23 de janeiro de 2026
“Vivemos num mundo volátil e instável, mas parece que a
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The Kooks / DR

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20 anos após o primeiro álbum, o estrondoso Inside In / Inside Out, os britânicos The Kooks são uma banda experiente e vivida. Ao longo de duas décadas de carreira, fizeram diferentes incursões sonoras a partir do indie rock — muitas vezes de toada pop — de que se tornaram uma instituição. Perderam membros originais do grupo, mantiveram os fãs mais devotos, mas conseguiram conquistar um novo público — o que talvez seja o melhor sinal de que uma banda está a amadurecer de forma saudável.

O sétimo álbum de originais, Never/Know, editado em maio de 2025, partiu inteiramente do vocalista e principal compositor, Luke Pritchard. Com uma família recém-constituída, o amadurecimento próprio dos 40 anos e menos disponibilidade — e vontade — para conduzir um processo tão racional (e até calculista) sobre aquilo que estava a criar, permitiu libertar-se ao escrever as canções.

Mais do que isso, procurando que os colegas de banda Hugh Harris, Alexis Nuñez e Jonathan Harvey fizessem o mesmo, levou-os à sala de ensaios sem os avisar de que já estariam a gravar o disco. Desejava captar a energia crua, a beleza da imperfeição, a descontração que tantas vezes se dissipa quando se impõe a responsabilidade de gravar um novo trabalho. Afinal, já não são miúdos numa garagem, são músicos profissionais; mas Pritchard queria recuperar a faísca jovial dos primórdios.

Depois de fazerem a sua maior digressão de sempre no Reino Unido, estão em tour pelo resto da Europa. Mais do que apresentar os temas de Never/Know, celebram em palco o 20.º aniversário da banda, com um alinhamento centrado nas suas canções mais emblemáticas. A 6 de março sobem ao palco do Campo Pequeno, em Lisboa, três anos desde a última ocasião. Ainda há bilhetes à venda entre os 26€ e os 39€.

Em entrevista à Comunidade Cultura e Arte, Luke Pritchard antecipa o espetáculo, mas acima de tudo reflete sobre o novo disco, a inspiração que vem da família, o papel escapista da música no atribulado mundo contemporâneo, o amadurecimento de uma banda, a importância de deixar para trás as expetativas (e as críticas) dos outros, além de revelar que o oitavo álbum dos The Kooks já se encontra a caminho.

Como disseste em entrevistas anteriores, querias que este disco, Never/Know, oferecesse uma sensação calorosa e que não estivesse demasiado preocupado em ser música actual. Mas como chegaste à conclusão de que uma das melhores soluções poderia ser dizer ao resto da banda que estavam apenas a ensaiar, mesmo quando já estavam a gravar?

Muito do que eu estava a viver na altura tinha a ver com o facto de que tudo na sociedade e no mundo parece tão pesado nos dias de hoje. Toda a gente pensa demasiado, e de forma tão calculada, sobre o que diz, o que faz e como age. E toda a gente sente que tem os olhos postos em si o tempo todo. Também foi nisso que a música se tornou. Quando as pessoas vão fazer música, sente-se logo que estão a ser críticas ou a pensar demasiado sobre aquilo. A música com que cresci, e que eu acho icónica, muitas vezes não tinha esse pensamento. As pessoas faziam as coisas de forma muito impulsiva. Por isso, tentei adotar essa mentalidade o máximo que pude. Em relação aos ensaios… eu tinha imensa confiança neles como músicos. São alguns dos melhores músicos que já conheci, e eu conheci muitos músicos bons. Eu sou mais um compositor, não é? Mas o Hugh, o John e o Al são músicos excecionais. Portanto, estava tão confiante de que eles seriam capazes de o fazer, que era apenas levá-los a confiar nos seus instintos. E acho que resultou. Queria um disco mais leve, mais divertido. Esse era mais ou menos o objetivo. A música vai mudando ao longo do tempo em direção àquilo de que as pessoas precisam da música. E sinto que, neste momento, é sobre escapismo. Acho que esse é o papel da música agora. Então, fui bastante insistente nisso. E as letras vieram de um lugar bastante positivo porque eu tinha acabado de constituir família e não me sentia tão em baixo e tão sombrio como noutras fases da minha vida.

