Muita gente vai sentir-se velha a ler estas palavras. Esta sexta-feira, 23 de janeiro, faz 20 anos que os Arctic Monkeys lançaram o seu álbum de estreia. Sim, leram bem. Faz hoje duas décadas que Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not foi revelado ao mundo. Muito já mudou, inclusive para Alex Turner e companhia, mas uma coisa é certa: Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not é um dos álbuns mais importantes e influentes de rock dos últimos 20 anos.
Em janeiro de 2006, os Arctic Monkeys passaram de promessas imediatas a estrelas consagradas do indie rock britânico. Nos anos que antecederam o lançamento do seu álbum de estreia, Alex Turner (voz, guitarra, letras), Andy Nicholson (baixo, coros), Matt Helders (bateria, coros) e Jamie Cook (guitarra), passaram o seu tempo livre após juntarem-se em 2002, em Sheffield, a ensaiarem, primeiro, e depois, a tocar ao vivo, como amigos que eram. Entre os seus explosivos concertos e as demos que iam circulando de mão em mão, o entusiasmo em torno dos Arctic Monkeys cresceu.
A Internet e o MySpace ajudaram ao hype e, surfando na crista da onda do revivalismo do rock do início dos anos 2000 de bandas como os The Strokes, Yeah Yeah Yeahs ou The Libertines, os Arctic Monkeys passaram a ser reconhecidos como a banda britânica mais excitante desde os Oasis. Eram jovens a fazer música que contava as peripécias que outros tantos jovens viviam nos seus dias e, acima de tudo, noites. Nas canções que os Macacos do Ártico foram tocando ao vivo entre 2003 – ano do seu primeiro concerto – e 2005, ano em que lançaram o seu primeiro EP (Five Minutes with Arctic Monkeys) e assinaram pela influente Domino Records – casa de bandas como os Franz Ferdinand –, Alex Turner cantava sobre as aventuras noturnas de Sheffield e pintava retratos excitantes e chistosos sobre as peripécias de ser jovem e viver cada dia como se fosse o último.
É essa energia que emana Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, um disco onde as várias influências dos Arctic Monkeys – os Libertines, os Strokes, os The Streets, entre outras – são conjugadas para criar algumas das melhores canções de indie rock dos anos 2000. Não há dúvida de que os Arctic Monkeys mudaram a história do rock alternativo e não restam dúvidas de que Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not foi um sucesso. Por muito que Alex Turner quisesse que as pessoas não acreditassem no hype, muitos cederam. Perguntem a quem marcou presença no Paradise Garage, em maio de 2006, o primeiro concerto dos Arctic Monkeys em Portugal, e vejam o sorriso imediato a surgir e a história pronta a ser contada. Marcou uma geração.
Para celebrar os 20 anos de Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, fizemos um exercício diferente e refletimos e ordenamos por ordem de preferência as 13 canções que fazem parte do álbum de estreia da banda britânica. Porquê? Porque este crítico queria refletir sobre o legado de todas essas canções. Vamos a isso.
13. “Red Light Indicates Doors Are Secured”
Escolher uma canção de Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not para ficar no lugar de baixo desta lista é um exercício difícil. Porque, sucintamente, não existe uma canção “má” no álbum de estreia dos Arctic Monkeys. Contudo, se alguma faixa é a mais sui generis do disco, é “Red Light Indicates Doors Are Secured”.
Surgindo a meio do álbum, “Red Light Indicates Doors Are Secured” é uma faixa que faz parte do grande conceito que conecta várias das canções de Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not: relatos da vida de jovens oriundos de Sheffield que frequentam os “clubes noturnos do norte de Inglaterra”, como declarou Barry Walters na Rolling Stone em 2006. Nesta faixa, Alex Turner conta a história na primeira pessoa (como muitas que preenchem o disco) de alguém tentar apanhar um táxi com os seus amigos – possivelmente, Turner e os seus colegas de banda – e tentar regressar são e salvo a High Green após uma noite de álcool e diversão. Degredo, portanto.
“Red Light Indicates Doors Are Secured” está em último lugar nesta lista porque, ao nível de canções sobre diversão noturna presentes em Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, é a menos memorável. Tem tudo o que se pretende de uma canção da primeira fase dos Arctic Monkeys – baixo galopante, guitarras cortantes, bateria groovy, o swag juvenil de Turner e camaradas bem delineado –, mas todas as outras canções do álbum também têm isso. Além do mais, simplesmente são mais interessantes. Se quisermos escutar canções sobre a noite de Sheffield para imaginarmos sermos mais fixes do que os nossos amigos, o disco tem outras malhas que representam melhor esse imaginário do que “Red Light Indicates Doors Are Secured”.
