A “economia prateada” ou de longevidade tem se fortalecido no mercado brasileiro: movimenta trilhões de reais por ano e cresce de forma contínua. O Brasil envelhece em ritmo acelerado e a longevidade redefine o perfil do consumidor. Especialistas indicam que tal movimento, mais que um desafio, é uma oportunidade para o país.
Projeções do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram a dimensão da mudança. Pessoas com mais de 65 anos somam 10% da população. Em 2040, esse grupo tem potencial de chegar a 17,4%. Em 2100, 29,5% do total.
No sentido oposto, o contingente jovem encolhe. Brasileiros com menos de 15 anos representam 21% da população atual. Esse percentual tem projeção de cair para 16,8% em 2040 e para 13,5% em 2100. Em menos de duas décadas, um em cada três brasileiros terá 60 anos ou mais.
Demandas de pessoas com mais de 60 anos integram a economia da longevidade
A “economia prateada” reúne atividades ligadas às demandas da população acima de 60 anos. Inclui saúde, bem-estar, tecnologia assistida, moradia, turismo, consumo e inclusão social. Trata-se de um mercado amplo, sofisticado e em rápida expansão.
No Brasil, esse segmento movimenta cerca de R$ 2 trilhões por ano. O dado é do Instituto Locomotiva, empresa brasileira de pesquisa e inteligência de mercado. No cenário global, chamada de silver economy, a “economia prateada” supera US$ 15 trilhões, segundo a consultoria Oxford Economics.
“A economia prateada ela não é um desafio, ela é uma grande oportunidade. Beneficia vários setores, como o de serviços, comércio e agropecuária – porque são os setores que concentram a maior parte dos negócios liderados por pessoas com mais de 60 anos”, dimensiona a consultora do Sebrae-PR Leticia Monteiro Pimentel. Além disso, áreas como saúde, turismo, moradia também são beneficiadas pela “economia prateada”, porque esse público busca qualidade de vida, autonomia e praticidade.
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No Sul do Brasil, o envelhecimento avança com mais intensidade que no resto do país. E é o estado do Rio Grande do Sul lidera o ranking nacional de população idosa: 20,15% dos gaúchos têm 60 anos ou mais. São mais de 2 milhões de pessoas. Em 2026, esse percentual deve chegar a 21,8%.
Nenhum outro estado brasileiro apresenta proporção semelhante. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2024 (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O Paraná segue a mesma trajetória. Projeções do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) indicam que a população com mais de 60 anos passará de 2,08 milhões em 2025 para 3,69 milhões em 2050. A participação no total da população saltará de 17,56% para 29,81%.
Em 2050, o Paraná terá 164 mil pessoas com mais de 90 anos. Curitiba concentrará cerca de 36 mil desse total. Santa Catarina também acelera nesse processo. O estado soma 1,25 milhão de pessoas com 60 anos ou mais.
Esse grupo representa 15,6% da população, segundo a Pnad Contínua de 2024. A projeção aponta que, até 2034, os idosos responderão por 20% da população catarinense.
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O envelhecimento não afasta esse público do mercado de trabalho. Dados da Síntese de Indicadores Sociais do IBGE mostram que 24,4% das pessoas com mais de 60 anos estavam ocupadas em 2024. Mesmo após os 70 anos, a atividade persiste. Nesse grupo, 15,7% dos homens e 5,8% das mulheres permaneciam ocupados.
No Paraná, o número de idosos com trabalho formal ou informal cresceu 63% nos últimos 12 anos. Em 2024, cerca de 490 mil pessoas com mais de 60 anos trabalhavam no estado. Esse contingente representou 8% da população ocupada.
No estado vizinho de Santa Catarina, 338.800 idosos estavam no mercado de trabalho em 2024. Eles respondiam por 7,7% da força de trabalho estadual. No Rio Grande do Sul, 590 mil pessoas com 60 anos ou mais trabalhavam no mesmo período. O grupo representava 9,83% dos trabalhadores gaúchos.
Com o envelhecimento acelerado do Brasil, saúde, turismo, moradia e serviços passam a liderar a “economia prateada”. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)“Economia prateada” reforça o peso do consumo após os 60 anos
O comportamento de consumo também mudou. Uma pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) revela que 41% dos idosos gastam mais com produtos de desejo do que com itens básicos. Para 66%, aproveitar a vida ocupa o primeiro lugar nas prioridades.
