4 de abril de 2025
“Para o ‘Forever Howlong’, mais do que nunca, tentámos escrever
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Fotografia de Holly Whitaker

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Em dezembro de 2019, a The Quietus declarava os Black Country, New Road como a “melhor banda do mundo”. A opinião do crítico John Doran era ousada, mas justificada. Os dois primeiros singles da banda britânica, “Athens, France” e “Sunglasses”, em combinação com os seus concertos explosivos e catárticos, declararam os BC,NR na nova coqueluche do rock alternativo britânico à época.

Entre 2019 e 2022, os BC,NR cumpriram o potencial declarado nos seus primeiros singles. Em fevereiro de 2021, com For the first time, cavalgaram o experimentalismo ligado à cena de Windmill (black midi, Squid, shame) para fazerem um álbum perdido entre o pós-rock, pós-punk e klezmer. 

Mais compilação dos primeiros anos da banda do que álbum, For the first time não tinha propriamente um conceito a ligar as suas canções. O segundo disco dos britânicos, contudo, mudaria isso. Ants From Up There, epopeia existencialista editada em fevereiro de 2022, é um álbum magnífico. Canções magníficas, explosivas, catárticas. Se dúvidas houvesse, Ants From Up There dissipou-as: os Black Country, New Road eram mesmo a melhor banda do mundo.

Porém, ser a melhor banda do mundo tem as suas consequências no físico e no mental. Uns dias antes do lançamento de Ants From Up There, e depois de vários concertos cancelados devido a doença no seio da banda, os BC,NR anunciavam nas suas redes sociais que Isaac Wood, vocalista, guitarrista e letrista da banda, não ia continuar a tocar com os seus colegas. A razão era a sua saúde mental, a pressão de ser o líder dos BC,NR demais para uma pessoa só aguentar De repente, os versos introdutórios de “Concorde” ganhavam novo significado: “Concorde, this organ / The new one I’m formin’ / It’s grown so persistent on you by the morning / I fell to my feet / And the doctor said, we are unfortunately / Running out of options to treat”. A sua poesia pós-moderna, aquela poesia em que tantos jovens se reviam, não iria mais ser cantada. Os BC,NR eram a melhor banda do mundo, mas não poderiam continuar a ser a mesma banda. 

No entanto, tentaram. Sem Isaac, os BC,NR mantiveram o nome e tentaram traçar o seu caminho à sua maneira. Decidiram honrar os concertos que tinham marcados para 2022 e que não iriam tocar as canções compostas com Isaac sem ele. Portanto, eram precisas novas canções, que rapidamente os BC,NR cozinharam na sala de ensaios para serem tocadas ao vivo, com três membros a assumirem o papel de vocalistas – Tyler Hyde (baixo, voz), Lewis Evans (saxofone) e May Kershaw (teclas, acordeão, voz). Assim surgiu Live at Bush Hall, disco ao vivo que serve de cápsula do tempo a capturar os BC,NR a perceberem que banda queriam ser, precisavam de ser, para continuarem o seu caminho. Esse caminho encontra agora uma nova bifurcação em Forever Howlong, terceiro álbum de originais da banda londrina, publicado esta sexta-feira (4) pela seminal Ninja Tune.

Neste novo trabalho, Tyler Hyde, Lewis Evans, May Kershaw, Georgia Ellery (violino, voz), Charlie Wayne (bateria) e Luke Mark (guitarra), reuniram-se para criarem uma nova versão dos BC,NR. Esta versão, de certa forma, prossegue os caminhos sonoros das canções mais opulentas de Ants From Up There, combinando-as com o lado mais folk de Live at Bush Hall. Em Forever Howlong, os BC,NR soam como uma banda perdida do final da década de 60, uma que viajou para o futuro e teve a possibilidade de escutar Hejira, de Joni Mitchell, Joanna Newsom e Fiona Apple

A escolha de referências femininas não é à toa como ponto de comparação (mesmo que a banda indique que os The Band, bando de machos, são *a* referência sonora principal para este disco). Em Forever Howlong, Tyler Hyde, Georgia Ellery (dos também excitantes Jockstrap) e May Kershaw assumem-se definitivamente como as vozes dos BC,NR, dando vida às suas próprias ânsias, desejos, amores, desamores. Em Forever Howlong, os BC,NR não se esqueceram que a sua música é uma de conforto, uma de catarse, mesmo que as canções deste novo longa-duração sejam menos catárticas em comparação ao material gravado quando Isaac Wood fazia parte da banda.