12. “Still Take You Home”
Uma das faixas mais rockeiras de Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, “Still Take You Home” revela a habilidade dos Arctic Monkeys, no início de carreira, para tocarem bem rápido. As guitarras de Alex Turner e Jamie Cook galgam terreno, o baixo de Andy Nicholson agarra-se como pode, mas é a bateria de Matt Helders que rouba a atenção.
No passado, teria colocado “Still Take You Home” numa posição mais alta nesta lista. Porém, com o passar do tempo, o retrato clichê pintado por Alex Turner nesta faixa sobre uma mulher é mais relacionável quando se é um adolescente excitado com desejos carnais pela noite dentro (“I fancy you with a passion / Oh, you’re a Topshop princess, a rockstar too / But you’re a fad and you’re a fashion / And I’m havin’ a job tryin’ to talk to you”) do que um jovem adulto à procura de estabilidade na vida. (Porém, isso também é um clichê). Contudo, os Arctic Monkeys parecem concordar que esta música fazia mais sentido quando eram mais jovens. A partir de 2012, deixaram-na de tocar ao vivo. Lá devem ter as suas razões.
11. “You Probably Couldn’t See For The Lights But You Were Staring Straight At Me”
A faixa com o título mais comprido de Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, “You Probably Couldn’t See For the Lights But You Were Staring Straight at Me” possui um charme específico por ser a canção do álbum que melhor demonstra uma das mais notáveis armas secretas dos Arctic Monkeys: os coros de Matt Helders.
Nos álbuns seguintes dos Arctic Monkeys, a voz de Matt Helders manteria (e até ganharia, diga-se) importância em alguns dos melhores momentos desses discos, como é o caso de “Teddy Picker” (de Favourite Worst Nightmare), de “Brick by Brick” (de Suck It and See) ou “One For The Road” (de AM). Em “You Probably Couldn’t See For The Lights But You Were Staring Straight At Me”, a voz do baterista representa as dúvidas internas de Turner enquanto este encara uma paixoneta sua num concerto (quiçá, a paixoneta era quem estava em cima de palco…).
É por isso que “You Probably Couldn’t See For The Lights But You Were Staring Straight At Me” está acima de “Still Take You Home” nesta lista: é menos clichê e mais assente em inseguranças reais. Fora isso, é uma faixa bem acelerada e bem catita de rock garageiro, dividida entre o cool dos Strokes e o deboche dos Libertines.
10. “Mardy Bum”
Sinto que tenho de fugir para as trincheiras ao colocar “Mardy Bum” num lugar tão baixo nesta lista. Uma das canções favoritas dos fãs dos Arctic Monkeys, “Mardy Bum” é uma das faixas menos rock de Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not e, sem dúvida, uma das mais pop. Em retrospetiva, escutamos em “Mardy Bum” a devoção de Turner pela pop dos anos 60 e 70 (em particular, pela chanson francesa), que se tornaria mais óbvia no pós-Submarine e Suck It and See.
Contudo, se “Mardy Bum” é uma faixa importante para a carreira dos Arctic Monkeys, em Whatever People Say I Am, That’s I’m Not, a canção serve como um momento para respirar e refletir. Quando éramos mais novos, era a canção que escutamos quando nos apaixonamos pela primeira vez (estou a falar por experiência própria). Fazia sentido. Mais tarde, quando percebemos que nem tudo era um mar de rosas, entendemos que a imagem pintada em “Mardy Bum” é mais cínica do que aparenta. Boa canção, sem dúvida, mas uma que nos pode sem querer condenar à nostalgia de algo que parecia bom no passado, mas que, na realidade, não era. Tenham cuidado quando a ouvem.
9. “Fake Tales Of San Francisco”
Uma das duas canções que fizeram parte de Five Minutes with Arctic Monkeys, “Fake Tales Of San Francisco” é um excelente retrato da sonoridade e estrutura de canção que a banda tão bem dominou nos primeiros tempos enquanto grupo. Linha de baixo dançável (Andy Nicholson é um baixista muito subvalorizado), um pára-arranque mais do que digno de bater o pé entre as guitarras de Cook e Turner e a bateria de Helders, um clímax fortíssimo, e um Turner bem-engraçado a revelar-se como um poeta folião capaz de contar histórias mirabolantes e estapafúrdias sobre a noite de Sheffield.
