Um ato em defesa da democracia reuniu, na noite desta quinta-feira (8), juristas, lideranças políticas, artistas e representantes de movimentos populares na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no Largo São Francisco, região central da capital paulista. A mobilização marcou os três anos da tentativa de golpe de Estado e dos ataques às sedes dos Três Poderes, ocorridos em 8 de janeiro de 2023, em Brasília.
O local escolhido para o ato carrega forte simbolismo histórico, tendo sido palco de importantes mobilizações da vida política brasileira, como a campanha das Diretas Já. Participaram da atividade personalidades como o ator Paulo Betti, o deputado federal Ricardo Galvão (Rede-SP), o ex-presidente do Partido dos Trabalhadores José Genoino, além de vereadoras, advogados, representantes de frentes populares e movimentos sociais.
Durante o ato, os participantes defenderam que o 8 de janeiro seja consolidado como uma data cívica permanente, dedicada à vigilância democrática e à preservação da memória histórica, entendida como instrumento essencial para impedir novas tentativas de ruptura institucional. Para o coordenador do grupo jurídico Prerrogativas, Marco Aurélio de Carvalho, “precisamos registrar fatos como os que infelizmente ocorreram no país para que eles não voltem a se repetir. A memória tem esse caráter fortemente pedagógico. Nós não podemos esquecer, jamais, para que a coisa não se repita”. Segundo Carvalho, houve uma vitória das instituições democráticas diante de uma ofensiva de caráter fascista, que poderia ter provocado um retrocesso histórico ao país.
A deputada estadual Professora Bebel (PT-SP) fez duras críticas ao Projeto de Lei da Dosimetria, que prevê a redução das penas impostas aos condenados pelos ataques golpistas, apontando a iniciativa como uma tentativa de anistia disfarçada. A proposta foi vetada pelo presidente Lula no dia de ontem.
SOBERANIA
Durante o ato, o presidente estadual do PCdoB em São Paulo, Alcides Amazonas, destacou que a defesa da democracia no Brasil está diretamente ligada à luta pela soberania nacional e latino-americana. “Estamos aqui para relembrar os três anos que passamos desde a tentativa de golpe implementada no nosso país. Camaradas e companheiros, a luta em defesa da soberania do Brasil, da América Latina e do mundo se confunde com a luta em defesa da democracia”, afirmou.
Ao abordar o cenário internacional, Alcides denunciou as ameaças do imperialismo aos países da região. Segundo ele, “sabemos que o que está ocorrendo na Venezuela pode ocorrer com Cuba, pode ocorrer com a Colômbia, pode ocorrer com todos os países da América Latina, inclusive com o Brasil”. O dirigente criticou a Doutrina Monroe, associada ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “A Doutrina Monroe, defendida pelo Trump, não é a mesma que nós defendemos, a doutrina deles é a América dos americanos. A doutrina que nós defendemos é a do Brasil dos brasileiros, é a Venezuela dos venezuelanos, a Colômbia dos colombianos e assim sucessivamente”.
Para ele, a disputa em defesa da soberania é estratégica e de longo prazo. “Essa também é uma luta de fôlego, essa luta para derrotar o imperialismo é uma luta que vai se passar na batalha eleitoral desse ano”, afirmou.
Simone Magalhães, do setor de internacionalismo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), relacionou a crise do capitalismo global ao avanço do fascismo e à cobiça sobre os recursos naturais da América Latina. Para ela, “Defender a democracia no Brasil é defender a soberania do povo venezuelano”. Simone destacou ainda que o “capitalismo está de olho nos nossos recursos naturais, nos nossos minerais e nos 16% de água doce que temos aqui. Defender a soberania dos países na América Latina é também defender o direito à nossa autodeterminação”, manifestando solidariedade ao presidente Nicolás Maduro e à deputada Cilia Flores.
A defesa da punição aos responsáveis pela tentativa de golpe foi um dos principais eixos do ato. Em sua intervenção, José Genoino afirmou que a democracia só se consolida plenamente quando enfrenta o legado autoritário e atende às demandas sociais do povo. “A luta pela democracia tem que significar punição dos golpistas e a derrota do projeto da ditadura militar. A democracia tem que significar apoio à luta das mulheres, do povo negro, da juventude e pelo fim da jornada 6×1. Nós estamos numa encruzilhada que tem que ser decidida nas ruas e na periferia”, declarou.
MANIFESTO
Ao longo do ato, estudantes e militantes entoaram palavras de ordem como “sem anistia” e “sem anistia e sem perdão, eu quero ver os golpistas na prisão”, reafirmando a posição de intransigência contra qualquer tentativa de anistia ou relativização dos crimes cometidos em 8 de janeiro de 2023.
O encontro também aprovou o Manifesto em Defesa da Democracia, da Justiça e da Soberania Nacional. “O dia de hoje marca primeiramente uma festa cívica e histórica em defesa da democracia. Deve, porém, ser também uma data na qual todos nós, brasileiras e brasileiros, redobramos as atenções diante de toda e qualquer ameaça interna ou externa ao estado democrático de direito brasileiro e à nossa soberania nacional”, diz um trecho do documento.
PROTESTOS
As manifestações não se restringiram à capital paulista. Em Porto Alegre, um ato reuniu organizações populares, sindicais, parlamentares e representantes da sociedade civil na Esquina Democrática, no Centro da cidade. A mobilização teve como eixos centrais a defesa da democracia, da soberania nacional e a rejeição a qualquer proposta de anistia aos envolvidos nos ataques de 2023.
No Rio de Janeiro, centrais sindicais e movimentos sociais realizaram um ato na Cinelândia, região central da capital. A mobilização lembrou os atentados de 8 de janeiro de 2023 como um marco da tentativa de golpe julgada pelo Supremo Tribunal Federal. Ainda no estado do Rio de Janeiro, manifestantes participaram de um ato no bairro Alvorada, em Boa Vista, na zona Oeste da cidade, com o lema “8 de Janeiro Nunca Mais”. A atividade reuniu movimentos sociais, artistas e moradores, com apresentações culturais e falas políticas.
Fonte: https://horadopovo.com.br/ato-no-largo-sao-francisco-marca-tres-anos-do-8-de-janeiro-e-defende-punicao-a-golpistas/
