A melhor cidade para se viver no Brasil foge dos estereótipos urbanos. Não é capital, não possui arranha-céus, não concentra milhões de moradores, nem convive com trânsito intenso em largas avenidas. Um levantamento exclusivo da Gazeta do Povo cruzou dados oficiais de todos os municípios brasileiros para identificar onde a qualidade de vida se destaca.
Evidente que o tamanho da cidade influencia diretamente nos índices alcançados, pois a gestão dos problemas é bastante distinta de uma metrópole. Jateí, no interior de Mato Grosso do Sul, liderou o Ranking das Cidades elaborado pela Gazeta do Povo, após a análise de 27 indicadores, ajustados ao porte populacional das 5.570 cidades do país. Segurança pública, educação, infraestrutura, economia, arborização, saúde fiscal, cultura e qualidade urbana compõem a metodologia que foi condensada em uma nota final, variável de 0 a 10.
A nota final de Jateí chegou a 8,72. O desempenho colocou o município sul-mato-grossense no topo nacional como melhor cidade para se viver, com ampla vantagem sobre centros urbanos maiores.
A reportagem da Gazeta do Povo procurou os moradores de Jateí para registrar o que há de especial nesta cidade em que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os nomes mais populares são tão comuns e símbolos de brasilidade, José e Maria, e o sobrenome que mais se repete é Silva. Criado há cerca de 60 anos, a cidade fica a 265 quilômetros da capital Campo Grande.
Moradores destacam a segurança pública na melhor cidade para viver no Brasil
O Ranking das Cidades da Gazeta do Povo evidencia que Jateí não tem homicídios. A cidade também tem como característica a inexistência de moradores em situação de rua e baixos índices de acidentes. Internações ligadas ao uso de drogas aparecem em patamar reduzido.
A servidora pública Gleici Mara Silva mora na cidade sul-mato-grossense há três anos. Ela fixou residência no município após aprovação em um concurso público. O marido adquiriu propriedade rural no local.
“Eu me sinto em um condomínio fechado. Quando a gente entra no portal da cidade já sente a tranquilidade, a segurança”, diz ela. Antes, a servidora pública vivia em Fátima do Sul, no sudoeste do Mato Grosso do Sul. Ela afirma que a rotina mudou bastante.
“A minha filha pode praticar corrida nas ruas da cidade com tranquilidade, porque aqui é seguro. Se aparece alguém estranho, a Polícia Militar já aborda”. Ela reforça a percepção de segurança cotidiana. “A gente dorme com a porta encostada, o carro pode ficar aberto na rua”.
O comerciante Diogo Araújo mantém um posto de combustíveis na cidade há 15 anos. “Nunca registramos um furto no estabelecimento. A presença do policiamento é constante. É uma cidade única”, afirma.
Infraestrutura sustenta a qualidade de vida
De acordo com o levantamento da Gazeta do Povo, a infraestrutura urbana é destaque na melhor cidade para viver no Brasil: quase a totalidade das ruas é pavimentadas. Jateí mantém iluminação pública eficiente e coleta regular de lixo em todos os bairros.
“Há uma unidade prisional feminina aqui na cidade e as detentas trabalham na limpeza pública”, informa Gleici Mara Silva. Também servidora pública, Márcia Gandine mora há 46 anos na cidade e evidencia a estrutura de saúde. “Em cada uma das quatro unidades básicas de saúde trabalham quatro médicos. No hospital da cidade são vários outros. É difícil encontrar essa estrutura em uma cidade pequena”.
O comerciante Diego Araújo recorda que Jateí mantém a tradição dos pequenos municípios, de conversas nas calçadas e brincadeiras nas praças. “Aqui é tudo muito bem arborizado. As crianças podem brincar nas calçadas, na sombra. As ruas são 100% asfaltadas e toda iluminação é em LED. Não há problema em ficar nas ruas até tarde”, diz.
Economia rural e produção suína impulsionam desenvolvimento de Jateí
Na economia, os números de Jateí chamam atenção. O salário médio chega a R$ 3.679. O valor supera a média nacional, de R$ 3.477 registrado no segundo semestre de 2025, de acordo com o IBGE. O Produto Interno Bruto (PIB) per capita alcança R$ 119.162,85.
