Se fosse um país, São Paulo estaria entre as maiores economias do mundo. Em 2024, o Produto Interno Bruto (PIB) paulista alcançou R$ 3,5 trilhões, montante superior ao da Argentina (R$ 3,2 trilhões) e quase três vezes maior que o do segundo colocado no ranking nacional, o Rio de Janeiro, com R$ 1,3 trilhão.
É também o estado que concentra 150.958 pessoas em situação de rua. O contingente representa 45% de toda a população de rua do país, que chegou a 365.822 pessoas ao final de 2025. Os números são do levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/Polos-UFMG).
Entre 2020 e 2025, São Paulo teve um aumento de 82% nessa população, saltando de 83.074 para quase 151 mil. A cidade de São Paulo sozinha abriga mais de 101 mil pessoas nas ruas, concentrando 27% de todos os desabrigados do Brasil. Com um total que se aproxima de 12 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 0,85% da população da capital vive nas ruas.
O que acelerou o crescimento da população de rua em São Paulo?
Pesquisadores da UFMG apontam quatro pilares para explicar o aumento da população de rua no estado de São Paulo:
- precarização pós-pandemia: embora os números de pessoas em situação de rua tenham caído entre 2020 e 2021 (de 194 mil para 158 mil no país), a crise econômica subsequente empurrou milhares para a vulnerabilidade extrema.
- déficit de políticas estruturantes: a falta de ações efetivas em moradia, trabalho e educação impede que a assistência paliativa resolva a raiz do problema.
- fortalecimento do CadÚnico: a melhoria no registro de dados permitiu dar visibilidade a uma população antes “invisível” para o Estado brasileiro.
- crises climáticas e migratórias: São Paulo recebe grandes fluxos de deslocamentos forçados e pessoas impactadas por emergências.
A pesquisa acadêmica também demonstrou que em cada 10 indivíduos em situação de rua no país, sete são negros. “É consequência da ausência e insuficiência histórica de políticas públicas estruturantes, principalmente moradia, trabalho e educação, envolvendo a população em situação de rua majoritariamente negra no nosso país”, afirma o coordenador do Observatório da UFMG, professor André Luiz Freitas Dias.
Também pesquisador do Observatório da UFMG, Cristiano Silva evidencia o problema da falta de acesso à educação. “São pessoas com histórico de desestruturação familiar. Muitas não concluíram o ensino fundamental ou médio, não têm a qualificação exigida pelo mercado atual, enfrentam analfabetismo e dificuldades de letramento digital, resultado da privação desse direito básico, por isso não conseguem acesso às políticas públicas e se condicionam à rua”, explica Silva.
Quanto custa para o contribuinte não resolver o problema da população de rua em São Paulo
Além da dimensão social, a permanência da população em situação de rua pesa no orçamento público e impacta no setor privado. No modelo atual, o poder público gasta bilhões para conter os efeitos do problema, mas sem conseguir reduzir o número de pessoas nas ruas de forma duradoura.
Embora o governo estadual e municipal anunciem investimentos como o Auxílio Reencontro Moradia (R$ 600 a R$ 1,2 mil por família) e a ampliação da rede “Bom Prato”, os dados da UFMG mostram que a curva continua ascendente. Em um ano, o levantamento apontou 11,1 mil novas pessoas em situação de rua na capital paulista, já que o registro em 2024 foi de 89,9 mil pessoas e 64,8 mil em 2023.
O orçamento da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social da cidade de São Paulo para 2026 está estimado em até R$ 2,89 bilhões. E o governo do estado repassou R$ 633 milhões às secretarias de Assistência Social das prefeituras recentemente, sendo R$ 145,6 milhões exclusivos para ações de rua.
Setor produtivo acredita em soluções integradas para preservar e recuperar os centros comerciais
Para o setor produtivo, o principal problema está na concentração de pessoas em situação de rua nos centros comerciais, fator que afasta consumidores e turistas e se soma à degradação urbana, ao aumento de imóveis vazios e à perda de atratividade econômica dessas áreas.