Em agosto, os BC,NR regressam a Portugal para apresentarem Forever Howlong no Vodafone Paredes de Coura. A Comunidade Cultura e Arte falou com Lewis Evans e Luke Mark sobre Forever Howlong e tudo o que isso implica: as pressões, as ânsias, as canções. E canções, essas coisas magníficas capazes de unir corações partidos e corações apaixonados, essas os Black Country, New Road ainda sabem fazê-las. Bom disco. 

Um fio condutor entre todos os álbuns de Black Country, New Road é que tocaram as canções de cada disco ao vivo antes de gravarem-nas em estúdio. Porque é que isso se mantém como parte do processo da banda?

Lewis: Tocar uma canção ao vivo é o equivalente a tocá-la em três ensaios. Há qualquer coisa de diferente no foco que tens de ter para tocar uma canção ao vivo que não encontras numa sala de ensaios. Isto significa que a canção pode evoluir um bocadinho mais a ser tocada ao vivo do que a ser ensaiada. Além disso, temos de garantir que todas as canções funcionam ao vivo porque os concertos são a nossa principal fonte de rendimentos. Precisamos que os nossos concertos sejam tão bons quanto possível. Por causa disso.

Luke: Às vezes, também ficamos aborrecidos de estar sempre a tocar as mesmas canções. O que nos excita é sempre o que é novo. Esse é outro fator que nos influencia a começar a tocar as coisas antes de as gravarmos e lançarmos.

Mesmo com todo o hype em torno da vossa banda e com todos os concertos que deram nos anos seguintes à pandemia, é complicado para vocês subsistirem enquanto banda? A era do streaming impactou o processo de composição da banda de alguma maneira?

Lewis: Não sinto que afetou o processo de composição, mas definitivamente afetou o que fizemos a seguir ao Isaac sair da banda. Tivemos de escrever nova música rapidamente para que pudéssemos tocar nos festivais em que íamos tocar nesse ano. O material do Live at Bush Hall surgiu dessa necessidade. Portanto, mesmo que não diretamente, o streaming impactou a nossa abordagem logo a seguir ao Isaac sair da banda. Tínhamos de tocar ao vivo para ganharmos dinheiro, mas tínhamos de compor material novo porque decidimos que não íamos tocar as canções do Isaac sem ele. Mas a nível financeiro, nós só existimos como banda durante a era do streaming. Portanto, nem sentimos que existe bem uma alternativa a este ecossistema. Até agora, sempre precisamos de tocar para ganharmos dinheiro e o streaming nunca ajudou nesse aspeto. Somos o tipo de banda em que as pessoas compram bilhetes para nos ver e, se for preciso, compram também merch e cópias físicas dos nossos discos. Sabemos que não temos tantas streams quanto alguns artistas pop, mas se calhar temos mais pessoas dispostas a pagar bilhetes para nos ver que alguns desses artistas.

Luke: A indústria da música é ainda mais fodida para artistas que fazem música de géneros em que o formato de álbum não importa muito. Enquanto banda, trabalhamos para fazer álbuns e vender cópias físicas desses mesmos álbuns. Para o estado geral da indústria, até vendemos bastante cópias. Se não vendêssemos discos, não conseguiríamos recuperar nenhum dos adiantamentos que recebemos para os fazer. Se fores um músico de eletrónica, onde as pessoas se calhar não compram tanto álbuns em comparação quando és uma banda de indie, não sei como consegues recuperar financeiramente disso. Acho que temos sorte nesse aspeto. Temos fãs que querem mesmo ter o disco em mãos.

