3 de abril de 2025
O problema genético dos Play
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prétu (xullaji) – Iminente 2021 / Fotografia de Artur Monteiro

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Este artigo foi originalmente publicado em Mesa de Mistura e foi aqui republicado com a devida autorização do autor.

Prefiro o lugar da observação ao do relato mas neste caso é inevitável a auto-crítica porque prezo a coerência e devo esta explicação preambular, até a mim mesmo. No ano passado, fui convidado a entregar o prémio da crítica nos Play. Recebi a chamada com surpresa, por todos os motivos. O palco nobre do Coliseu dos Recreios não me pertence, nem me recordo de algum(a) jornalista ou crítico(a) ter entregue o galardão nas ediçōes anteriores. Como escrevi no rescaldo, hesitei perante a convocação. E só aceitei devido a algumas conversas produtivas com o director dos prémios Paulo Carvalho, mas também e principalmente por ser a única categoria sem pré-nomeaçōes, ou seja desobrigada de critérios e estritamente subjectiva. A minha opinião sobre os prémios é que não se alterou. Há lugar para a indústria se celebrar a si mesma, mas não nestes moldes de exclusividade autocrática. Até nisso, o reconhecimento da crítica é um caso à parte.

Sem surpresa, a vitória coube a Afro Fado de Slow J. Não seria a minha escolha — essa caberia ao portentoso xei di Kor de prétu (também conhecido como Chullage e Xullaji), infelizmente pouco expressivo no espaço público por escolha do próprio — mas no equilíbrio entre reconhecimento crítico e impacto popular, foi um vencedor representativo e credível. Em conversas espontâneas de corredor, reparei que a percepção de J dentro da indústria mudara desde que assumira a ligação à Sony. Um álbum monumental como You Are Forgiven (2019), além de todas as suas propriedades artísticas e emocionais, era insuficiente para o meio, apesar de ter sido o primeiro recordista das novas métricas digitais ao ser o mais ouvido de sempre em dia de estreia nas plataformas digitais, e de ter sido considerado o Melhor Artista Masculino em 2019, além de estar nomeado na categoria de Melhor Álbum. Porquê?

Porque a grande indústria da música gravada, formada pelas três multinacionais Universal, Sony e Warner, e algumas agências com interesses adjacentes, detesta ser ultrapassada pela faixa dos transportes públicos, e trata como invasoras as plantas exóticas que crescem demasiado, até as conseguir transplantar para o seu jardim. Democratização, sim, mas desde que a possa controlar. Foi o caso de Slow J, até então filiado no partido dos independentes, e ainda assim uma ausência mais do que esperada na gala de 2024, tal como acontecera em vitórias anteriores nestes mesmos prémios — e uma presença inesperada em 2022 quando vestiu o fato para acompanhar Ivandro e Frankieontheguitar, sem confirmar previamente a vinda.

Música ou indústria da música?

O caso de Slow J seria particular se não resumisse a forma como a indústria encara os Play e a forma como os prémios se entregam a essa “volumetria”. A grande indústria existe em circuito fechado, controla o xadrez e escolhe as peças do tabuleiro. O regulamento está disponível e é claro. “Uma primeira seleção dos candidatos de cada categoria será feita através do Critério da Limitação Volumétrica (conforme descrito no ponto 3.5. infra), do qual resultará uma Lista Volumétrica de 30 ou 20 artistas/bandas, canções ou álbuns com melhor desempenho no agregado dos diversos fatores que compõem este Critério”.

A saber: vendas de álbuns (físicos e digitais), vendas digitais, streaming audio (“apurado a partir da listagem total de streams para o território português recolhida para a AUDIOGEST e AFP, por uma empresa de estudos de mercado de reconhecida idoneidade”), visualizações Youtube e top nacional de airplay. Ora, estes são critérios de ordem numérica que movem e moldam a indústria. É compreensível que uma cerimónia transmitida pela RTP e patrocinada por uma operada com a Vodafone imponha padrōes elevados de impacto popular mas as premissas definidas excluem à partida uma camada importante de músicos e músicas que podem não ter espaço nos centros comerciais de atenção mas nem por isso perde o direito a existir.

