Quem descarta a música hardcore pela falta de carinho (seja sónico ou lírico), não conhece os Turnstile, os paladinos do amor, da aceitação e da tolerância na sua forma mais agressiva. A banda já era um êxito moderado na Costa Leste dos Estados Unidos que os viu nascer em 2010, mas foi em 2021, com GLOW ON, que viraram a febre dos putos e graúdos roqueiros, e até daqueles apenas adjacentes ao moshpit. Isso deve-se às suas escolhas musicais mais arrojadas que o normal, produção feita com muito cuidado e que destaca todos os instrumentos sem se atabalhoarem, e letras que tocam fundo nos corações daqueles que se sentem seguros no meio do moche — “I want to thank you for letting me see myself / I want to thank you for letting me be myself” foi apenas um dos mantras vociferados pelo devoto público. O mais recente álbum, NEVER ENOUGH, lançado este ano, renovou o sucesso da banda nesse meio fiel, ao mesmo tempo que abre a porta a novos estilos, como a música ambiente e rock mais clássico.
Depois de duas atuações muito bem recebidas pelo público no Vodafone Paredes de Coura, em 2022, e no Primavera Sound, em 2025, os Turnstile regressaram a Lisboa, onde já não atuavam desde 2015, altura em que provavelmente não imaginariam o sucesso internacional que teriam. A lotação da sala maior do Lisboa ao Vivo esgotou há cerca de dois meses, enchendo-se de acólitos do hardcore e de curiosos para ver a banda, que se fez acompanhar de duas bandas de abertura: os High Vis e os The Garden. Infelizmente, nesta reportagem, não poderemos discorrer sobre o concerto de High Vis, devido a imprevistos logísticos que nos impediram de estar presentes.

À nossa chegada ao enorme armazém que acolheria os concertos da noite, fomos assolados por uma rajada de bateria tempestuosa que deu início ao espetáculo dos norte-americanos The Garden. Composto pelos gémeos verdadeiros Wyatt e Fletcher Shears, o duo é um autêntico salta-pocinhas de géneros. Com apenas baixo, bateria e alguns sons pré-gravados de guitarra, sintetizadores ou drum machines, os músicos foram saltando entre punk aguerrido, post punk soturno, nu metal e até algumas canções mais próximas do hip hop mais abrasivo. Nem todos os géneros colavam da mesma forma, mas a meia hora de concerto foi um chorrilho de energia difícil de ignorar, que serviu bem para acumular entusiasmo para a libertação que viria mais tarde.
No início, o baixo de Wyatt soava distorcido, como se estivesse a ligar dezenas de cabos AUX ao mesmo tempo, criando um som quebrado e um pouco perturbador. As primeiras três canções em particular, assemelhavam-se mais ao punk e ao noise de bandas como os Lightning Bolt, outro duo conhecido pela sua agressividade sonora. Mas à quarta canção, o panorama mudou. O baterista abandonou o seu kit, deu uma cambalhota e juntou-se ao irmão na frente de palco para a caótica “What Else Could I Be But a Jester”, que nos lembrou de Lip Critic e dos saudosos Death Grips. O ritmo aumentou ainda mais para “Ballet”, cuja batida techno crocante nos remeteu aos Liars, outra clara influência do duo. A teatralidade e intensidade do duo não pareceram ter entusiasmado assim tanto o público, que aplaudia timidamente as canções e parecia estar pouco aberto a algo novo, mas acreditamos ter despertado algum interesse em alguns melómanos mais atentos.

