18 de janeiro de 2026
Pare de usar inseticida: entenda por que venenos podem multiplicar
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Se você costuma aplicar inseticida ou jogar água sanitária nos ralos para matar escorpiões, pare agora. O Instituto Butantan emitiu um alerta esclarecendo que o uso de produtos químicos não apenas é ineficaz, como pode piorar a situação, espalhando os animais pela casa e aumentando o risco de acidentes.

Em 2024, os escorpiões lideraram o ranking de acidentes com animais peçonhentos no Brasil, com quase 200 mil casos registrados. A adaptação desses aracnídeos ao ambiente urbano (vivendo em esgotos e entulhos) exige estratégias de combate baseadas em ciência, não em mitos populares.

Confira abaixo por que o veneno falha e os 5 principais erros que cometemos ao tentar nos proteger!

1) O efeito rebote dos inseticidas

Ao contrário do que acontece com baratas ou formigas, os escorpiões possuem mecanismos biológicos de defesa sofisticados. Segundo Paulo Goldoni, aracnólogo do Laboratório de Coleções Zoológicas do Instituto Butantan, o uso de venenos comuns (como sprays, pesticidas, creolina ou água sanitária) gera dois problemas graves:

  • Capacidade de “prender” a respiração: o escorpião consegue fechar seus estigmas respiratórios (os orifícios por onde respira). Isso permite que ele sobreviva ao contato inicial com o veneno por tempo indeterminado.
  • O “efeito desalojante”: ao perceber o irritante químico, o animal não morre imediatamente; ele foge. Isso faz com que ele saia de seu esconderijo (esgotos e frestas) e migre para locais mais expostos dentro de casa, como sapatos, roupas de cama e cortinas, aumentando drasticamente a chance de um encontro acidental com humanos.
Poder de multiplicação: fêmeas do escorpião-amarelo não precisam de machos para se reproduzir e podem gerar dezenas de filhotes por vez, agravando infestações. Imagem: Butantan / Reprodução

O perigo da “clonagem” sob estresse

Um dado que parece ficção científica, mas é realidade biológica: o estresse causado pelo veneno pode favorecer a partenogênese.

Nesse processo reprodutivo, a fêmea consegue gerar filhotes sozinha, sem a necessidade de fecundação por um macho. Como o escorpião se reproduz rapidamente (pelo menos quatro vezes ao ano, com cerca de 20 filhotes por vez), tentar envenená-lo pode, ironicamente, acelerar o crescimento da população na sua residência.

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2) Plantas e cheiros não funcionam

Esqueça a ideia de plantar lavanda, citronela, arruda ou alecrim para criar uma barreira natural. O Butantan reforça que não há comprovação científica de que qualquer planta repila escorpiões.

Esses animais são extremamente adaptáveis, vivendo desde desertos áridos até florestas úmidas. A única “preferência” botânica conhecida é da espécie Tityus neglectus (comum no Nordeste e de baixa periculosidade), que gosta de se abrigar em bromélias – mas por causa da água acumulada, não pelo cheiro.

Vista superior do centro de uma bromélia com água acumulada entre suas folhas verdes, demonstrando um possível local de hidratação para animais
O perigo da água parada: plantas não repelem escorpiões; pelo contrário, espécies como bromélias podem servir de abrigo devido ao acúmulo de água entre as folhas. Imagem: Karim Shuaib II / Shutterstock

3) O mito da criação de galinhas

Embora galinhas sejam predadores naturais de escorpiões, adotá-las como método de controle urbano é ineficaz e perigoso.

A principal razão para não usar a galinha é a incompatibilidade de horários: galinhas são diurnas; escorpiões são noturnos. As chances de encontro entre predador e presa são baixas.

Se você quer um controle biológico eficaz, a recomendação oficial é outra: Segundo o Manual de Controle de Escorpiões, do Ministério da Saúde, a melhor estratégia é preservar os inimigos naturais que já existem no ambiente e que compartilham hábitos ou habitats com o aracnídeo, como corujas, pequenos macacos, quati, lagartos, sapos e gansos.

Um segundo motivo é o aumento de risco de doença, pois as fezes das galinhas atraem o mosquito-palha, vetor da leishmaniose. Trata-se de uma doença grave que, se não tratada, tem alta taxa de letalidade. Ou seja, você troca um risco pelo outro.

4) Nada de “soluções caseiras” na picada

Em caso de acidente, o tempo é precioso. Mitos como fazer torniquete, furar o local, sugar o veneno ou aplicar álcool e “garrafadas” (misturas caseiras com o próprio animal morto) só aumentam a chance de infecção e necrose.

O protocolo correto é simples:

  • Lave o local apenas com água e sabão;
  • Dirija-se imediatamente ao serviço médico mais próximo;
  • Se possível (e seguro), leve uma foto do animal para facilitar a identificação da espécie e o tratamento.

5) Caixas de ovos não são armadilhas

Você já deve ter visto fotos de laboratórios ou do próprio Butantan onde dezenas de escorpiões aparecem aninhados em cartelas de ovos. Muita gente confunde essa imagem e passa a espalhar caixas de papelão pelos cantos da casa achando que elas funcionarão como uma “isca” ou armadilha para capturar o animal. Isso é um erro.

Mão de uma pessoa jogando uma caixa de ovos de papelão dentro de uma lixeira de reciclagem verde, ilustrando o descarte correto de entulho.
Abrigo, não armadilha: caixas de ovos deixadas no quintal não capturam escorpiões; pelo contrário, elas oferecem um esconderijo escuro e perfeito para o animal morar. O descarte correto é fundamental. Imagem: New Africa / Shutterstock

O Ministério da Saúde e o Butantan explicam que as bandejas são usadas apenas para o transporte seguro de animais já capturados por profissionais, dentro de caixas plásticas fechadas. Elas servem para evitar que os animais se choquem uns com os outros.

Deixar uma caixa de ovos aberta no quintal ou na garagem não vai prender o escorpião. Pior: por ser um local escuro e cheio de frestas, o papelão pode acabar servindo de abrigo perfeito para ele morar (ou para as baratas, que servem de almoço para ele), atraindo o problema em vez de resolvê-lo.

O que realmente funciona?

Se o inseticida não resolve, a solução é vencer o animal pelo cansaço: cortando o abrigo e a comida dele. Se você quer manter o escorpião longe da sua casa, as principais recomendações oficiais são:

  • Corte o “banquete”: o prato favorito do escorpião é a barata. Por isso, não acumule lixo, entulhos ou materiais de construção no quintal. Além de servirem de esconderijo, essa bagunça atrai baratas, que acabam atraindo o predador delas para dentro do seu terreno.
  • Tranque as portas: como eles vêm pelo esgoto, o ideal é colocar telas em ralos de chão, pias e tanques, além de vedar frestas em portas e janelas.
  • Crie o hábito da checagem: A maioria dos acidentes acontece porque o animal se escondeu em algo que fomos vestir. A regra de ouro é sempre sacudir roupas e sapatos antes de usá-los e afastar as camas da parede.

Se encontrar um escorpião, não tente pegá-lo com as mãos. Se sentir segurança, use calçados fechados e tente capturá-lo empurrando-o para um pote plástico, levando-o ao Centro de Controle de Zoonoses. Caso contrário, acione a prefeitura.

O post Pare de usar inseticida: entenda por que venenos podem multiplicar os escorpiões apareceu primeiro em Olhar Digital.

Fonte: https://olhardigital.com.br/2026/01/18/ciencia-e-espaco/escorpiao-como-matar-certo-e-riscos/