Fotografia de Eddie Whelan

À conversa com a Pitchfork, falaram sobre a vossa relação dos vossos fãs com a banda.  Online, muitas vezes, e admito que também não sou inocente nesse aspeto [risos], vejo memes de BC,NR, vejo fãs a discutirem a vossa vida pessoal e o que fazem ou deixam de fazer. Isso lembrou-me o que a Ethel Cain disse o ano passado no seu Tumblr que vivemos numa “epidemia da ironia”, onde fãs tornam tudo o que um artista faz em uma piada e que já nada é levado com seriedade. Sentem que às vezes os fãs “abusam” nesse aspeto?

Luke: Talvez um pouquinho, sim. De qualquer forma, acho que nunca queres que as pessoas te levem demasiado a sério. Contudo, hoje as pessoas falam assim de tudo online. Os memes são o formato preferencial para a comunicação moderna. Seja a política, as notícias, a música, tudo pode ser comunicado em formato de meme. É interessante quando artistas agarram nisso de forma séria como parte da sua estratégia de comunicação. Há uma banda qualquer que me aparece imensas vezes no meu Instagram e eu estava convencido que eles não eram músicos, mas sim comediantes. Há uns dias, vi-os a tocar uma live session e soava super sincera! Eram mesmo uma banda, mas achei que eram influencers.

Sobre não se levarem demasiado a sério, numa entrevista à Loud and Quiet revelaram que tentam sempre incluir momentos “engraçados” nos vossos discos, como as distorções “estúpidas” – palavras vossas! – do For the first time ou os kazoos que mal se ouvem no segundo plano do último clímax da “Basketball Shoes”. Há algum momento desse género incluído no Forever Howlong?

Lewis: Acho que há uns quantos. Há uma canção onde todos tocamos flauta de bisel e é engraçado porque a canção é bastante sombria e estamos a tocar flauta da forma mais simples possível. Talvez haja alguém que ache isso engraçado [risos]. Mas tentamos sempre incluir esses momentos tanto quanto possível. Daqui a dez anos, quando voltarmos a ouvir este disco, vamos ouvir essas cenas estúpidas e vamos rirmo-nos delas. Além disso, é importante que esses momentos existam na tua música porque permitem que os momentos verdadeiramente sérios e marcantes brilhem ainda mais. Dá mais contraste.

Luke: Fica mais semelhante ao que é a vida. Algumas das canções mais tristes de sempre são de artistas de música country e estão recheadas de humor. O Leonard Cohen e o David Berman são mestres disso, também. Tu ouves o álbum de Purple Mountains e é simultaneamente o álbum mais engraçado e triste de sempre. Nunca conseguiremos ser tão engraçados como o David Berman, porém.

Aprenderam alguma coisa durante o período em que tiveram de escrever rapidamente as canções do Live at Bush Hall que influenciou a composição do Forever Howlong?

Lewis: Sim. Foi durante esse período em que decidimos que íamos ter mais vários vocalistas na banda. Não queríamos que só uma pessoa tivesse essa pressão porque isso foi uma das principais razões pelas quais o Isaac saiu da banda. É pressão desnecessária. Para este álbum, decidimos manter essa ideia e que tínhamos de conseguir que as várias vozes funcionassem o melhor possível em conjunto para construir a narrativa do álbum. Acho que conseguimos fazer isso neste disco de uma forma que não tínhamos conseguido no Live at Bush Hall. Essa ideia não fazia parte do objetivo principal para as canções desse disco, mas o Live at Bush Hall serviu de aprendizagem para percebermos como idealizá-la nas canções do novo álbum.

Acho que um fio condutor que existe entre as três vozes femininas no Forever Howlong é que todas transmitem uma estranha sensação de ânsia, desejo e saudade – longing. Conseguem escutar isso?

