O lobby governa, o mercado manda e o trabalhador paga a conta
MARCOS VERLAINE (*)
Estamos falando ou tratando da pauta que nunca ou muito pouca anda no Legislativo federal. Por que o Congresso Nacional não vota proposições estruturais como a redução da jornada de trabalho, o fim da escala 6×1 e outras medidas capazes de melhorar objetivamente a vida dos trabalhadores?
A resposta não está na falta de propostas, nem na ausência de debate técnico. Está na correlação de forças.
Essas matérias não avançam porque enfrentam o poder organizado do chamado “mercado” e de seus agentes, que atuam por meio de lobbies estruturados, permanentes, profissionalizados e profundamente influentes sobre o processo legislativo. Essa influência é cotidiana e diuturna.
Assim, o Parlamento, em vez de ser mediador entre interesses sociais distintos, converte-se, nesse tema, em espaço de bloqueio institucional.
Não se trata de inércia. Trata-se, pois, de veto político. E veto é ideológico.
“MERCADO” COMO PODER DIFUSO E ORGANIZADO
O chamado mercado não é entidade abstrata e/ou neutra. É composto por investidores, empresas, bancos, fundos, instituições financeiras, conglomerados econômicos e seus intermediários: corretores, gestores, analistas, consultorias, bancos de investimento, associações empresariais e entidades representativas.
Esse conjunto atua de forma coordenada por meio de:
• pressão direta sobre os parlamentares;
• financiamento de campanhas;
• produção de narrativas econômicas;
• captura da agenda pública;
• interlocução permanente com as mesas diretoras; e
• influência técnica disfarçada de neutralidade.
O lobby não é episódico: é estrutural, cotidiano e profissionalizado.
PACTO SILENCIOSO
Nesse contexto, forma-se entendimento tácito — e profundamente funcional — entre os agentes do mercado e os presidentes das Casas Legislativas. Não é necessário acordo formal: basta convergência de interesses.
As pautas que ampliam direitos sociais, reduzem a exploração do trabalho ou reorganizam a lógica produtiva são tratadas como “sensíveis”, “inconvenientes” ou “arriscadas para a economia”.
Assim, não são derrotadas no plenário. Até porque sequer são pautadas.
São simplesmente engavetadas ou “esquecidas” nos desvãos do Parlamento sob a ficção de que não há consenso para apreciá-las.
O método é mais eficiente: não votar é melhor do que perder.
CHANTAGEM DA NARRATIVA ECONÔMICA
O bloqueio dessas proposições é sustentado por narrativa hegemônica:
• redução da jornada “gera desemprego”;
• fim da escala 6×1 “aumenta custos”;
• direitos trabalhistas “quebram empresas”; e
• proteção social “afugenta investimentos”.
São discursos apresentados como técnicos, mas são profundamente ideológicos. Transformam interesses privados em supostas verdades universais e convertem privilégios econômicos em dogmas econômicos.
O resultado é a naturalização da desigualdade como se fosse racionalidade.
DEMOCRACIA DE BAIXA INTENSIDADE
Quando propostas que beneficiam milhões de trabalhadores não chegam sequer ao plenário, o problema deixa de ser político-partidário e passa a ser de ordem democrática.
O Congresso deixa de representar a sociedade e passa a operar como filtro de interesses econômicos organizados. A democracia se esvazia, porque a soberania popular é substituída pela soberania dos fluxos de capital.
Formalmente, há eleições. Materialmente, há captura de poder.
TRABALHO COMO VARIÁVEL DE AJUSTE
Nesse modelo, o trabalhador não é sujeito político. É variável econômica. A jornada exaustiva, a escala desumana, a precarização e a insegurança não são vistas como problemas sociais, mas como “custos operacionais”. As contrarreformas Trabalhista (2017) e da Previdência (2019) evidenciam isto fortemente.
A lógica é simples: o capital não negocia sua taxa de lucro; ajusta o trabalho. E, consequentemente, não permite que nenhuma matéria que possa comprometer essa lógica fure esse bloqueio imposto pelo chamado mercado comandado pelo capital.
PARLAMENTO SITIADO
O Congresso não vota a redução da jornada, nem o fim da escala 6×1, nem outras proposições estruturais porque não governa livremente a agenda. O Parlamento a administra sob vigilância.
Entre a maioria social e a minoria econômica organizada, escolhe a minoria organizada. Entre o interesse público e o interesse de mercado, escolhe o mercado. Entre a democracia social e a estabilidade dos privilégios, escolhe os privilégios.
Não é ausência de projeto. Não é falta de proposta. Não é limitação técnica. É escolha política.
Enquanto isso, milhões de trabalhadores seguem esperando que o Parlamento cumpra sua função básica: legislar para a sociedade. E não para os seus financiadores.
Em ano eleitoral isso fica mais latente, inclusive porque os prazos da legislatura diminuem, o tempo dos parlamentares escasseia em razão da disputa eleitoral e a pressão do chamado mercado se intensifica porque a força dos interesses não cessa nem tampouco tira recesso ou férias.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e reator do HP
Fonte: https://horadopovo.com.br/congresso-maioria-capturada/
