A morte brutal do cão Orelha, na Praia Brava, em Florianópolis (SC), ultrapassou a investigação criminal e gerou efeitos no setor turístico. O caso, que ganhou repercussão internacional, com posicionamentos de famosos e políticos, resultou em rompimentos comerciais no setor hoteleiro.
As reações ocorreram após a veiculação de informação sobre supostos vínculos familiares entre adolescentes investigados por maus-tratos e empresários do setor. A associação, ainda que indireta ou equivocada em alguns casos, mobilizou empresas a adotar medidas para preservar a reputação.
Agências de viagens e turismo anunciaram rompimentos comerciais com os hotéis Majestic Palace Hotel Florianópolis (que teve relação com o caso descartada pela polícia), a Rede Mar Canavieiras e o Al Mare Florianópolis. A ERS Viagens e Turismo, agência de São Caetano do Sul (SP), comunicou o rompimento de parcerias.
Segundo nota da empresa, a medida está relacionada à repercussão do caso que investiga maus-tratos contra o cão Orelha. No comunicado, a agência afirmou que não compactua com atitudes que contrariem seus valores de respeito, ética e cuidado com pessoas e animais.
A Tâmega Turismo e Seguros, de Santos (SP), informou também em nota que suspendeu de forma definitiva a comercialização de hospedagens com os hotéis por repudiar qualquer prática que viole princípios básicos de ética, respeito e cuidado com a vida, em qualquer circunstância.
Da mesma forma, a Eurotrip Consultoria, de Anápolis (GO), informou em suas redes sociais que deixou de indicar, comercializar ou encaminhar clientes para os empreendimentos. “Atitudes dessa natureza ferem princípios básicos de ética, empatia e respeito, que são inegociáveis para nós”, destacou a empresa.
A Gazeta do Povo tentou contato com a Rede Mar Canavieiras e o Al Mare Florianópolis, mas não conseguiu resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação dos citados.
Majestic Palace Hotel Florianópolis nega vínculo com investigados
Em nota, o Majestic Palace Hotel Florianópolis afirmou que não possui qualquer relação com os adolescentes investigados. O empreendimento esclareceu que a família Daux, proprietária do hotel, não tem vínculo familiar com os envolvidos no caso.
Segundo o hotel, a estrutura genealógica da família Daux comprova a inexistência de vínculo, o que descarta hipótese de relação que pudesse justificar acusações de conivência, colaboração ou favorecimento. De acordo com o comunicado, informações falsas circularam nas redes sociais, resultando em ataques virtuais e ameaças. O hotel informou que medidas legais estão sendo adotadas.
A Polícia Civil confirmou que o Majestic Palace Hotel Florianópolis não tem relação com o caso.
A empresa enfatizou, ainda, que repudia qualquer forma de violência contra animais. Considerou “injusto e inaceitável” que um hotel com trajetória ética, transparente e reconhecida seja atacado com base em desinformação e associações falsas.
“Nossa família não possui qualquer vínculo com os investigados, e nossa atuação sempre foi pautada pelo respeito, inclusive à causa animal”, afirmou o diretor do Majestic Palace Hotel, Rafael Daux. O empreendimento destacou histórico de mais de 15 anos como empreendimento pet friendly, com apoio a iniciativas de adoção responsável. A Polícia Civil confirmou que o Majestic Palace Hotel Florianópolis não tem relação com o caso.
O que aconteceu com o cão Orelha
Moradores e comerciantes da região cuidavam de Orelha, um cão comunitário de cerca de 10 anos que vivia na Praia Brava. Dócil e conhecido por frequentadores e turistas, o animal tornou-se um símbolo da convivência local.
No dia 5 de janeiro, moradores encontraram Orelha gravemente ferido em uma área de mata próxima à praia, após uma agressão brutal. Diante da gravidade das lesões, o animal precisou ser submetido à eutanásia após atendimento em uma clínica veterinária.
A perícia constatou que um objeto sem ponta ou lâmina atingiu Orelha na cabeça, mas o instrumento não foi localizado. Quatro adolescentes são suspeitos de envolvimento no crime de maus-tratos contra o cão Orelha.
Os nomes não foram divulgados, conforme determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Dois deles estão em Florianópolis, enquanto outros dois estariam nos Estados Unidos em viagem previamente programada.
Familiares são suspeitos de coação de testemunhas em caso do cão Orelha
Além dos adolescentes, três adultos — familiares dos investigados, sendo um advogado e dois empresários — são investigados por suspeita de coação de testemunhas. Um vigilante de condomínio, considerado vítima da coação, foi afastado do trabalho por segurança.
A Polícia Civil apreendeu celulares e dispositivos eletrônicos dos adolescentes, que serão analisados para reforçar os elementos de prova. A polícia apura a ligação de familiares envolvidos no caso com a gestão dos hotéis, com exceção do Majestic Palace Hotel Florianópolis.
De acordo com a delegada Mardjoli Valcareggi, da Delegacia de Proteção Animal (DPA) de Florianópolis, mais de 20 pessoas foram ouvidas durante a investigação. A polícia informou ter analisado cerca de 72 horas de imagens provenientes de 14 câmeras públicas e privadas. Somadas a outros fatos conexos, as análises ultrapassam mil horas de gravações.
A investigação também apura uma tentativa de afogamento de outro cão comunitário, Caramelo, que sobreviveu após ter sido jogado ao mar, segundo testemunhas. O cão sobreviveu e foi adotado pelo delegado-geral de Polícia Civil de Santa Catarina, Ulisses Gabriel.
Governador de SC sanciona lei de proteção para animais comunitários
Em Santa Catarina, o governador Jorginho Mello (PL-SC) sancionou a Lei nº 19.726, que cria a Política Estadual de Proteção e Reconhecimento do Cão e Gato Comunitário, com foco na proteção legal a animais sem tutor fixo, mas cuidados pela comunidade.
A norma proíbe remoção, maus-tratos, abandono forçado e restrições sem justificativa técnica, além de permitir a instalação de abrigos, comedouros e bebedouros em áreas públicas. De autoria do deputado estadual Marcius Machado (PL), a lei foi construída com participação de entidades de proteção animal e do governo estadual, e busca dar segurança jurídica e fortalecer ações de bem-estar animal nos municípios.
Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/santa-catarina/agencias-turismo-rompem-com-hoteis-apos-repercussao-maus-tratos-com-animal/
