A Fazenda Pau D’Alho, em São José do Barreiro, no interior de São Paulo, tem proposta de para tornar-se um hotel de luxo por meio de concessão, a ser negociada por intermédio do governo federal. A proposta prevê 60 quartos e diária média estimada em R$ 1,6 mil, dentro de uma estratégia de valorização turística de imóveis históricos.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou o conjunto em 1968. A proposta de utilização do espaço exclui intervenções na área protegida e determina a construção do hotel de luxo fora do perímetro tombado. Mesmo assim, moradores contestam a dimensão do empreendimento.
O plano prevê cerca de 8,3 mil metros quadrados de área construída, somando edificações históricas e novas estruturas — e o governo mantém o projeto em consulta pública. O prazo inicial terminaria em 6 de fevereiro, mas a data foi prorrogada para o dia 13.
Segundo a gestão federal, a prorrogação busca ampliar a participação social, reforçar a transparência e alinhar a proposta às demandas locais. O discurso oficial também destaca a preservação do patrimônio cultural e o estímulo ao turismo responsável.
Construída em 1818 para a produção de café, a Fazenda Pau D’Alho ocupa posição relevante na história nacional. Em 17 de agosto de 1822, Dom Pedro I passou pelo local durante a viagem rumo a São Paulo. A visita ocorreu poucos dias antes da Proclamação da Independência.
Diárias no hotel de luxo em fazenda histórica de café são estimadas em R$ 1,6 mil
O Ministério do Turismo estima diária média de R$ 1.638,63 e taxa de ocupação de 64%. A modelagem inclui receitas com aluguel de áreas comerciais, estacionamento a R$ 28 e gasto médio de R$ 80 com alimentação. O plano também prevê cobrança de ingressos de R$ 45.
Além da hospedagem, o projeto considera receitas com restaurante, publicidade, lojas de lembranças, transporte interno e atividades recreativas e esportivas. A unidade poderá ter até três pavimentos, contando com uma passarela, que fará a ligação entre a nova edificação e o conjunto histórico.
O contrato impõe intervenção mínima nas áreas tombadas e proíbe usos que causem danos ao conjunto arquitetônico. O projeto do hotel estabelece que o prédio fique a pelo menos 15 metros dos muros históricos. A antiga senzala receberá atividades educativas voltadas à valorização da memória da escravidão.
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BNDES estima receita anual de R$ 34,5 milhões após 10 anos do lançamento
O projeto integra o Programa Revive, inspirado em uma experiência adotada em Portugal. A iniciativa aposta em parcerias com a iniciativa privada para recuperar imóveis históricos. O contrato prevê acesso público às áreas de circulação e de uso cultural. Ao final da concessão, o hotel retorna ao patrimônio público.
O plano de negócios elaborado para o hotel de luxo prevê investimentos de R$ 63,1 milhões ao longo de um contrato com duração de 45 anos. Cerca de R$ 10,9 milhões financiarão a restauração das construções históricas. Outros R$ 52,2 milhões bancarão a construção do hotel.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), assessor técnico do projeto, estima receita anual de R$ 34,5 milhões no décimo ano da concessão. Desse total, cerca de R$ 28,5 milhões viriam da operação do hotel.
Moradores são contrários a instalações de hotel na fazenda histórica de café
O advogado Junior Meireles, presidente do Instituto Pau D’Alho, criado para defender o patrimônio histórico da fazenda histórica de café, diz que o projeto não dialoga com a realidade de São José do Barreiro e pode provocar danos ao patrimônio histórico. Segundo ele, o município tem 3.853 habitantes e não dispõe de estrutura para sustentar um empreendimento desse porte.
“Esse projeto pode gerar impactos ambientais e socioculturais. São José do Barreiro não comporta esse fluxo. Todo o Vale Histórico recebe cerca de 45 mil visitantes por ano. O estudo de viabilidade prevê esse mesmo número apenas dentro da fazenda”, afirmou. “A cidade não tem hospital, sistema de abastecimento de água ou estrutura social para absorver um volume desse tamanho.”
Meireles também critica os efeitos do plano sobre a área tombada. “A fazenda fica em área de Mata Atlântica, com cursos d’água. O projeto prevê cinco intervenções no prédio tombado, com acessos sobre um calçamento do século XVIII. O peso e o fluxo de hóspedes tendem a provocar danos estruturais”, disse.
Para o advogado, a proposta contraria o significado histórico do local, marcado pela escravidão. “Esse espaço carrega uma memória de violência e resistência. Um hotel de luxo não se encaixa nesse contexto”, afirmou. “Instalar uma loja de conveniência ali apaga a história do povo preto e cria uma ideia artificial de luxo em um lugar associado ao trabalho forçado”, acrescenta ele.
Por sua vez, o Ministério do Turismo afirma que reconhece a legitimidade das manifestações da sociedade e entende que o debate público é fundamental para o aprimoramento do projeto. “Nesse sentido, esclarece que a concessão não representa privatização do bem, que permanece como patrimônio público federal, nem autoriza intervenções que violem a legislação ambiental ou patrimonial”, pontua o órgão federal.
Ainda conforme o ministério, o modelo de concessão proposto no projeto “estabelece obrigações rigorosas de preservação do patrimônio histórico, incluindo: a observância integral das normas e diretrizes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN); adoção do princípio da mínima intervenção, com preservação da autenticidade arquitetônica, histórica e paisagística do conjunto; exigência de projetos técnicos específicos para restauração, conservação e manutenção contínua do bem; e submissão prévia de qualquer intervenção à aprovação dos órgãos de proteção do patrimônio”, informa o órgão.
Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/sao-paulo/fazenda-historica-de-cafe-transformacao-hotel-de-luxo/
