A exemplo do Comando Vermelho (CV), fundado cerca de quatro anos antes, o Primeiro Comando da Capital (PCC), considerada por autoridades e estudiosos a maior e mais poderosa facção criminosa do Brasil, não nasceu nas ruas, mas sim no epicentro do caos e da barbárie do sistema prisional — nesse caso, o paulista, ao invés do carioca. A fundação oficial do PCC foi em 1993, dentro do Anexo da Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté (SP), conhecido à época como “Cadeião de Taubaté”, famoso por abrigar presos considerados de alta periculosidade e de difícil convivência com outros detentos.
As lideranças que se organizaram em Taubaté estabeleceram o PCC com o objetivo explícito de combater o que chamavam de “opressão” do sistema prisional contra os presos e de vingar os mortos do episódio que ficou conhecido como “massacre do Carandiru”: em outubro de 1992, a Polícia Militar invadiu o Pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo e matou 111 presos durante uma rebelião na cadeia.
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Facção ganha impulso nos anos 2000 demonstrando poder frente ao Estado brasileiro
Entre os fundadores do PCC, destacaram-se nomes como José Márcio Felício, o “Geleião“, e César Augusto Roriz Silva, o “Cesinha” (ambos já mortos). O que começou como uma organização criminosa voltada para dentro dos presídios, rapidamente ganhou as ruas com uso da violência e da disciplina rigorosa imposta aos seus membros dentro e fora da cadeia.
A grande inflexão que levou o PCC ao domínio total do sistema carcerário e do tráfico de drogas de São Paulo ocorreu a partir do início dos anos 2000, quando Marcos Willians Herbas Camacho, o “Marcola”, ascendeu ao poder e começou a transformar a facção criminosa em um império do tráfico de drogas transnacional. Em 2001, uma megarrebelião simultânea em 29 presídios paulistas tornou a facção conhecida nacionalmente — até então, o governo de São Paulo negava sua existência.
Cinco anos depois, em maio de 2006, o PCC promoveu ataques maciços contra forças de segurança e alvos civis em todo o estado de São Paulo, em reação à transferência dos líderes presos para regimes diferenciados de segurança máxima, com a perda de diversos benefícios e endurecimento das condições de cumprimento das penas. O chamado “salve geral” paralisou o estado, especialmente a capital, e deixou um rastro de mais de 500 mortos — incluindo 50 agentes públicos, bandidos e civis inocentes mortos tanto nos ataques dos criminosos quanto na retaliação da polícia.
Megarrebelião simultânea em 29 presídios paulistas tornou a facção conhecida nacionalmente no ano de 2001. Até então, o governo de São Paulo negava sua existência.
“Os acontecimentos de 2006 marcaram profundamente a Segurança Pública em São Paulo e influenciaram a forma como o Estado passou a compreender o fenômeno do crime organizado”, afirma a delegada Regina Campanelli, da Polícia Civil de São Paulo, à Gazeta do Povo.
“Foi um período crítico, que evidenciou a complexidade desse tipo de enfrentamento e a necessidade de respostas mais estruturadas e integradas. Aquele momento funcionou como um ponto de inflexão, a partir do qual o Estado aprofundou o uso de inteligência, qualificou investigações e fortaleceu a atuação integrada entre as forças de segurança e o sistema de Justiça”, afirma a delegada, que comanda a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Arujá e a Delegacia de Área de Santa Isabel, ambas em São Paulo.
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Domínio de rotas foi preponderante para a expansão internacional do PCC
Enquanto consolidava-se como um problema de segurança nacional, o PCC expandia seu domínio sobre o tráfico de drogas de São Paulo para outros pontos do país e passava a controlar rotas de tráfico importantes, como a Rota Caipira, o que permitiu preparar o próximo grande passo da organização criminosa, a partir dos anos 2010: a expansão internacional.
Após disputas com outros grupos criminosos que resultaram em diversos massacres e assassinatos de chefões do crime locais, o PCC estabeleceu bases sólidas na fronteira com o Paraguai, especialmente em Pedro Juan Caballero, e na Bolívia, tornando-se o principal intermediário entre os cartéis latino-americanos produtores de cocaína e o mercado europeu, via portos de Santos e Paranaguá.
Para a delegada Campanelli, nos últimos anos observa-se uma maior atuação de organizações criminosas em regiões de fronteira, o que está relacionado à dinâmica do tráfico internacional e à necessidade de controle de rotas. “A migração para crimes de maior retorno financeiro e menor exposição direta à violência é uma tendência observada em organizações criminosas. O tráfico internacional se insere nesse contexto pela alta rentabilidade e complexidade logística”, afirma.
Trata-se de um movimento que acompanha a lógica do crime organizado em escala global, e não de um fenômeno isolado, acrescenta a delegada. “Essas organizações tendem a adotar estruturas mais sofisticadas e flexíveis, com divisão de funções e foco logístico, mas isso não altera sua natureza criminosa”.
O PCC estabeleceu bases sólidas no Paraguai e na Bolívia, tornando-se o principal intermediário entre os cartéis latino-americanos produtores de cocaína e o mercado europeu, via portos de Santos e Paranaguá.
Lógica empresarial capitalista norteia a maior facção do Brasil
Conforme a análise da cientista social e pesquisadora do crime organizado, Camila Dias, o PCC se estruturou com uma lógica empresarial capitalista. “Não se trata apenas de bandidos, mas de uma organização que minimiza riscos, maximiza lucros, investe em logística e, crucialmente, utiliza o sistema prisional como um escritório para gerenciar seus negócios multimilionários”, afirma ela no livro “A espiral da violência”.
A escalada do faturamento trouxe um novo e complexo desafio para o PCC: a lavagem de dinheiro, continua a pesquisadora. “Não é possível movimentar grandes somas de dinheiro vivo sem atrair a atenção das autoridades financeiras. É neste ponto que a facção realiza sua transição mais perigosa, migrando do crime violento para o crime de colarinho branco e buscando a legitimidade financeira”, afirma Camila Dias em seu trabalho.
O destino desse capital ilícito se concentra em centros urbanos com intensa atividade econômica e alta rotatividade de recursos, como a região da Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo – o coração do mercado financeiro e de startups do Brasil. De acordo com investigações do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Polícia Federal (PF), a estratégia de lavagem de dinheiro envolve a criação de uma vasta rede de empresas de fachada e o uso de “laranjas” com perfis insuspeitos.
Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/brasil/pcc-do-cadeiao-de-taubate-para-faria-lima-e-o-mundo/