The Kooks / DR

Porque é que acreditas que a música hoje deve ter esse papel de escapismo?

Bem, por todas essas razões que mencionei. Toda a gente está tão preocupada com tudo. Principalmente porque é um mundo muito volátil e é um momento muito instável. O que também é excitante, acho eu. Eu acredito no espírito humano. Acho que na história já houve coisas muito piores do que aquilo que está a acontecer agora. Mas é isso que queria dizer. Porque, ao mesmo tempo, a música ao vivo parece estar maior do que nunca. O que é bastante interessante. Falo com amigos e eles dizem: “ah, a economia está má. E há guerras a acontecer, o que é horrível”. Mas vejo imensa gente a querer ir a concertos, porque acho que é aí que encontram uma comunidade, uma fuga a tudo isso. Podem ir durante algumas horas com os amigos e perderem-se um pouco. Acho que esse se tornou o papel da música, mais do que alguma vez vi antes. Eu nasci em 1985. E os anos 90 foram a melhor época de sempre no Reino Unido, não é? E mesmo os anos 2000. Imagino que em Portugal também tenha sido bom. A música era sobre perturbar, ser anti-sistema, drogas e tudo isso. E simplesmente mudou. A música está sempre lá para as pessoas, em diferentes momentos, por diferentes razões.

“Quando fazes música há 20 anos, pode tornar-se um bocado monótono e podes ficar preso à ideia de que é um emprego. E não é bem um emprego. É algo mais do que um emprego e algo menos do que um emprego.”

E como é que os teus colegas reagiram quando perceberam que os ensaios eram, afinal, as gravações para o álbum?

Eles ficaram bastante entusiasmados, na verdade. Foi engraçado porque o que eu tinha dito era que íamos entrar e fazer praticamente tudo como se fosse ao vivo. Portanto, a reação deles foi mesmo do género: “Meu Deus, adorei aquilo que toquei, estou tão feliz”. Toda a gente achou que foi mesmo divertido, todos gostaram do processo. E acho que isso se ouve mesmo no disco e está em sintonia com todo o nosso sistema de crenças enquanto banda. Simplesmente divertirmo-nos. Acho que eles gostaram mesmo do processo de tentar voltar à altura em que começámos a fazer música. Porque, quando fazes isto há 20 anos, pode tornar-se um bocado monótono e podes ficar preso à ideia de que é um emprego. E não é bem um emprego. É algo mais do que um emprego e algo menos do que um emprego. Portanto, acho que foi mesmo fixe. E toda a gente ficou muito orgulhosa do resultado.

Outra coisa que te ouvi dizer, e que achei muito interessante, foi o processo de aceitar alguns dos rótulos que as pessoas foram colocando à vossa música ao longo dos anos. Uma sensibilidade pop, sons mais luminosos… Isso foi importante? E também é importante, por vezes, esquecer as expetativas das pessoas quando estás a criar?

Sim, acho que sim. Quer dizer, muito disso teve a ver com o facto de termos voltado a ter um público muito jovem. E isso aconteceu em simultâneo com a composição do novo álbum. Foi interessante porque acho que todas as razões pelas quais as pessoas nos criticaram no passado eram as razões pelas quais todos os miúdos estavam a pegar na nossa música no presente. Portanto, achei bastante interessante e tentei parar de fugir disso. Quando tens a próxima geração de pessoas a inspirar-se na tua música e a ligar-se a ela… isso fez-nos sentir muito mais confiantes em relação ao que fazemos. Foi mesmo entusiasmante pensar que as coisas que talvez achássemos que tínhamos feito mal podiam afinal ser os nossos pontos fortes. Então este álbum inclinou-se fortemente nesse sentido. Como sempre tivemos uma maior sensibilidade pop do que muitas bandas da nossa geração, isso acabou por se tornar a nossa marca. E isso é ótimo.