A suinocultura impulsiona esse resultado e sustenta a base econômica local. Segundo a prefeitura de Jateí, o município abastece parte significativa do abate diário da indústria Seara Alimentos.
O produtor rural Ademar Caetano vive no município desde 1991 e trabalha com a criação de porcos. “Em média são 8 mil porcos abatidos por dia na Seara. Pelo menos 40% desse total é criação de Jateí”, calcula.
A cadeia produtiva envolve várias etapas. “São muitas granjas em Jateí. Tem as que fazem a maternidade, o desmame, a creche, a engorda e por fim o abate. Há uma expectativa grande de crescimento, porque encontramos um nicho que deu certo para fazer crescer a nossa produção rural”. De acordo com a Secretaria de Agricultura de Jateí, o município registrou abate de 254 mil suínos em 2025.
Com emancipação em 1947, Jateí construiu sua força econômica na agricultura e na pecuária. Entre as décadas de 1970 e 1980, algodão, café e mandioca lideraram as lavouras, mas o milho e a soja ganharam espaço e se tornaram as maiores culturas locais.
Em 2025, de acordo com a Secretaria da Agricultura do município, a estimativa da produção de soja era alcançar 151 milhões de toneladas e a de milho 134 milhões de toneladas. Os números finais ainda estão em levantamento.
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Jateí é o segundo menor município de Mato Grosso do Sul em população. Apenas 47 habitantes o separam de Figueirão, o menos populoso do estado. A área territorial soma 1.933,316 quilômetros quadrados. A densidade demográfica chega a 1,85 habitante por quilômetro quadrado.
O povoamento começou em 1943, com a Colônia Agrícola Nacional de Dourados, durante o governo de Getúlio Vargas. O município foi criado pela Lei nº 1950, de 11 de novembro de 1963.
O nome Jateí deriva de uma variação de jataí, espécie de abelha silvestre. Relatos históricos associam o nome a um episódio envolvendo um machado esquecido em área de mata, de um pai explicando ao filho que havia esquecido a ferramenta, fugindo de um enxame, que teria dito: “esqueci lá no jateí”.
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Um dos fundadores da cidade, Pedro Neres chegou às terras de Jateí em 1946, com uma imagem de São Pedro. A primeira capela surgiu em homenagem ao santo e a devoção se mantém. A matriz da cidade é dedicada ao apóstolo pescador.
A professora aposentada Ilda Lopes relembra as primeiras celebrações com a fogueira junina naquela que se tornou a melhor cidade para se viver no Brasil. “Nasci conhecendo a tradição da fogueira em honra a São Pedro. Meus pais ajudavam nas primeiras fogueiras, que se acendiam para rezar o terço. Em 1976, o professor Manoel Sanches Rodrigues e seus alunos começaram o projeto de uma fogueira maior, que já nessa época foi de seis metros”, conta.
Em 2002, a fogueira entrou para o livro dos recordes mundiais, de acordo com a prefeitura. Nas últimas edições da festa, a fogueira chegou a cerca de 60 metros de altura. Em 2022, a festa reuniu mais de 120 mil pessoas.
Fogueira de Jateí (MS) leva um mês para ser montada, com madeira de reflorestamento e estrutura hidráulica. (Foto: Gabriel Rezende/Prefeitura de Jateí)Segundo a prefeitura de Jateí, a construção da fogueira leva cerca de um mês, utiliza madeira de reflorestamento e segue normas técnicas de segurança. A base começa com oito metros de largura. Nos últimos lances, a estrutura se fecha com dois metros.
No topo, feixes de bambu formam uma espécie de pavio. Um mastro final sustenta a bandeira do município. Para viabilizar a montagem, uma estrutura hidráulica funciona como elevador e cabos de aço sustentam toda a fogueira. A Festa da Fogueira ocorre na semana que abrange o dia 29 de junho.
Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/brasil/o-que-faz-desta-cidade-a-melhor-para-se-viver-no-brasil/