O problema genético dos Play é assumir-se como Prémio da Música Portuguesa quando, na prática, é o Prémio da Indústria da Música Portuguesa. Parecendo quase a mesma coisa é muito diferente e gera entropias na percepção. Porque, se alguns dos consagrados do mainstreaming se sentem maiores que os prémios e descartam a presença se não ganharem (e mesmo assim…0 — um fenómeno transversal e já sobejamente abordado, por exemplo, em relação aos Grammy — a camada independente, fundamental para garantir equilíbrio de forças e algum fundamento crítico, sente-se desprezada e apagada da história. Este conflito conduz a gritos mudos como o de X-Tense, quando venceu o prémio de melhor vídeo, e nem sequer se fez representar ou endereçar uma palavra. Quando Caro foi anunciado vencedor, o silêncio no Coliseu teve o peso de uma manada de elefantes.

É por este impasse que o prémio da crítica deve ser protegido de influências exteriores. Para este ano, foi anunciada uma novidade com a nomeação de quatro álbuns, não se aplicando, no entanto, os Critérios da Limitação Volumétrica referidos no regulamento. Ou seja, Ana Lua Caiano, Capitão Fausto, Maria Reis e Plutónio já foram escolhidos após a votação de um “Comité de Crítica, formado por críticos, jornalistas e divulgadores convidados pela Audiogest”. É apenas uma questão de aparência, justificada pela organização com a vontade de dar mais visibilidade aos nomeados. O argumento não colhe. Se há prémio em que a escolha não precisa de mais um torniquete, é este. E ainda que se trate apenas de uma opção de imagem, soa a um condicionamento, ou seja a uma tentativa de controlar eventuais pedras na engrenagem.

Imagine-se uma peça paciente e atmosférica como o sublime Spectral Evolution, de Rafael Toral, transtornar a lógica e vencer. Seria divertido, muito divertido, ver o sorriso amarelado de alguns executivos que se arrogam o totalitarismo mas sejamos sinceros: a indústria é intolerante à subversão, e nem Rafael Toral teria o seu momento Garota Não porque, provavelmente, nem sequer estaria presente, nem ganharia muito com o prémio. Podemos recuar e questionar-nos se o público reconhece credibilidade aos Play, e comparar esse efeito com a experiência individualizada, dominante na música actual, em que a indústria defende os seus, desresponsabilizando-se de olhar para o meio como um ecossistema democrático e preenchido por múltiplas identidades, e o público médio consome o que lhe chega através de um sistema de relações pouco claro e condicionado.

Pensar a música ou tratá-la em numerário?

Ainda que a importância da crítica seja invisível para a massa anónima que só conhece a música portuguesa das televisões, o contrapeso seria vital se o meio tivesse capacidade de se auto-criticar e escutar para além da volumetria. Porém, o problema começa muito antes. Quando há jornalistas e comunicadores a aceitar jogar em dois tabuleiros ao escrever textos para editoras e entrevistar esses mesmos nomes para jornais e revistas digitais, o princípio elementar da separação de poderes está inquinado, além de todas as questões éticas associadas. É um suicídio editorial. Quando o Blitz faz da eleição do Melhor Disco da Música Portuguesa dos últimos 40 anos uma operação comercial mal disfarçada, continuando por explicar os oito deputados da Sons em Trânsito, e a presença de Pedro Abrunhosa no comité (caviar?) decisor, até os esgotos estão a céu aberto.

A indústria olha para a crítica como um veículo utilitário e para os jornalistas/comunicadores que queimam neurónios a dissecar o fenómeno da música portuguesa como idiotas úteis, acarinhados quando aceitam pôr um preço na sua dignidade, endeusados quando as citaçōes abrem a porta a programadores e outros agentes de interesse, e inimigos quando em dias de alerta vermelho, a positividade tóxica é levada por um arrastão de sinceridade de alguém que fez o corajoso obséquio de jorrar a sua verdade como tinta verde, sem pensar em outro fruto que não o de estar bem com a consciência e mediar com saber e franqueza a relação entre o objecto e o leitor. Parece simples mas tornou-se muito problemático. E participar num festim como este de fato de branco de gala sem manchas no casaco, nem ao mais casto e puro dos apóstolos é concedido.

Não se trata de olhar para o espaço do pensamento crítica (que inclui a crítica publicada, mas não só) com corporativismo mas antes de defender a sua importância até para o próprio meio. Sobreviver nesta indústria exige jogo de cintura, capacidade de negociação e gestão de egos. Reflectir e exigir não está a compensar mas devemo-nos a pergunta: queremos uma música aberta ao pensamento, livre para aceitar o incómodo e a desconformidade, ou aceitamos que até as minorias absolutas sejam vendidas em numerário, sujeitas à opacidade do algoritmo e a manobras de bastidores dos mais influentes? A resposta a esta questão existencial é a diferença cabal entre música e indústria. Esta indústria.

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Fonte: https://comunidadeculturaearte.com/o-problema-genetico-dos-play/