E sentiste que estavas a fazer um disco mais para ti do que para o público, em comparação com discos anteriores? Ou isso nunca esteve realmente em causa?

Sim, acho que tens de pensar nos dois lados. Do ponto de vista da composição, tem de ser para ti. Mas depois queres garantir que tens música que funcione ao vivo e que seja entusiasmante. Mas acho que uma grande parte do último disco teve a ver com o facto de o termos feito sozinhos e de eu ter produzido o álbum. Portanto, não havia nada de exterior a acontecer. E estávamos numa editora independente. Na verdade, ainda nem sequer tínhamos assinado o contrato do disco. Portanto, fizemos tudo sozinhos. Não houve qualquer interferência. O que nem sempre é melhor, curiosamente. Por vezes, as pessoas fazem os melhores discos quando são um pouco pressionadas. Mas, sim, era bastante claro que estávamos a fazer um disco que gostaríamos de ouvir.

E depois desse processo de encarares de maneira diferente aquilo que podem ser os vossos pontos fortes, sentes que hoje tens menos medo de falhar artisticamente do que no passado? Sentes-te mais confiante em experimentar?

Bem, acho que aprendi isso principalmente num álbum que temos chamado Listen, que é o nosso quarto álbum, porque foi mais ou menos um fracasso comercial. Mas aprendi que o fracasso, às vezes, não é bem um fracasso. Na altura foi um fracasso comercial, mas esse disco foi muito influente e acabou por voltar. E agora tem ótimos números no streaming e as pessoas gostam mesmo das canções. Fizemos agora a nossa maior digressão de sempre no Reino Unido — o que foi insano, porque o novo álbum foi muito bem recebido — e uma das maiores canções de todas as noites era a “See Me Now”, uma canção do Listen que é o que se poderia chamar um deep cut. Escrevia-a sobre o meu pai, que morreu quando eu tinha três anos. É um tema que aparece de vez em quando, já escrevi algumas canções sobre isso. E é algo tão integral à razão pela qual faço o que faço. Portanto, acho que aprendi muito mais com isso do que com o novo álbum. Às vezes, não vais ter uma gratificação instantânea e está tudo bem. Talvez leve tempo. As canções têm uma… às vezes o timing não é o certo e haverá um momento para aquilo mais tarde. É uma das coisas realmente positivas das redes sociais para os artistas. Porque existe um panorama mais nivelado para que as coisas possam voltar. É o que aprendes quando estás a chegar ao teu oitavo álbum, que não precisas da gratificação instantânea, desde que acredites nisso. Normalmente, acaba por voltar.

“Quando estás numa banda, ficas de certa forma preso numa cápsula do tempo”

E deve ser entusiasmante e interessante para um artista ver a sua música de há tantos anos tornar-se relevante no presente, porque há uma nova geração a ouvir pela primeira vez e a torná-la popular. Deve ser recompensador.

Sim, exatamente, é mesmo isso. E é uma lição, é algo que eu diria a artistas mais jovens. Tens simplesmente de continuar. Tens de continuar porque isso faz parte, sabes? No grande esquema das coisas, há muito poucos artistas que têm sempre um sucesso visível, durante o tempo todo. E, na verdade, isso acaba por ser um desserviço para eles como artistas, porque não crescem tanto. Acho que ter um fracasso, ou aquilo que percecionas como fracasso, torna-te mais forte e faz questionar-te, o que, para alguém que cria, é a única forma de avançares. Eu acredito nisso.

Estavas a mencionar o teu pai e essa canção que escreveste, sendo um assunto que inspirou várias canções e naturalmente moldou quem és e a tua música, e este disco também foi inspirado pelo facto de tu próprio te teres tornado pai. Como é que dirias que isso moldou o som ou o imaginário narrativo do álbum?

