A prisão da delegada recém-empossada em São Paulo Layla Lima Ayub, suspeita de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), levou o Judiciário paulista a fazer uma advertência sobre a infiltração da maior facção do país no poder público e o risco de um narcoestado.
Ao decretar a prisão preventiva da investigada, o juiz Paulo Fernando Deroma de Mello, da 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores de São Paulo, alertou que casos como o da delegada Ayub, namorada de um integrante do PCC no Pará, revelam o nível de infiltração do PCC em diversos setores, entre eles a própria segurança pública. Ela foi aprovada em concurso público e tomou posse do cargo no final de dezembro.
“Se comprovado que o PCC arregimentou a investigada para passar em um concurso público de delegado de polícia, sobretudo no estado mais populoso e com o maior quadro de policiais do país, pode-se afirmar, sem qualquer dúvida, que, se já não nos tornamos um narcoestado, estamos a poucos passos disso”, ressaltou o magistrado.
Ayub se apresenta nas redes sociais como delegada de polícia do estado de São Paulo, ex-advogada criminalista e ex-policial militar do Espírito Santo. Segundo as investigações, ela conheceu o integrante do PCC Jardel Neto Pereira da Cruz em um presídio na região de Marabá (PA), onde atuava na defesa dos presos que fazem parte da facção criminosa.
Para o magistrado, o caso ultrapassa o âmbito individual e representa um sinal de alerta às instituições brasileiras. Ele deixa claro que, se confirmada a infiltração do PCC na estrutura policial, o país está diante de uma ameaça direta ao Estado de Direito.
O juiz ainda lembrou que o faccionado participou do evento de posse dos delegados com a namorada, no último dia 19 de dezembro, no Palácio dos Bandeirantes — sede do Executivo paulista — o que foi considerado por Deroma de Mello como “ousadia absurda e um total deboche das autoridades públicas”.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), estava presente no local e discursou na formatura dos delegados. A reportagem da Gazeta do Povo não conseguiu localizar a defesa que representa a advogada Layla Ayub e o suspeito Jardel Neto Pereira da Cruz — o espaço segue aberto para defesa dos envolvidos.
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Layla Ayub foi presa durante a operação Serpens, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), com apoio da Corregedoria-Geral da Polícia Civil, neste mês de janeiro. Segundo a investigação, ela teria mantido vínculo pessoal e funcional com integrantes do PCC, incluindo o relacionamento com o faccionado em liberdade condicional.
“Demonstra um grau maior, de fato, de audácia, de ousadia da organização criminosa […] Ela tinha uma atuação muito próxima de lideranças do Primeiro Comando da Capital, facilitando a comunicação entre eles ou estaria atuando em benefício da instituição e não de indivíduos específicos”, disse o promotor do Gaeco Carlos Gaya.
O secretário da Segurança Pública de São Paulo, Osvaldo Nico Gonçalves, informou que a delegada chegou a atuar irregularmente após a posse no estado de São Paulo. “Verificamos que ela participou de uma audiência de custódia mesmo depois de ter sido empossada como delegada de polícia, o que é contrário ao ordenamento.”
Além disso, Gonçalves justificou que não havia registros negativos contra a investigada, ou seja, não havia impedimento para que ela tomasse posse do cargo após a aprovação no concurso público. “Ela não tinha nenhum apontamento até então, inclusive foi muito bem-sucedida essa investigação social”, disse o secretário.
O promotor do Gaeco ainda descartou a possibilidade de fraude no concurso público. “Não há nenhum indicativo de que a organização criminosa tenha financiado ou atuado desde a formação dela”, disse Gaya.
“A hipótese é que ela tenha sido cooptada no curso do contato dela com lideranças da organização em presídios no Pará. Isso se aprofundou a partir de um relacionamento amoroso com uma dessas lideranças”, completou.
Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/sao-paulo/narcoestado-poucos-passos-decisao-juiz-prisao-delegada-pcc/