Em nota, a Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp) afirmou que o afastamento de consumidores não pode ser analisado de forma isolada. Para a entidade, “o aumento da população em situação de rua decorre da ausência de uma política nacional integrada de acolhimento, saúde, qualificação profissional e geração de oportunidades de trabalho“.
A Facesp informou que a Rede de Associações Comerciais apoia iniciativas de acolhimento e reintegração social e defendeu a articulação entre poder público, entidades e sociedade civil. A federação também apontou “a deterioração dos centros comerciais, marcada por abandono e imóveis vazios, como fator que compromete a atratividade, a segurança e a atividade econômica”.
Segundo a entidade, a recuperação dessas áreas exige políticas públicas consistentes, planejamento urbano e inclusão social. Como exemplo, citou o processo de revitalização do centro histórico da capital, que inclui o Novo Centro Administrativo Campos Elíseos, com apoio da Facesp.
Já o pesquisador Marco Antônio Carvalho Natalino, especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), avalia que as políticas voltadas à população em situação de rua ainda segue, em muitos casos, a lógica de “reduzir incômodo urbano”.
Segundo ele, esse padrão se repete historicamente. Embora estar em situação de rua não seja crime e não retire direitos de cidadania, a sociedade continua pressionando o poder público pela retirada dessas pessoas do entorno imediato. Natalino lembra que o país conta com marcos legais e planos nacionais que preveem direitos e políticas públicas para esse grupo.
No entanto, a baixa efetividade das políticas de inclusão social, especialmente as habitacionais e de inclusão produtiva, mantém muitas pessoas nessa condição. Ainda assim, ele pondera que há um aspecto positivo quando a população aciona o poder público por meio de reclamação. “Quando as pessoas entram em contato com as autoridades pelo incômodo, já estamos numa situação melhor do que quando tentam resolver a questão violentamente, sem intermediação do Estado”, afirma.
Natalino reconhece que as autoridades enviam equipes da assistência social quando recebem esse tipo de demanda para atendimento. “Isso pode estabelecer o início de um trabalho social que ajude de fato essa pessoa. Ela pode ser cadastrada em programas sociais, encaminhada para serviços de saúde”, exemplifica o pesquisador.
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Prefeitura de São Paulo contesta levamento da UFMG
A prefeitura de São Paulo contestou o estudo da UFMG. Informou que o Censo da População em Situação de Rua, realizado em 2021 por equipes municipais, identificou 32 mil pessoas nessa condição na capital e que a administração municipal mantém a maior rede socioassistencial do país. A estrutura reúne mais de 370 serviços de acolhimento e oferece mais de 27 mil vagas em abrigos.
A prefeitura também comunicou a contratação recente de uma empresa para um novo Censo da População em Situação de Rua. O processo de contagem deve começar em março, com divulgação dos resultados prevista para o segundo semestre.
Em adendo, o governo do estado de São Paulo afirmou que atua de forma integrada com os municípios para reduzir a população em situação de rua. Desde o início da gestão, disse que repassou R$ 633 milhões às prefeituras para a implementação de políticas assistenciais. Do total, R$ 145,6 milhões financiaram ações exclusivas para esse público.
A administração estadual destacou a ampliação da rede de serviços. Implantou 24 novas unidades do programa Bom Prato. Também criou o Serviço de Acolhimento Terapêutico Residencial. Os complexos funcionam em municípios da Grande São Paulo e do interior.
Estados brasileiros com maior número de pessoas em situação de rua
- São Paulo – 150.958 pessoas
- Rio de Janeiro – 33.656 pessoas
- Minas Gerais – 33.139 pessoas
- Paraná – 17.396 pessoas
- Bahia – 16.624 pessoas
- Rio Grande do Sul – 16.359 pessoas
- Ceará – 14.171 pessoas
- Santa Catarina – 11.675 pessoas
- Roraima – 10.520 pessoas
- Distrito Federal – 9.157 pessoas
Fonte: Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais.
Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/sao-paulo/estado-mais-rico-do-brasil-concentra-populacao-de-rua/
