11 de janeiro de 2026
Compromisso coletivo para cuidar da mente
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Quando as primeiras semanas do ano despontam no calendário, além das promessas de recomeço e metas profissionais, uma campanha de caráter cada vez mais essencial ganha espaço no Maranhão: o Janeiro Branco — mês nacional de conscientização sobre a saúde mental. Iniciado em 2014 no Brasil, o movimento designa janeiro como um período dedicado a refletir, dialogar e agir em prol do bem-estar emocional de toda a sociedade, reconhecendo a mente tão importante quanto o corpo no conjunto da saúde humana.

A escolha do mês não é casual. Janeiro representa simbolicamente uma página em branco — um tempo de reflexão sobre acontecimentos passados e de desenho de novos caminhos emocionais e existenciais para o ano que começa. A cor branca inspira essa ideia de tela aberta a ser colorida com novas histórias, relações e perspectivas de bem-estar.

Dados coletados pela Secretaria de Estado da Saúde, em anos anteriores, mostram que, na rede estadual de saúde mental, os agravos mais registrados são ansiedade e depressão — reflexos de uma realidade que exige atenção contínua e políticas de promoção do bem-estar emocional.

Além disso, dados sobre notificações de suicídio e violência autoprovocada reforçam a necessidade de políticas públicas integradas e apoio às pessoas em sofrimento psíquico.

Em 2023, foram 4.330 atendimentos para ansiedade, contra 3.349 em 2024. Os casos de depressão, em 2023, foram 1.888 atendimentos, seguidos de 1.165, em 2024. Outro dado apontado pelo SISMENTAL diz respeito aos casos de suicídios notificados em 2024: 401 ocorrências de suicídio no Maranhão e 1.567 de violência autoprovocada.

Janeiro Branco não resolve saúde mental em um mês

Especialistas que participam das ações em todo o Brasil ressaltam que o Janeiro Branco deve ser encarado não apenas como um mês simbólico, mas como um ponto de partida para um cuidado permanente. A campanha defende que a atenção à saúde mental seja prioridade diária — dentro e fora dos serviços de saúde —, incentivando a busca por apoio, o diálogo aberto sobre emoções e a construção de ambientes sociais e de trabalho mais acolhedores.

O Imparcial conversou sobre o tema com  Leonardo Abrahão, psicólogo, professor, palestrante e escritor. Criador e organizador da Campanha Janeiro Branco e fundador do Instituto de Desenvolvimento Humano Janeiro Branco, organização da sociedade civil criada para coordenar, ampliar e dar sustentação institucional à campanha.

De acordo com o psicólogo, o Janeiro Branco não existe para resolver a saúde mental em um mês, mas para inaugurar o ano lembrando que cuidar da mente é um compromisso permanente.

“Janeiro Branco cumpre um papel essencial de abertura de consciência coletiva. Seu valor estratégico está justamente em transformar um símbolo em ponto de partida. Quando a campanha entra no calendário social, institucional e político, ela cria autorização cultural para conversas que antes eram silenciadas. O Janeiro Branco ajuda a deslocar a saúde mental do campo do improviso para o campo da responsabilidade contínua, estimulando práticas educativas, políticas públicas, mudanças de cultura organizacional e atitudes individuais que precisam acontecer ao longo de todo o ano”.

Mudanças comportamentais e emocionais  preocupam os profissionais de Psicologia, dentre eles, segundo Leonardo, a  normalização do adoecimento. Outro aspecto a ser considerado diz respeito ao impacto na saúde mental de fatores como: trabalho, redes sociais e instabilidade social.

“Vemos pessoas vivendo em estado constante de ansiedade, irritabilidade, exaustão e vazio existencial, acreditando que isso é apenas o preço da vida moderna. O trabalho tem se tornado fonte contínua de pressão e insegurança, as redes sociais ampliam comparações, cobranças e a sensação de inadequação, e a instabilidade social produz medo, desalento e fragilidade de projetos de vida. O sofrimento psíquico atual não nasce apenas do indivíduo, mas de contextos que adoecem. O Janeiro Branco é pertinente porque chama a sociedade a olhar para essas causas estruturais e não apenas para os sintomas”.

Em 2014, ao convidar psicólogos e psicólogas de sua cidade natal, Uberlândia (MG), para irem às ruas falar com as pessoas sobre Saúde Mental, Leonardo deu início ao maior movimento do mundo sobre qualidade de vida e bem-estar emocional — a Campanha Janeiro Branco. Porém, mesmo com esse incentivo para que as pessoas busquem ajuda, muitas  ainda tem resistência em buscar atendimento psicológico, seja por vergonha, descrédito, desconhecimento, medo de parecer fraco, autossuficiência, ou ainda por falta de acesso a esse tipo de atendimento.

Perguntei a Leonardo sobre essa resistência e quais estratégias individuais, institucionais e de políticas públicas são fundamentais para ampliar o acesso e a adesão ao cuidado em saúde mental no Brasil.

A resistência ainda existe porque o sofrimento emocional foi historicamente associado à fraqueza, ao fracasso ou à falta de fé e de força de vontade. Além disso, o acesso desigual aos serviços reforça a ideia de que cuidado psicológico é privilégio de poucos. Para mudar esse cenário, é necessário agir em várias frentes. Individualmente, precisamos normalizar o pedido de ajuda. Institucionalmente, criar ambientes seguros e não punitivos. E nas políticas públicas, ampliar a rede de atenção psicossocial, investir em prevenção e educação emocional. O Janeiro Branco atua como ponte entre essas dimensões, ajudando a transformar o cuidado em saúde mental em direito, prioridade e valor social compartilhado. A força do Janeiro Branco está justamente em lembrar que falar de saúde mental não é tendência, é necessidade histórica. E que cuidar da mente é uma estratégia de sobrevivência coletiva”.

A resistência ainda existe porque o sofrimento emocional foi historicamente associado à fraqueza, ao fracasso ou à falta de fé e de força de vontade. Além disso, o acesso desigual aos serviços reforça a ideia de que cuidado psicológico é privilégio de poucos. Para mudar esse cenário, é necessário agir em várias frentes.

Leonardo Abrahão – psicólogo

A campanha

Na campanha deste ano, o chamado é simples e urgente: cuidar da mente precisa ser um compromisso coletivo. O tema do ano, “paz, equilíbrio, saúde mental”, aponta para a necessidade de desacelerar, reorganizar a vida emocional e fortalecer relações mais humanas.

A campanha vai muito além de uma cerimônia de abertura. Em várias cidades do estado, unidades de saúde têm promovido palestras, rodas de conversa, dinâmicas de autocuidado e atividades físicas, abordando temas como reconhecimento emocional, relações interpessoais e orientações sobre quando e onde procurar ajuda profissional.

Fonte: https://oimparcial.com.br/noticias/2026/01/compromisso-coletivo-para-cuidar-da-mente/