Eu sou um produto da minha geração e muitas pessoas da minha idade constituíram família, então acho que muita gente se vai identificar porque se lembram de nós em 2006 e agora têm uma família e a vida mudou completamente. E quando estás numa banda, ficas de certa forma preso numa cápsula do tempo, em que as pessoas pensam em ti dessa forma. Obviamente, ter uma família… tenho letras no álbum que falam disso de uma forma divertida, sobre como era antes e como é agora. E depois, num nível mais profundo, isso criou mais leveza na minha escrita, porque senti tanta felicidade e alegria em criar vida e estar rodeado de crianças — é muito inspirador de formas diferentes. De certa forma, mata um pouco o teu ego. É a coisa mais fixe, porque de repente já não és o número um ou dois na tua vida. És tipo o número quatro ou cinco, porque tens pessoas para cuidar, e elas vêm primeiro. Portanto, há uma leveza na vida que vem disso, é quase um alívio. E isso definitivamente atravessa o disco. E quando estava a escrever, quando estava mesmo a compor, fi-lo em casa, portanto tinha os meus filhos a correr por ali, e isso foi muito divertido. Significa que não tive tanto tempo, e mais uma vez, voltando à questão de há pouco, não pensei demasiado naquilo. E depois há canções como a “If They Could Only Know”, que tem uma vibe muito simples, quase à [Paul] McCartney, uma mensagem saudável, de aviso às pessoas que perdi na minha vida, que foram muito importantes para mim, de que eu acabei por perceber as coisas e que agora tenho uma família. Portanto, há tudo isso. E o tempo, porque perdi o meu pai quando era pequeno e quando fiz o álbum o meu filho estava a aproximar-se da idade que eu tinha quando perdi o meu pai. Portanto, isso foi bastante emocional para mim também, perceber quanto tempo tive com o meu pai, mesmo não me lembrando muito bem dele, apenas tendo algumas memórias fragmentadas, e o sentimento de amor pelo meu filho aos três anos e perceber o quanto o conheço. Foi bastante emocional e também foi algo que atravessou o disco.

Falávamos da renovação geracional do vosso público e, obviamente, fora da vossa banda, o mundo mudou muito nestes 20 anos no que diz respeito à música: há menos bandas, há mais artistas a solo, o som e o mundo do rock e até os nichos específicos do indie também são hoje bastante diferentes. Outros géneros e territórios têm mais protagonismo. Mas ainda assim, como falávamos, conseguiram encontrar um novo público, o que é positivo e interessante, porque não se limitaram a manter a mesma audiência desde o início. Como encaras este panorama geral e como imaginas o futuro dos The Kooks a longo prazo?

É muito interessante como isto evoluiu. Porque também parece que as bandas estão de volta. Nem preciso de as mencionar, há bandas óbvias que apareceram nos últimos dois ou três anos. E acho que isso é natural. Tivemos um período que eu chamaria a era do produtor, em que os produtores se tornaram incrivelmente importantes. E aí tens muitos artistas a solo e bandas que, na verdade, não eram bem bandas, como os Tame Impala, coisas desse género, que são muito fixes, mas são muito lideradas pela figura de um produtor. Acho que isso foi um movimento e houve música excecional, obviamente, nesse período. Mas era menos aquela coisa de quatro amigos da escola, aos 18 anos, entrarem numa sala e fazerem música à pancada sem saberem muito bem o que estão a fazer e lançarem isso cá para fora. Perdemos um pouco dessa faísca da juventude. Parecia que tudo era quase bom demais. Sentia que tudo o que saía de artistas jovens soava a muito polido, porque tinham um produtor que provavelmente já tinha feito isso quando tinha 18 anos… E depois tens as redes sociais, claro, porque havia muitas estrelas das redes sociais que depois se tornavam artistas, em vez do contrário. Portanto, acho que essa é a parte antropológica da coisa, uma análise que eu faria e que provavelmente é um bocado óbvia. Mas as coisas acabam sempre por voltar. O rock and roll nunca morre. É uma atitude. Não é realmente sobre o som da guitarra, é uma atitude. E certamente estás a ver isso a voltar, talvez por vezes de forma mal direcionada, mas isso é uma coisa juvenil, essa rebeldia e atitude. E isso voltou. Quanto a nós, não sei. Acho que tentámos manter as tradições vivas também. Vejo o meu papel agora como o de um mentor e de tentar manter essas tradições — elas podem evoluir, mas não quero que desapareçam. Ainda quero que os miúdos se interessem por pegar numa guitarra em vez de num computador.