Entretanto, a espera de mais de duas horas e meia desde a abertura de portas terminou e os Turnstile finalmente subiram ao palco, para gáudio da audiência que, a partir do momento em que soou o drone que dá início a “NEVER ENOUGH”, começou a vibrar como as moléculas de uma substância que sofre um aumento de temperatura. Assim que a guitarra e bateria aparecem para expandir o som da música para lá da estratosfera, dão-se início às colisões, aos saltos, aos abraços, ao crowdsurfing e aos gritos que convertem este concerto numa experiência ainda mais comunal que o normal. Aqui, é normal levar pontapés na cara dados por um transeunte voador, ser-se usado como apoio para ascender acima das cabeças e até ser abalroado por uma onda de empurrões mais intensa. No entanto, também é normal fazer-se um cordão de segurança para alguém atar os atacadores dos sapatos, segurar alguém que começa a perder o equilíbrio, fazer frequentemente a pergunta: “estás bem?” e parar se alguém efetivamente não o estiver.
Aliás, a banda incita-nos a isso, frequentemente recordando-nos de que devemos cuidar uns dos outros, seja nas interações emocionadas que vão tendo com o público ou através das suas letras plenas de cuidado. Nada disto é particularmente anormal para um concerto desta natureza, mas as melodias orelhudas e brilhantes dos Turnstile elevam-nos os espíritos de uma forma diferente. A catarse torna-se mais efusiva do que violenta e vemos muitos mais sorrisos do que expressões de raiva. As investidas primais contra um colega do público devem ser encaradas como um convite amistoso a participar desta libertação de energia acumulada e não como uma provocação.

Tirando o maior entusiasmo do público, este concerto não foi muito diferente daquele que a banda deu no Primavera Sound há pouco mais de cinco meses. Não desempoeiraram mais canções antigas para além das que já tinham tocado na altura nem mudaram o alinhamento de forma dramática. Mas, como se costuma dizer, em equipa que ganha não se mexe. A sequência de “NEVER ENOUGH”, “T.L.C. (TURNSTILE LOVE CONNECTION)” e “ENDLESS” para começar é uma descarga de eletricidade que deixa logo toda a gente em sentido. Neste concerto, essa descarga prosseguiu até “DON’T PLAY”, uma das canções mais aguerridas do álbum anterior de GLOW ON. Pelo meio, umas pausas bem colocadas, seja de silêncio ou de um outro de sintetizador e/ou flauta (esta em particular no final de “SUNSHOWER”, habilmente tocada em estúdio por Shabaka), vão-nos permitindo respirar e alinhar os chakras.
Para além da destilação dos riffs concentrados que caracterizam a maioria da música da banda, houve ainda espaço para outras experimentações do último álbum que vão além da música hardcore, mas igualmente bem recebidas pelo público. “LIGHT DESIGN” primou pela performance do vocalista Brendan Yates, que se entregou inteiramente à melodia em que anos 80 e 2000 colidem com muito classe, chegando a ser emocionante. “SEEIN’ STARS” já foi várias comparada a The Police, comparação aparentemente encarnada pela banda com brio. A atuação foi acompanhada do brilho de uma bola de espelhos que se refletia nas testas suadas do público. Antes do quase-encore, o refrão maior que a vida de “LOOK OUT FOR ME” (“Now my heart is hanging by a thread”) desembocou na eletrónica que fecha essa música e serve para dar um pezinho de dança mais convencional.

O trio final de músicas foi composto por “MYSTERY”, “BLACKOUT” e “BIRDS” — esta última já uma das favoritas dos fãs, apesar de ter sido lançada apenas este ano. Como um treinador pessoal, Brendan urgiu a que déssemos tudo de nós nestas últimas canções e o público, apesar de cansado, aderiu com a urgência de quem vê uma experiência transformadora a aproximar-se do fim. O clímax de “BIRDS” contou ainda com uma série de fãs que subiu ao palco para fazer a festa junto com a banda. Foi um momento perfeitamente adequado e que fechou a noite com chave de ouro.
Mesmo com os momentos de… chamemos-lhes descanso, o concerto pareceu estar em constante crescendo: foi tudo sempre mais intenso, mais cansativo, mais efusivo. Mas como o mais recente álbum da banda diz, parece que nunca é suficiente, queremos sempre mais. Felizmente, os Turnstile não têm medo de no-lo dar.
Fonte: https://comunidadeculturaearte.com/turnstile-ao-vivo-mais-nao-e-suficiente/