O turismo aparece como um dos setores mais impactados. Segundo a Associação Brasileira de Agências de Viagem (Abav), brasileiros com mais de 50 anos viajam, em média, duas a três vezes por ano.
O Data8, hub latino-americano especializado em economia da longevidade, desenvolveu a pesquisa “Mercado prateado”. O trabalho inspira-se em um estudo europeu de referência mundial. O objetivo é estimar o peso do público com mais de 50 anos no Produto Interno Bruto (PIB), mapear padrões de consumo e projetar cenários futuros.
Os números impressionam. Nos próximos anos, esse grupo deve movimentar R$ 3,8 trilhões no Brasil. Em 2024, o consumo das pessoas com mais de 50 anos somou R$ 1,8 trilhão. Esse valor representou 24% do consumo privado total dos domicílios brasileiros.
No Paraná, o peso econômico desse grupo já se impõe. “Um dado que ajuda a entender isso é que cerca de 13% dos empreendedores do estado possuem mais de 60 anos. São mais de 200 mil negócios liderados por pessoas dessa faixa etária, ou seja, não estamos falando de um grupo dependente, nós estamos falando de pessoas que trabalham empreendem consomem e movimentam a economia paranaense”, afirma a consultora do Sebrae-PR.
Consumo da população com mais de 60 anos varia por classe social e redefine prioridades de gastos
O estudo do Data8 detalha a cesta de consumo por classe social.
- Na classe A, transporte lidera os gastos, com 25%. Alimentação e habitação aparecem com 20% cada. Saúde responde por 16%.
- Na classe B, habitação concentra 24% do consumo. Alimentação soma 22%. Transporte chega a 20%.
- Na classe C, habitação assume peso ainda maior, com 30%. Alimentação atinge 26%. Saúde representa 15%.
- Na classe D, habitação alcança 34% dos gastos. Alimentação responde por 28%. Saúde soma 12%.
A economista-chefe do Sistema Fecomércio-RS, Patrícia Palermo, avalia que as iniciativas públicas e privadas ainda são tímidas, diante do acelerado envelhecimento da população. “As estatísticas mostram a revolução que estamos vivendo em termos demográficos. Não vejo, de forma estruturada, uma transformação nas políticas públicas, nem na forma como o setor privado lida com essa rápida mudança da nossa composição demográfica”, afirma a economista.
Patrícia Palermo aponta que o Brasil deve passar por um processo de mudança no mercado de trabalho nos próximos anos. “Ainda que haja iniciativas, públicas e privadas, voltadas à mudança do perfil demográfico, elas são nichadas e pontuais. A lógica das empresas, no que diz respeito ao mercado de consumo ou ao mercado de trabalho, ainda é focada no padrão histórico em que éramos uma sociedade jovem”, completa a chefe da Fecomércio-RS.
Turismo social e eventos impulsionam a economia da longevidade no Sul do Brasil
Com visão mais otimista, a analista de turismo do Departamento Regional do Sesc-SC Anna Luiza Pillar Correa acredita que o turismo social ilustra como o mercado da “economia prateada” se organiza na prática. No Serviço Social do Comércio (Sesc), o público idoso domina os roteiros.
“Esse público vem muito forte, eles gostam da ideia de viajar em grupo para poder compartilhar um pouco mais de experiências, trocar ideia”, afirma a analista. No Rio Grande do Sul, a economia da longevidade ganhou um palco próprio. A “Geronto Fair”, realizada anualmente em Gramado, tornou-se referência nacional.
O evento reúne iniciativas de negócios, políticas públicas e inovação. Um dos exemplos é a cooperativa “Olhares de Hamburgo”, de Novo Hamburgo. Mulheres acima de 60 anos transformaram encontros em torno do chimarrão em um negócio de bolsas e acessórios de couro reaproveitado.
A diretora da Merkator Feiras e Eventos, Roberta Pletsch, destaca a proposta do evento.
“Não falamos só de saúde, mas também de moda, turismo, lazer, bem-estar, consumo e políticas públicas. Queremos provocar um olhar mais amplo sobre o envelhecimento ativo e produtivo”, diz a diretora.
No Paraná, políticas públicas reforçam esse movimento. As secretaria estaduais do Turismo e da Mulher, Igualdade Racial e Pessoa Idosa desenvolvem um projeto que amplia o acesso da população com mais de 60 anos ao turismo estadual, com a proposta de desenvolver bem-estar social, cultural, psicológico e físico por meio de viagens subsidiadas.
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Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/brasil/sul-do-brasil-ensina-sobre-economia-prateada-longevidade/