Contudo, em “Fake Tales Of San Francisco”, encontramos, mais uma vez, o lado mais cínico desta arte de ser uma banda a começar a ser reconhecida. Quantos querem mesmo saber da música ou quantos só querem parecer fixes (“So get off the bandwagon, and put down the handbook”) à frente de donzelas? No caso dos Arctic Monkeys, à medida que o tempo avançou, essa questão passou a assombrar amplamente Alex Turner, em particular no pós-AM face ao novo patamar de fama e reconhecimento que os Arctic Monkeys atingiram com o álbum de “Do I Wanna Know?”.
“Fake Tales Of San Francisco” é uma das muitas provas que Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not é um álbum bem mais triste do que aparenta. E é uma canção muito boa – só não é das minhas favoritas do álbum.
8. “Perhaps Vampires Is A Bit Strong But…”
Tal como “Fake Tales Of San Francisco”, “Perhaps Vampires Is A Bit Strong But…” é uma canção sobre o estatuto dos Arctic Monkeys. Turner e companhia queriam tocar sem saber muito das condições e o sururu boca-a-boca gerado pelos seus concertos ajudou ao entusiasmo que se concentrou em torno da banda até assinarem pela Domino em junho de 2005 – pouco mais de um mês após o lançamento de Five Minutes with Arctic Monkeys. Porém, ao que parece, alguns dos conhecidos dos Macacos – os tais vampiros – duvidavam da sua capacidade de irem longe na música.
Para os Arctic Monkeys, isso pouco importava. Eles tocavam não pela fama ou pelo hype, mas porque queriam. Fazia parte da sua génese e queriam fazer as coisas à sua maneira (“But it’s true, said, I’m not like you / And I don’t want your advice or your praise / Or to move in the ways you do / And I never will”). Em “Perhaps Vampires Is A Bit Strong But…”, os Arctic Monkeys demonstram esse compromisso (se sempre se mantiveram fieis a este, é outra conversa e discussão), e apresentam uma das canções onde os talentos enquanto instrumentistas dos membros da banda mais se evidenciam no seu álbum de estreia. Se os Arctic Monkeys começaram em 2002 como uma banda só de instrumentais antes de Turner se assumir (com relutância) como vocalista e letrista, em “Perhaps Vampires Is A Bit Strong But…” nota-se a sincronia e química do quarteto de Sheffield. Pretty fuckin’ great song, ao ponto de que sinto quase a vontade de a colocar mais acima nesta lista. Porém, seguimos.
7. “From The Ritz To The Rubble”
A outra canção presente em Five Minutes with Arctic Monkeys, “From The Ritz To The Rubble” é, na minha visão, uma das canções mais divertidas de Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not. Tem algumas das guitarras mais “pesadas” de todo o disco, algumas das linhas de baixo mais dançáveis de todo o álbum, algumas das baterias mais aguerridas do longa-duração. Acima de tudo, “From The Ritz To The Rubble” demonstra o grande impacto que o hip-hop dos The Streets teve nos Arctic Monkeys.
Nos versos de “From The Ritz To The Rubble”, e em muitos dos momentos mais acelerados do álbum, Turner está mais próximo de homenagear Mike Skinner do que em tentar soar ao gajo mais fixe e despreocupado do indie rock desde Julian Casablancas. Essa é outra das razões que separa Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not e os Arctic Monkeys de alguns dos seus contemporâneos que ajudaram a dar nova vida à música de guitarra durante a década de 2000.
“From The Ritz To The Rubble” é uma excelente demonstração da colisão entre as subculturas da noite de Sheffield a ocorrerem num bar qualquer (pelo menos, quando os seguranças não são idiotas totalitaristas e deixam entrar as pessoas) entre muitos copos e curtes. A canção estar em 7º lugar nesta lista também diz muito da enorme qualidade de Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not. Daqui para a frente, as decisões só ficaram (ainda) mais difíceis.
6. “When The Sun Goes Down”
“When The Sun Goes Down” é um dos grandes hits de Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not. Foi o segundo single do álbum revelado ao mundo e, tal como o primeiro avanço do disco (já lá vamos), chegou ao número um na tabela de singles do Reino Unido. Facto interessante, sem dúvida, que se torna ainda mais quando nos apercebemos que “When The Sun Goes Down” fala sobre a prostituição que Turner e amigos encontravam durante a noite em Sheffield.