Luke: De alguma forma, sim. Por exemplo, a faixa que dá título ao álbum é um bom exemplo disso, mas não sei se longing é a palavra certa. A “Forever Howlong” descreve um dia inteiro na vida de alguém em que forçamos a questionar se falta algo àquela descrição. Será que aquele dia é extremamente insatisfatório? Será que é satisfatório mesmo que não aconteça nada de excitante? Também pode ser interpretada assim. Pessoalmente, vejo este disco como a representação do sentimento de perceberes que já não és um adolescente [risos]. As relações e as amizades tornam-se mais complicadas e tens de reavaliar o que significam e quão importantes são para ti. Tens de meter mais esforço para as manter vivas também e perceber ao que queres dar prioridade na tua vida. Se calhar, isso é a representação de uma ânsia (longing) pela sensação de satisfação, mas sinto que está mais relacionado com essa fase da vida.

Consigo ver isso. Uma espécie de coming of age [passar da adolescência à vida adulta].

Luke: Estava a tentar evitar usar essas palavras [risos]. Acho que não é bem isso. É mais a sensação de perceberes que estás mesmo a viver a vida adulta – um came of age. Não é tanto o disco sobre fazeres 21 anos, mas mais um disco em que te apercebes que já não és assim tão jovem.

Sentem que o rápido crescimento de popularidade da banda levou-vos também a passarem pelas fases da vida mais rápido? Quando lançaram a “Athens, France” e a “Sunglasses” há seis anos, estavam a sair da adolescência.

Lewis: Fisicamente, envelheci imenso nestes seis anos [risos]. Para este disco, pelo menos, não senti que fomos apressados a nada. Para os outros… tecnicamente, no espaço de dois anos, lançamos três discos. Isso é imenso para uma era onde já praticamente ninguém vai para estúdio fazer coisas e mete-las cá fora passado duas semanas. Portanto, isso foi um período muito cansativo para nós e, por causa disso, pareceu que tivemos imenso tempo para fazer este novo disco. Durante a digressão do Live at Bush Hall, que durou dois anos e meio, tivemos cerca de meio ano onde não tivemos concertos e podemos estar todos juntos a compor estas magníficas canções que a Tyler, a Georgia e a May trouxeram para a sala de ensaios. Estranhamente, foi um processo muito mais relaxado do que anteriormente.

Têm noção que este é o primeiro álbum que estão a lançar em que a banda se encontra relativamente estável? O For the first time foi publicado durante a pandemia, o Ants From Up There saiu logo após o anúncio da saída do Isaac, e o Live at Bush Hall teve de existir para tocarem ao vivo.

Luke: É estranho. Só nos apercebemos disso quando estávamos a preparar o material de comunicação para este disco e o nosso PR [responsável pelas relações públicas da banda] falou nisso. Isso é algo assustador porque, se este disco falhar, não há desculpa [risos]. Mas só perceberemos se falhamos daqui a tipo um ano. Até lá, é excitante pensar que vamos tocar estas canções e que temos de pensar como lhes vamos dar um toque extra para as performances ao vivo.  

A “Mary” – uma das canções mais importante do disco por se escutar as vozes da Georgia, da Tyler e da May ao mesmo tempo – e a “Salem Sisters” são faixas que me lembram rituais. Existe alguma ligação entre a música deste disco e um universo esotérico ou místico?

Lewis: Musicalmente, não. Sinto que pode ser algo que influencia a Tyler, mas não posso responder por ela a essa pergunta [risos]. Quando estamos a fazer os arranjos das canções, não discutimos muito sobre a temática da canção. Às vezes, podemos falar de uma referência musical ou outra, mas é muito raro. Nunca dissemos que queríamos que uma canção soasse como uma lua, por exemplo [risos]. Acho que não somos uma banda muito espiritual dentro da sala de ensaios.

O James Ford produziu o Forever Howlong e sinto que este disco tem um acabamento de “pop grandiosa”, algo que o James é bem capaz de fazer. Ele era alguém que acreditavam que tinha a capacidade de ajudar a concretizar o potencial emotivo grandioso destas canções?

