Enquanto o governo estadual mantém oficialmente o corte noturno diário no fornecimento de água – medida anunciada e aplicada em bairros da capital e da Grande São Paulo – os consumidores paulistas começam 2026 pagando mais caro pela conta. Desde quinta-feira, 1º de janeiro, passou a valer o reajuste de 6,11% nas tarifas da Sabesp.
O aumento foi definido pela Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp), em deliberação publicada no início de dezembro, e incide sobre a tarifa básica de água. A Sabesp é responsável pelo abastecimento de água potável e pelos serviços de coleta e tratamento de esgoto de mais de 31 milhões de pessoas em 374 municípios paulistas.
Segundo o governo Tarcísio de Freitas, o reajuste corresponde “apenas” à reposição da inflação acumulada entre julho de 2024 e outubro de 2025, período de 16 meses adotado como referência após a privatização da companhia, concluída em julho do ano passado.
Na prática, consumidores residenciais que utilizam entre 11 m³ e 20 m³ por mês passam a pagar R$ 6,40 por metro cúbico de água, ante os R$ 6,01 cobrados anteriormente. A gestão estadual afirma que este é o primeiro reajuste após a desestatização da Sabesp e sustenta que o percentual ficou cerca de 15% abaixo do índice que seria aplicado caso a empresa tivesse permanecido estatal. Esse índice, segundo o governo, está previsto em contrato e projeta como seriam as tarifas sem a privatização.
No entanto, especialistas em recursos hídricos alertam para aumentos expressivos após as eleições de 2026. “Vai ser uma paulada”, afirma Amauri Pollachi, coordenador e conselheiro do Observatório dos Direitos à Água e ao Saneamento (Ondas). Segundo ele, o contrato da privatização prevê, de forma estratégica, uma moratória nos reajustes tarifários durante o período eleitoral. “De uma maneira bastante ‘inteligente’, o Estado colocou dentro do contrato da Sabesp uma moratória de reajuste tarifário posterior ao período eleitoral de 2026. Então espere o reajuste de 2027. Ele vai vir de forma bastante significativa”, alerta. Pollachi prestou serviços à Sabesp por cerca de 30 anos em diferentes setores da companhia.
Em nota, o Palácio dos Bandeirantes declarou que “a deliberação dos novos valores prevê somente a reposição inflacionária do IPCA, sem aumento real para o consumidor”. O governo também informou que, a partir dos próximos ciclos tarifários, os reajustes voltarão a ser calculados com base em períodos de 12 meses.
O aumento contraria promessa feita pelo próprio Tarcísio de Freitas antes da privatização. Em entrevista ao jornalista Rodrigo Bocardi, então na TV Globo, o governador garantiu que a conta de água ficaria mais barata. “O que vai acontecer com a minha tarifa com essa privatização?”, questionou o jornalista. “Vai baixar”, respondeu Tarcísio. “Vai ser mais baixa do que eu pago hoje? O senhor garante?”, insistiu Bocardi. “Garanto”, afirmou o governador, de forma categórica.
O reajuste evidencia que a promessa feita por Tarcísio de Freitas não passou de um engodo utilizado para convencer a sociedade de que a privatização da maior empresa de saneamento da América Latina traria supostos benefícios aos consumidores paulistas. Na prática, o discurso das “maravilhas” da gestão privada se desfaz diante do aumento tarifário e da piora percebida no serviço, expondo o descompasso entre a propaganda oficial e a realidade enfrentada pela população.
Fonte: https://horadopovo.com.br/reajuste-da-sabesp-entra-em-vigor-e-eleva-em-611-a-tarifa-para-milhoes-de-paulistas/