Sem dúvida alguma, “When The Sun Goes Down” é uma das canções do álbum que melhor demonstra o olhar atento de Turner àquilo que o rodeava na sua cidade natal. Os seus relatos, porém, nem romantizam nem menosprezam aquilo que viu nas ruas da sua cidade, como apontou Kelefa Sanneh no New York Times em 2006. E é nesses relatos onde encontramos exposta a relação complicada que Turner tinha com Sheffield – mais complicada do que parece à primeira vista.
De um lado, claro, os copos, os amigos, a diversão depois do sol se pôr. Do outro, as dificuldades dos mais ignorados pela sociedade, simplesmente a tentarem sobreviver como podiam. Mais uma vez, “When The Sun Goes Down” mostra o olhar cínico com que Turner flerta ao longo do álbum. E se tudo isso não fossem razões suficientes para “When The Sun Goes Down” figurar tão alto nesta lista, a transição da introdução para o primeiro verso é de tal forma clássica que é razão suficiente para este sexto lugar. (Fun fact: prefiro a versão demo desta música, presente na coletânea não-oficial Beneath the Boardwalk).
5. “Riot Van”
Sendo a canção mais lenta de Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, “Riot Van” é uma faixa singular do álbum. Podemos dizer que é uma balada? Mais ou menos. Comparativamente com as outras canções do disco, “Riot Van” soa esparsa, minimalista, mas nada romântica. Pelo contrário. É a demonstração mais evidente da melancolia que se escuta de fundo nas histórias da noite contadas no longa-duração de estreia dos Macacos do Ártico. É uma das faixas de que mais gosto em Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not porque mostra que, debaixo do rock jovial dos Arctic Monkeys, batia um coração cínico, triste, cheio de dúvida perante o estado da sociedade.
Portanto, ao nível do conceito do álbum, “Riot Van” enquadra-se no conjunto de canções que refletem sobre as experiências na noite dos jovens de Sheffield. Neste caso, o episódio retratado é um encontro com a polícia por parte de um grupo de jovens (do qual fazem ou não parte Turner e os seus camaradas) que culmina, ao que parece, num episódio de violência policial após um deles ser preso (“Thrown in the riot van, and all the coppers kicked him in / And there was no way he could win”). É uma descrição pungente da brutalidade que a polícia é capaz de desferir perante jovens que estão só a tentar a viver e a sua vida. Porque se a polícia nos deve servir e proteger, quem é que nos protege da polícia?
4. “I Bet You Look Good On The Dancefloor”
Chegamos ao território de decisões muito difíceis com o primeiro hit dos Arctic Monkeys. Nas últimas duas décadas, a probabilidade de qualquer adolescente interessado em indie rock ter pensado em começar uma banda após ouvir “I Bet You Look Good On The Dancefloor” é elevadíssima. Pelo menos, eu pensei – e às vezes ainda penso.
Prego a fundo desde o primeiro segundo, “I Bet You Look Good On The Dancefloor” justifica o seu lugar no panteão de grandes canções rock britânicas. De forma sucinta: é um banger do início ao fim. Quando publicada como primeiro single de Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not (ainda em 2005), chegou rapidamente ao número um da tabela de singles do Reino Unido, e justificou todo o hype em torno destes miúdos de Sheffield. Estava tudo lá. A vontade de procurar a diversão noite dentro, as guitarras a querer-nos fazer arder o mundo, Matt Helders a apresentar-se como um dos grandes bateristas do rock alternativo, Nicholson a aguentar com tudo à sua volta como podia. Alex, pedimos desculpa, mas o hype era mesmo justificável de acreditar.
3. “Dancing Shoes”
A ordem é do senhor Alex Turner e nós só temos de obedecer: “Get on your dancing shoes / There’s one thing on your mind”. Uma ordem é uma ordem, mas ajuda que “Dancing Shoes” seja uma enorme canção. Super dançável, com a bateria de Matt Helders preponderante para isso (e uma pista para o que se seguiria em Favourite Worst Nightmare), e um refrão explosivo onde a capacidade dos Arctic Monkeys em explorarem dinâmicas de start/stop e quiet/loud estão bem evidenciadas.
Em pouco mais de 120 segundos, a banda arrasta-nos para a pista de dança com esta ode ao disco-rock que faria os Franz Ferdinand – mestres de cerimónia da coisa – corar de inveja. E, mais uma vez, apesar de toda a diversão juvenil presente, o cinismo de Turner perante a vida noturna surge patenteado. Será que todas as noites fora de casa são sempre iguais (“Instead you’ll just do the same as they all do and hope for the best”) porque o desfecho pretendido – que todos bem sabemos qual é – é sempre o mesmo? Às vezes, há mesmo que crescer. Foi isso que os Arctic Monkeys fizeram e, se calhar, também fazia bem a uns quantos fãs da banda, que acham que os Arctic Monkeys deveriam fazer outro disco igual a Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, escutarem com atenção o cinismo de Turner e crescerem também. Tomem nota.