Luke: Não foi essa a verdadeira razão pela qual escolhemos trabalhar com o James. Toda a gente com quem falamos que já tinha trabalhado com ele relatou-nos experiências positivas e queríamos alguém que executasse quaisquer que fossem as nossas ideias. Não estávamos propriamente à procura de alguém que polisse as canções nem que lhes desse um acabamento mais “pop”. Se há melodias no álbum que soam mais “pop”, fomos nós que as compusemos. O que nós queríamos mesmo era encontrar alguém que fosse capaz de ver alguém das nossas dinâmicas enquanto banda. Geralmente, até somos muito honestos uns com os outros, mas às vezes é preciso alguém com ouvidos experientes que te diga quando estás errado ou quando estás a perder demasiado tempo com uma ideia parva. O James, por causa de toda a sua experiência e versatilidade, teve o papel de não deixar que nos perdêssemos no nosso processo de composição. 

Lewis: Havia outra razão. Desde o início, a Georgia estabeleceu que as vozes iam ser muito importantes neste disco. Queríamos alguém com a experiência e habilidade para colocar as vozes delas a soarem como elas queriam porque nunca tinham sido gravadas em estúdio com a banda. Era crucial que escolhêssemos alguém que já está habituado a ter de lidar com todo o tipo de situações dentro de um estúdio de gravação. O James acabou por ser a escolha óbvia. Sabíamos que ele seria capaz de tirar todo o partido das vozes delas.

Lembro-me de terem dito numa entrevista que tinham dificuldades em escrever canções “com menos de seis minutos”. Neste disco, há quatro canções de 11 com mais de seis minutos, mas nenhuma delas tem a duração de uma “Basketball Shoes”, por exemplo. Nesse aspeto, o James ajudou-vos a conseguirem ser mais comedidos na duração das vossas composições?

Luke: Houve uma ou outra canção que ficaram um bocadinho mais curtas, mas estamos a falar de 10 segundos ou menos [risos]. Tirando isso, que foi obra do James, o restante fomos nós a tentar sermos mais concisos com a música que escrevemos. Lembro-me de a Georgia levantar isso como tópico de discussão quando estávamos no processo de escolher um produtor. Mas o James não teve muito esse papel. Não estou a dizer que acertamos na mouche imediatamente, mas falamos tanto sobre isso que, quando chegamos ao estúdio, estávamos muito cientes do que era a estrutura de canção. Um dos objetivos para este disco era sermos mais concisos e sermos capazes de colocar tanto quanto possíveis elementos musicais excitantes na mesma canção.

Essa ideia faz parte do vosso objetivo de escrever canções pop estranhas?

Luke: Definitivamente. Para o Forever Howlong, mais do que nunca, tentámos fazer isso. A “Happy Birthday”, por exemplo, na nossa cabeça tem uma estrutura de verso-refrão-verso-refrão-bridge-outro. Contudo, acreditamos que quando as pessoas ouvirem a canção, não vão exatamente ouvi-la assim. Parece que nada se repete, o que é semi-verdade. A base dos versos e dos refrões são as mesmas, mas o que se ouve é totalmente diferente. Essa canção é um excelente exemplo do que tentámos fazer com as canções deste álbum. Se isso significa que as pessoas vão gostar? Teremos de ver.

Sentem pressão para como a vossa música vai ser recebida?

Lewis: De certa forma, sim. Mas o mais importante é gostarmos da música. Pessoalmente, gosto imenso deste álbum. Seria algo que adoraria ouvir se não estivesse na banda. Isso é o mais importante. Se algum dia fizer alguma coisa com a qual não estou satisfeito, seria um pesadelo. Gostar da música tira algum peso dos ombros – pelo menos, dos meus. 

Para o Live at Bush Hall, a Georgia não pode contribuir com a sua voz devido a problemas pessoais. Lewis, cantaste duas canções do Live at Bush Hall, mas neste novo álbum, não cantas nenhuma. Esta foi uma decisão da banda para se afastar da perspetiva masculina muito ligada às letras do Isaac ou teve a ver com outra razão específica para este álbum apenas?

