiro que esse destino não aparece no mapa, nem com GPS.

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Fonte: https://horadopovo.com.br/a-epidemia-da-conveniencia/