2. “The View From The Afternoon”
Na canção que abre Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not, não há dúvida que os Arctic Monkeys nos posicionam na linha da frente da ação do álbum. Em “The View From The Afternoon”, somos apresentados a tudo aquilo que nos espera ao longo dos pouco mais de 40 minutos de duração do disco. Baterias aguerridas e bem groovy, linhas de baixo dançáveis, guitarras cortadas influenciadas pelo punk, refrões orelhudos, e o olhar cínico de Turner a surgir de imediato: “Anticipation has a habit to set you up / For disappointment in evening entertainment, but”. Seria possível os Arctic Monkeys corresponderem às expectativas de quem achava que eram a banda mais excitante do Reino Unido desde os Oasis? A resposta é: sim.
Justificar a escolha de “The View From The Afternoon” como número dois desta lista só tem de ocorrer porque a grande indecisão na minha cabeça era entre esta e a canção que sobra para surgir em primeiro lugar. “The View From The Afternoon” é uma das minhas canções favoritas dos Arctic Monkeys e penso que é uma das melhores da banda. É mesmo a canção ideal para abrir as hostilidades de Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not.
1. “A Certain Romance”
Por onde começar a falar de “A Certain Romance”, a canção que encerra Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not? Nem sei. Se existe uma certa crueza que paira por cima das faixas do álbum de estreia dos Arctic Monkeys, “A Certain Romance” está num nível acima. É talvez, a par de “Riot Van”, a faixa mais crua do disco. Porém, se “Riot Van” é uma canção crua devido ao seu minimalismo, “A Certain Romance” soa crua porque é a faixa mais emocional do álbum. Não só em sonoridade, como também nas performances dos membros da banda. Entre tantas canções onde Alex Turner, Matt Helders, Jamie Cook e Andy Nicholson soam bem oleados, em “A Certain Romance” canalizam toda as suas frustrações de jovens adultos para a malha. É estupendo aquilo que se escuta em “A Certain Romance”. “Uma canção pop perfeita, tão perfeita quanto se pode esperar ouvir”, declarou Tim Jonze na NME em 2006. Estava correto.
Se há canção em Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not que me deixa nostálgico, é “A Certain Romance”. Por ter oito anos em 2006, não escutei Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not quando foi lançado – obviamente. Não tenho memórias do período em que todas as bandas eram apelidadas como possíveis de mudar vidas (bem, se falamos sobre bandas britânicas, isso pouco mudou, para ser justo), nem tinha irmãos nem primos que me mostrassem Arctic Monkeys ou bandas semelhantes. Só cheguei aos Arctic Monkeys em 2013, já na minha adolescência, com o lançamento de AM. A partir daí, rapidamente escutei a restante discografia de Turner e companhia publicada até então, e apaixonei-me por “A Certain Romance”. É uma canção feita por jovens (cínicos) talvez apaixonados para jovens apaixonados e para adultos românticos com capacidade de sentirem saudade de um passado já distante, mas que parece tão próximo.
Eu não sinto falta do passado, mas sinto falta da inocência escutada em “A Certain Romance”. Sinto falta dos amigos que ficaram para trás e sinto falta daqueles que estão distantes, mas que estão sempre presentes naquele que é um dos nossos bens mais preciosos – a memória. É tudo isso que é espelhado nos derradeiros momentos da canção, quando esta explode num fenomenal momento de rock emotivo e catártico. Mesmo antes disso, Turner declara a sua aliança àqueles que, independentemente das suas diferenças, farão parte do seu passado e, com certeza, do seu futuro (“But over there, there’s friends of mine ( What can I say? I’ve known ‘em for a long long time / And they might overstep the line / But you just cannot get angry in the same way”). É por isso que “A Certain Romance” é um dos melhores momentos da discografia dos Arctic Monkeys, e a melhor canção do álbum de estreia da banda. E sim, também é a minha canção favorita do disco. É por isso que surge em primeiro lugar.
Esta lista ordenada foi inspirada pelas múltiplas listas que o crítico norte-americano Steven Hyden assina na Uproxx.
Fonte: https://comunidadeculturaearte.com/20-anos-de-whatever-people-say-i-am-thats-what-im-not-o-ranking-das-13-cancoes-do-disco/

