A nomeação de Beatrice Venezi como nova diretora da histórica Ópera La Fenice, em Veneza (Itália), está a causar mal-estar junto dos músicos, que se têm manifestado contra o seu “currículo”.
Até à data, os trabalhadores da Ópera La Fenice tinham ameaçado entrar em greve e chegaram mesmo a distribuir panfletos entre o público em protesto contra a nomeação de Beatrice Venezi, conhecida pelas suas ligações à direita italiana, mas agora músicos e maestro daquela instituição decidiram mostrar a sua indignação ao mundo, fora das paredes da instituição, num concerto público de Ano Novo.
Nesse concerto de Ano Novo, os músicos e até o seu maestro, Michele Mariotti, apareceram diante das câmaras com um objeto simbólico do seu descontentamento: um pequeno broche amarelo com uma clave de sol nas lapelas dos seus casacos.
O emblema amarelo com a clave de sol tornou-se rapidamente numa declaração de solidariedade com os funcionários da La Fenice e os seus sindicatos já encomendaram cinco mil peças para responder às inúmeras encomendas que receberam de Roma, Milão, Florença ou do estrangeiro.
“O currículo da maestra Venezi não é comparável ao de outros diretores musicais de outros teatros que passaram pela La Fenice”, afirma a corista Francesca Poropat, da Representação Sindical Unitaria (RSU) do teatro, em declarações à agência de notícias espanhola Efe.
Os seus críticos consideram-na demasiado jovem e inexperiente, aos 35 anos, para assumir a batuta de um dos templos da ópera mundial, mas também há quem alegue a sua proximidade com a extrema-direita que governa a Itália e a sua conhecida amizade com a primeira-ministra Giorgia Meloni.
No meio do mal-estar entre músicos e funcionários da secular ópera italiana, o superintendente da La Fenice, Nicola Colabianchi, defende a nomeação de Beatrice Venezi por ser “uma professora preparada”, formada “com a maior pontuação” e com experiência no exterior após sua passagem em 2024 como diretora convidada pelo Teatro Colón de Buenos Aires (Argentina).
“Não entendo este ostracismo, não se justifica. Não compreendo o motivo deste protesto […]. Nunca tinha acontecido que tudo isto acontecesse”, lamenta em declarações à Efe.
Nicola Colabianchi espera que a paz regresse à sua ópera antes de outubro próximo, altura em que a nova diretora deverá entrar em funções, até 2030.
“Nas equipas de futebol, os jogadores escolhem o treinador? Não. Então, por que razão o diretor musical de um teatro deveria ser escolhido pela orquestra?”, argumenta.
O presidente da Câmara de Veneza e presidente da fundação do teatro, Luigi Brugnaro, instou a “baixar o tom” e “dar uma oportunidade” à nova diretora e propôs organizar um concerto “em campo neutro”, em outra cidade, para que a maestrina e os seus futuros músicos se conheçam e — quem sabe — possam escrever a partitura da reconciliação.
A Fenice, com a sua abóbada celeste e os seus camarotes dourados, não só é uma das óperas mais prestigiadas do mundo desde a sua inauguração em 1792, como também tem algo de lendário por ter ressurgido das cinzas de dois incêndios, tal como a ave fénix que lhe dá nome.
Situado no coração da cidade dos canais, no seu glorioso passado acolheu estreias de obras tão conhecidas como “La Traviata” (1853) ou “Rigoletto” (1851) de Verdi, bem como outras obras-primas de Rossini, Bellini, Stravinski ou Prokofiev.
Fonte: https://comunidadeculturaearte.com/musicos-da-opera-la-fenice-em-veneza-manifestam-se-contra-o-curriculo-da-nova-diretora-beatrice-venezi/
