Agentes da Polícia Civil de Pernambuco seguiram o secretário Gustavo Monteiro e instalaram um rastreador em um veículo ligado à Prefeitura
O prefeito do Recife, João Campos (PSB), denunciou, em suas redes sociais, a Polícia Civil de Pernambuco de atuar com “uso político” da corporação para espionar o secretário municipal de Articulação Política e Social, Gustavo Monteiro. Segundo ele, essa trama ilegal “não vai passar impune”.
A declaração de João Campos foi feita após reportagem do programa “Domingo Espetacular”, da TV Record, de que agentes da polícia acompanharam a rotina do secretário, instalaram um rastreador em um veículo ligado à Prefeitura e trocaram informações em um grupo informal de mensagens, sem qualquer autorização judicial ou inquérito.
Após a divulgação do caso, o prefeito passou a classificar o monitoramento como espionagem, sustentando que a ação não seguiu os ritos legais e teve motivação política e eleitoral. Em vídeo divulgado nas redes sociais, João Campos afirmou que não questiona o papel investigativo da polícia, mas a forma como a corporação teria sido utilizada.
“O que está em jogo não é a polícia investigar, mas é fazer isso da forma certa. Eu não tolero corrupção, mas eu também não tolero perseguição”, afirmou. “Queria dizer a vocês que tudo isso não vai ficar impune. Porque não vale tudo para disputar uma eleição.”
Segundo o prefeito, a espionagem contra seu auxiliar ocorreu sem ordem judicial, sem abertura formal de inquérito, sem boletim de ocorrência e sem qualquer respaldo legal. Campos disse que diligências teriam sido realizadas de maneira informal e direcionadas por interesses eleitorais.
“Foi revelado que inquéritos foram desarquivados por interesse eleitoral, perseguição sem ordem judicial, sem inquérito, sem B.O., sem nenhuma formalidade. Rastreador sendo colocado em carro oficial da prefeitura sem ordem judicial. Isso é criminoso. Isso é um absurdo”, declarou. “Se não fosse a imprensa livre denunciando isso, aonde é que isso iria parar? Quem é que está dando essas ordens? É interesse de quem? Será que iam construir provas falsas? Uma realidade que não existe para incriminar pessoas inocentes?”
João Campos também afirmou que o episódio de espionagem se insere em um contexto mais amplo de ataques políticos e disseminação de mentiras desde 2024, quando disputou a reeleição para a prefeitura do Recife. Segundo ele, investigações foram abertas, arquivadas e retomadas conforme o calendário eleitoral.
“Depois da eleição, arquiva de novo. Aí vem uma ação absurda como essa, três delegados, sete agentes num grupo informal de WhatsApp. Quem é que deu a ordem para formar esse grupo? Para tomar essas medidas ilegais e criminosas? Isso não está certo, é ilegal, é imoral”, afirmou.
ESPIONAGEM
De acordo com a denúncia revelada no domingo (25), policiais civis acompanharam, entre agosto e outubro de 2025, a rotina de Gustavo Monteiro. As informações eram compartilhadas em um grupo informal de WhatsApp que contava com a participação de delegados. Em uma das mensagens obtidas, uma foto do secretário aparece acompanhada da expressão “alvo da missão”, elemento citado por aliados de João Campos como evidência de espionagem direcionada.
Os agentes seguiram um carro alugado pela prefeitura, utilizado por Gustavo Monteiro e por seu irmão, Eduardo Monteiro, assessor municipal. Em setembro, um equipamento rastreador foi instalado no veículo enquanto ele estava estacionado próximo a um mercado do Recife, onde Eduardo fazia compras.
Uma das mensagens obtidas descreve o acompanhamento da rotina do carro: “Bom dia. Rotina do veículo se repetiu pela manhã. Veículo chega à prefeitura às 8 horas. Entra na garagem do subsolo e sai muito, rapidamente, apenas com o motorista.”
A Secretaria de Defesa Social de Pernambuco afirmou que o procedimento foi iniciado após o recebimento de uma denúncia anônima sobre suposto pagamento de propina envolvendo contratos da Prefeitura do Recife. Segundo a pasta, como não foram encontradas evidências, o procedimento foi arquivado sem abertura de inquérito.
Em nota, a Polícia Civil declarou que denúncias anônimas podem motivar diligências preliminares. “Segundo jurisprudência consolidada do Supremo Tribunal Federal (STF), as denúncias anônimas não autorizam instauração imediata de inquérito policial, sendo utilizadas apenas como fonte de informação”, afirmou o órgão.
Em coletiva realizada nesta segunda-feira (26), o secretário de Defesa Social, Alessandro Carvalho, disse ser “falsa a narrativa de espionagem” e defendeu a legalidade da ação. Segundo ele, não é necessária autorização judicial para instalação de rastreadores veiculares.
REAÇÃO DA PREFEITURA
A Prefeitura do Recife divulgou nota afirmando que “repudia qualquer tentativa de uso indevido das forças policiais de Pernambuco para perseguição política” e que não poupará esforços para proteger seus servidores.
“A Polícia Civil de Pernambuco é uma instituição séria e respeitada, não existindo, até hoje, registro desse tipo de tentativa de uso eleitoral nos mais de dois séculos de sua existência”, afirmou a gestão municipal. “Essa atitude caracteriza uma conduta ilegal, inconstitucional e imoral, nunca vista em nosso Estado, e a Prefeitura não poupará esforços para defender seus servidores desse tipo de ataque, utilizando as esferas administrativas e judiciais cabíveis.”
APURAÇÃO
O governo estadual informou que a governadora Raquel Lyra (PSD) determinou que o episódio seja investigado, tanto no que diz respeito ao procedimento adotado pela Polícia Civil quanto às denúncias de espionagem e ao vazamento de informações, em um caso que segue em apuração e mantém acirrada a disputa política em Pernambuco.
Fonte: https://horadopovo.com.br/joao-campos-repudia-espionagem-contra-secretario-do-recife-nao-tolero-perseguicao/