Lewis: Não houve nenhuma discussão. A razão é simples. Não quis voltar a cantar porque não gosto de cantar [risos]. Como precisávamos de canções, achei que podia experimentar e ver como me sentia. Fi-lo, não gostei, e decidi que não queria voltar a cantar. A minha decisão acabou por ajudar porque foi mais fácil tornar o álbum a soar consistente com as três vozes femininas do que com a minha. 

Em 2023, antes de tocarem na edição desse ano do Super Bock Super Ano, tocaram um concerto surpresa na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, a sala onde se teriam estreado em Portugal se não fosse a pandemia. Tocar num sítio pequeno e intimista como a ZdB trouxe memórias ao de cima dos primeiros concertos de Black Country, New Road?

Luke: De certa forma, sim. Lembro-me desse concerto bastante bem. Conseguíamos ver as caras de toda a gente e houve algumas coisas que correram menos bem. Não conseguimos afinar as guitarras por causa do calor e estivemos para aí uns cinco minutos à conversa com público. Lembro-me que sentimos uma energia diferente porque era como se conhecêssemos toda a gente que estava connosco na sala. Assim, ya, era como se fosse uma banda a começar a tocar. Porque quando começas a tocar, geralmente quem te vem ver são os teus amigos. Quando tocamos na ZdB, ainda tocávamos em salas pequenas, mas nada como esse concerto. Para ser honesto, acho que não tocamos um concerto nem antes nem depois com a atmosfera particular dessa noite.

Lewis: Tenho memórias bonitas desse concerto. Foi diferente de um concerto normal. Quando as coisas correm mal num concerto normal, tu sentes pânico. Na ZdB e com aquele público, sentimo-nos relaxados porque parecia que o público nos estava a dizer que podíamos tocar quando estivéssemos prontos. Acho que isso teve a ver com a ZdB ser uma sala pequena e que o público português é muito acolhedor.

Luke: É mais simpático que o inglês! [Risos]

Lewis: Sentimo-nos muito confortáveis a tocar na ZdB e foi uma noite amorosa. Acho que esse é o tipo de concerto mais gratificante. Onde sentes que toda a gente forma uma comunidade e que toda a gente está feliz por estar ali. Como o Luke disse, quando és uma banda de música alternativa com algum hype, começas a tocar em salas cada vez maiores, mas isso não acontece em todo o lado. Não era totalmente impensável para nós, nessa altura, tocar numa sala assim tão pequena. Houve noites em que tocamos em salas ligeiramente maiores que a ZdB, mas vendemos bem menos bilhetes que a capacidade da sala. Por exemplo, houve um concerto numa cidade perto de Lille, em França, onde vendemos 100 bilhetes e a sala tinha capacidade para 500 pessoas. Se tocássemos em Lisboa agora, iríamos vender bastantes bilhetes, mas há regiões onde não tens tanto público.

Mencionaram no passado que gostavam de fazer a banda sonora para um filme. Ainda têm esse objetivo em mente e para que tipo de filme gostavam de compor uma banda sonora?

Luke: Boa pergunta!Lewis: Ainda queremos fazer isso, definitivamente. Contudo, compor uma banda sonora é algo que só acontece quando te pedem. Quando andamos a dizer isso em entrevistas, foi uma forma de tentarmos piscar o olho a dizer que estávamos interessados e para virem falar connosco [risos]. Recebemos uma oferta para compor a banda sonora para um programa de televisão, mas estávamos em digressão e não foi possível fazê-lo. Tinha sido interessante. Mas se fizéssemos uma banda sonora para um filme… Por exemplo, a banda sonora do Daniel Blumberg para o The Brutalist. Sinto que qualquer músico adoraria compor coisas daquele género para uma longa-metragem, mas depois penso. Se fossemos nós a tentarmos compor algo assim com as nossas bases musicais, ia soar terrível. Acho que teríamos de fazer música para um filme como o Licorice Pizza. Algo que seja um pouco divertido e parvo, mas com coração. É onde imagino que a nossa música iria funcionar melhor.

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Fonte: https://comunidadeculturaearte.com/entrevista-black-country-new-road-para-o-forever-howlong-mais-do-que-nunca-tentamos-escrever-cancoes-pop-estranhas/