“[com família e filhos] de repente já não és o número um ou dois na tua vida. És tipo o número quatro ou cinco, porque tens pessoas para cuidar, e elas vêm primeiro. De certa forma, mata um pouco o teu ego.”

E sentes que os The Kooks, enquanto banda, têm as características certas para manter a longevidade? Obviamente, há projetos artísticos que, por uma razão ou outra, são mais orientados para a juventude, e outros que nem tanto. No vosso caso, e pensando até neste novo público que conquistaram nos últimos anos, sentes que têm o contexto certo para amadurecerem bem?

Sim, sinto mesmo. É claro que não posso olhar para uma bola de cristal. Mas, no final do dia, o que é interessante é que os miúdos querem isto, sabes? Muitas das nossas maiores canções ainda são canções antigas. As pessoas só querem grandes canções, grandes músicas, isso é que importa e é o que os miúdos querem. Sim, podem tentar forçá-los a gostar de certas coisas, mas está tudo em aberto. E nós ainda somos relativamente jovens. Quando começámos tínhamos 17 ou 18 anos. Portanto, ainda há muito para dizer da nossa parte. Mas não podes forçar isso, sabes? Se os miúdos se identificarem, identificam-se. E se não, não.

E nesta conversa sobre bandas e artistas individuais, também é importante referir os muitos desafios de fazer parte de uma banda. Ao longo destes anos de carreira, quais foram as lições mais importantes que retiraste da colaboração e de fazer parte de um coletivo?

Essa é uma ótima pergunta. Porque não é fácil, porque és humano. Tens conflitos, tens desacordos, e depois tens a colaboração. E nós tivemos um percurso difícil. Dois dos nossos membros originais entraram e saíram durante anos, tiveram diferentes problemas e tudo isso. E houve momentos, definitivamente, há alguns anos, em que eu pensava: porque é que não fiz simplesmente um projeto a solo? Mas depois é tão entusiasmante. Torna-se uma viagem. Para mim e para o Hugh, que estamos na banda desde o primeiro dia, é uma viagem. E, voltando ao meu ponto de não desistir, acho que essa é a nossa história. Houve muitas vezes em que podíamos ter desistido e não desistimos. Vale a pena porque tens algo especial. Não és apenas tu e um computador a fazer música. É humano. E acho que isso vale a pena. Ou seja, o que é que queres? Queres que as coisas sejam fáceis ou queres que sejam incríveis às vezes, e muito difíceis noutras, mas sentires que alcançaste algo e que valeu a pena?

Essa experiência humana deve parecer mais importante do que nunca agora, nesta era digital em que tanta gente está isolada nos computadores, como disseste. Falando do vosso regresso a Portugal, um país que visitaram com frequência nos últimos anos, é sempre bom voltar? Agora repetem a sala lisboeta onde tocaram há três anos.

É a velha arena de touradas, não é? É incrível, soa surpreendentemente bem. Lembro-me de quando chegámos a primeira vez e pensei: isto vai soar tão louco. Achei que ia soar mesmo mal. Mas é um espaço ótimo, soa incrível, a reação é sempre boa, é muito fixe tocar naquele palco. Portanto, sim, estou muito entusiasmado. Acho que sempre tivemos uma boa ligação com os fãs portugueses. E gostava mesmo de ir aí mais vezes, também depende das pessoas em Portugal. Mas é muito entusiasmante, vamos atuar como nunca nos viram antes. Fizemos muito trabalho nos últimos anos. A banda mudou completamente, diria eu, nos últimos dois anos. E depois de muito trabalho, acho que temos imensa energia. Quero surpreender as pessoas, redescobrir essas canções de uma nova forma. Portanto, acho que vai ser incrível.

A vossa música é frequentemente soalheira, parece combinar com Lisboa e com Portugal no geral. Talvez até mais do que com o clima cinzento do Reino Unido.

