25 de janeiro de 2026
Governo Federal prepara medida que proíbe o uso de celulares
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No Dia Internacional da Educação, celebrado em 24 de janeiro, o debate sobre os rumos do ensino ganha novos contornos no Brasil. Há exatamente um ano, entrou em vigor a norma que proibiu o uso de celulares nas escolas (Lei nº 15.100/2025), inclusive durante o recreio, com o objetivo de reduzir distrações, melhorar a concentração dos estudantes e fortalecer as relações no ambiente escolar. Passados 12 meses, os impactos da medida já começam a se tornar visíveis dentro e fora da sala de aula.

A ausência das telas alterou significativamente a dinâmica pedagógica. Professores relatam maior atenção dos alunos durante as aulas, participação mais ativa e melhora na interação entre colegas. Sem o celular como elemento constante de dispersão, atividades como leitura, debates em grupo e exercícios escritos voltaram a ocupar papel central no processo de aprendizagem.

Além do rendimento escolar, mudanças também foram percebidas no comportamento. Em muitas escolas, o recreio voltou a ser marcado por brincadeiras coletivas, conversas presenciais e práticas esportivas. A redução do uso excessivo de telas contribuiu ainda para diminuir conflitos virtuais que costumavam se refletir no ambiente físico da escola, como casos de cyberbullying.

O período de adaptação, no entanto, não foi simples. No início, gestores e educadores enfrentaram resistência de estudantes e até de famílias, além do desafio de fiscalizar o cumprimento da regra. Com o passar dos meses, a construção de acordos pedagógicos, o diálogo com a comunidade escolar e ações de conscientização foram fundamentais para consolidar a mudança.

Para a pedagoga Barbara Buck, organizadora do livro “Brincadeira é coisa séria (Cortez Editora), as mudanças registradas tiveram muito a ver com o que as escolas se mobilizaram para oferecer.

“Espaços que possuíam mesas de pingue-pongue, jogos, etc., certamente puderam perceber um retorno massivo dos estudantes a estas atividades, e, sem dúvida, as rodas de conversas entre eles foram reestabelecidas. Porém, nas escolas com menos infraestrutura e equipamentos, de início, foi observado aumento considerável de comportamentos agressivos e violência física entre alguns estudantes”.

Ela destaca que o impacto causado pela Lei depende muito da abordagem que cada escola desenvolve.

No livro “Brincadeira é coisa séria”, buscamos pontuar justamente a importância de promover atividades lúdicas que possibilitem convivência, entretenimento e aprendizado, além do resgate da memória indígena, quilombola e caiçara. Não basta retirar o celular, é preciso oferecer alternativas, despertar o gosto pela brincadeira”, aponta.

Para os educadores, a proibição não significou o abandono da tecnologia, mas uma reorganização do seu uso. Ferramentas digitais continuam presentes no planejamento pedagógico, agora de forma mediada e com objetivos claros, utilizando laboratórios de informática, tablets institucionais e recursos controlados, evitando o uso indiscriminado do celular pessoal.

Um ano depois, a experiência reforça uma reflexão central no Dia Internacional da Educação: a tecnologia deve ser aliada do aprendizado, e não um obstáculo. Ao limitar o uso do celular em sala de aula, a escola reafirma seu papel como espaço de convivência, escuta, concentração e construção do conhecimento — valores que seguem essenciais em um mundo cada vez mais conectado, mas nem sempre atento.

“Celular distrai a gente. Qualquer um. Você abre para ver uma coisa, quando se dá conta já está há tempos vendo outros sites, outras páginas. Então, sim, é uma lei importante para que a gente entenda que dá pra usar essas ferramentas, a tecnologia, de forma objetiva e apropriada dentro do contexto de sala de aula”, aponta a educadora Regina Pinto.

MEC realizará pesquisa sobre restrição de celulares nas escolas

Ainda neste primeiro semestre, o Ministério da Educação (MEC) vai realizar uma pesquisa nacional para analisar os desdobramentos da Lei nº 15.100/2025, e compreender, após um ano de vigência da norma, como a lei vem sendo implementada nos diferentes sistemas de ensino e quais efeitos iniciais tem produzido no cotidiano escolar.

“A gente sabe que, talvez, uma das mais importantes medidas que nós tomamos em 2025 no Brasil foi restringir o uso do celular nas escolas. O brasileiro passa, em média, nove horas e treze minutos em frente a uma tela. Nós somos o segundo país do mundo que fica o maior tempo na frente de uma tela. Isso é um prejuízo muito grande para crianças e adolescentes, isso causa ansiedade, isso causa déficit de atenção, isso causa transtornos, distúrbios mentais. Portanto, celular apenas para o uso pedagógico dentro da sala de aula. O que nós queremos é que o espaço de escola seja um espaço de aprendizagem”, ressaltou o ministro da Educação, Camilo Santana.

A Lei nº 15.100/2025 foi instituída em um contexto de crescente preocupação com os efeitos do uso excessivo e desregulado de celulares no ambiente escolar. Dados do Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes (Pisa) 2022 mostram que 80% dos estudantes brasileiros afirmam se distrair e ter dificuldades de concentração nas aulas de matemática por causa do celular, reforçando a necessidade de uma resposta regulatória no campo educacional.

Três perguntas para pedagoga Barbara Buck

Do ponto de vista do desenvolvimento social e emocional, que mudanças a senhora observa no comportamento dos alunos após um ano dessa lei?

A minha experiência se deu dentro de uma Organização da Sociedade Civil, aqui recebemos estudantes de 06 a 17 anos de algumas escolas municipais e estaduais, portanto, a observação que posso fazer é que, sem nenhuma dúvida, habilidades socioemocionais estão diretamente ligadas à convivência presencial. Não há tela e inteligência artificial nenhuma que possa substituir esse dispositivo dos encontros.

As escolas precisaram se reinventar para oferecer alternativas ao celular ou a mudança ocorreu de forma espontânea entre os próprios estudantes?

As escolas diferem muito entre elas, não apenas em relação a sua estrutura, mas também ao entendimento de cada gestor ou gestora. É muito difícil tratarmos a escola como uma coisa apenas, porém, eu diria que para de verdade lidarmos com a questão do uso excessivo de telas, não é apenas a escola que precisa se reinventar, ela sozinha não fará a mudança, precisamos nos reinventar como sociedade. As crianças podem não estar entretidas com as telas nas escolas e passarem horas e horas em suas casas, mesmo com supervisão das famílias, imersas nas telas. As horas escolares não darão conta de mitigar os malefícios. Portanto, na minha opinião, campanhas massivas deveriam ser feitas em relação à conexão direta entre saúde mental, desenvolvimento cognitivo e uso excessivo de telas.

A substituição das telas por interações presenciais tem impacto direto na aprendizagem e no clima escolar?

Na nossa organização não lidamos com o aprendizado da mesma forma que nas escolas, ou seja, aqui trabalhamos com as artes e a cultura como ferramentas para a construção da subjetividade de crianças e adolescentes, apostando na criatividade, na autonomia e na individualidade como fatores fundamentais para uma cidadania crítica, neste sentido, para nós, durante os dois anos em que investimos diretamente no brincar como instrumento de conexão, os vínculos afetivos se fortaleceram imensamente e estudos demonstram que a aprendizagem se dá nos afetos.

Fonte: https://oimparcial.com.br/brasil/2026/01/um-ano-sem-telas-proibicao-do-celular-mudou-rotina-escolar/