Esse é o meu próprio escapismo. Acho que é por isso que somos tanto uma banda de festivais. Sentimo-nos mesmo em casa. A nossa música é para dançar… Obviamente, temos os nossos momentos que não são assim, mas sempre quisemos ser como os The Beatles. Trazer alegria. E acho que tens razão. Com a energia calorosa e alegre de Portugal, dos portugueses e do próprio país, deve funcionar muito bem.

O concerto vai ser mais focado no novo disco ou vão equilibrar com as canções que já se tornaram clássicos?

É mais ou menos uma digressão de 20.º aniversário, na verdade. Portanto, só vamos tocar duas ou três do novo álbum. Vai ser uma espécie de best of, e também haverá alguns deep cuts. Mas, sim, não somos os The Cure, sabes? Inclinamo-nos mais para um alinhamento à The Rolling Stones do que para um alinhamento à The Cure. Ou seja, tocamos aquelas que achamos que criam a melhor noite para as pessoas que vão.

E os deep cuts que escolheram são canções de que gostam mesmo e que consideram ideais para tocar ao vivo?

Sim, exatamente. Há algumas canções — mais uma vez, as pessoas também começam a ligar a faixas que estão algures no meio do álbum ou a lados B — como a “Taking Pictures Of You” ou a “Gap”, que, se não fores um verdadeiro fã dos The Kooks, provavelmente não conhecerás. Mas funcionam bem ao vivo, é divertido. E adoro porque vês cinco ou dez pessoas a enlouquecerem completamente, ficam tão felizes. Ou porque essa foi a canção que ouviram com a namorada ou o namorado, ou seja o que for, porque têm uma memória associada a essa canção. Portanto, é importante incluir algumas dessas coisas para as pessoas e tentamos fazê-lo. É difícil, sabes? Sete álbuns, muito material. E há sempre alguém que te encontra no fim e diz: “porque é que não tocaram esta? Porque é que não tocaram aquela?”

Ao longo dos anos, torna-se mais desafiante fazer um alinhamento que agrade a toda a gente.

Exatamente. Portanto, fazemos o nosso melhor. Mas sim, gosto disso. Porque muita gente do público pode não conhecer, mas no fim acabam por gostar. E depois tens aquelas pessoas que ficam mesmo felizes por teres tocado aquela canção. Isso é mesmo fixe e importante.

E já começaste a trabalhar em novas canções? Estão numa nova fase criativa?

Comecei, sim. Já começámos a trabalhar num novo álbum. Estou muito entusiasmado: é algo muito rock and roll, um pouco psicadélico. Provavelmente vai ser mais obscuro do que o último álbum, mas está só no início. Vamos ver para onde vai.

E há alguma direção sonora que ainda gostasses de explorar com os The Kooks, algo que ainda não tenham experimentado?

Não sei. Acho que, com os The Kooks, é importante mantermos mais ou menos aquilo que somos. Já fizemos discos inspirados em diferentes tipos de música. Fizemos um disco com influência de krautrock. O Listen teve influências de gospel e soul. O nosso primeiro disco tinha bastante influência de reggae. Portanto, deixamo-nos seduzir por coisas diferentes. Mas acho que temos de manter a nossa identidade central. Diria que o lado psicadélico é algo que ainda não explorámos muito, e é nisso que me estou a focar, trazer um pouco disso.

O que é que ainda mais te entusiasma em fazer discos?

Bem, é sempre a mesma coisa: criar algo a partir do nada. Quando começas, são períodos de tempo muito curtos. Tipo dois minutos em que tens essas injeções de algo, em que algo acontece. Isso é imbatível. Porque, de cada vez, podes provar a ti próprio que ainda consegues fazê-lo, que ainda tens algo a dizer, que ainda há algo a sair de ti. Para mim, a parte mais entusiasmante é esse ponto inicial, quando surge algo novo e pensas: uau, isto pode ser mesmo fixe. O processo é divertido, mas esse momento é mágico. É como se te re-inspirasses a ti próprio.

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Fonte: https://comunidadeculturaearte.com/entrevista-luke-pritchard-the-kooks-vivemos-num-mundo-volatil-e-instavel-mas-parece-que-a-musica-ao-vivo-esta-maior-do-que-nunca/