Enquanto as chuvas inundam ruas, paralisam trens e provocam um aumento de 47% nos alagamentos em São Paulo, moradores da maior cidade do país seguem abrindo torneiras secas: desde o ano passado, a capital vive um racionamento disfarçado, com redução de pressão em toda a região metropolitana, agravado pela gestão da Sabesp privatizada e pela incapacidade do governo de enfrentar uma crise hídrica que combina escassez para beber e excesso nas enchentes.
Enquanto avenidas viram rios, linhas de trem são interrompidas e bairros entram em estado de atenção para alagamentos, famílias organizam a rotina doméstica em função de um abastecimento intermitente, marcado por cortes noturnos e baixa pressão.
A mesma cidade que registra transbordamentos de córregos, queda de árvores e congestionamentos superiores a 500 quilômetros obriga moradores a estocar água para sobreviver à noite. Ao mesmo tempo, bairros inteiros entram em alerta para alagamentos, com chamados do Corpo de Bombeiros se multiplicando na região metropolitana.
Especialistas apontam que essa contradição não é climática, mas política e técnica. Amauri Pollachi, conselheiro do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento, afirma que a escassez é administrada. “O que a Sabesp está fazendo é uma gestão da oferta, reduzindo a oferta de água para a população.”
Essa redução ocorre por cerca de 10 horas diárias e atinge principalmente regiões mais altas e distantes dos reservatórios — justamente áreas que também sofrem com escoamento precário da água da chuva. “Mesmo após as 10 horas de restrição de oferta de água por parte da Sabesp, muita gente está recebendo o chamado fiozinho de água.”
Enquanto isso, os reservatórios seguem em queda. O Sistema Cantareira opera com 20,2% da capacidade, o nível mais baixo desde 2014. Pollachi alerta que, mesmo com chuvas intensas, o sistema não se recupera. “A situação da reserva de água está cada vez mais precária.” Segundo ele, o governo já admite ampliar os períodos de corte para até 16 horas diárias.
A Sabesp afirma que a redução de pressão ocorre das 19h às 5h em toda a região metropolitana desde agosto, alegando estiagem e preservação dos mananciais. Diz ainda que imóveis com caixa-d’água sentem menos os efeitos.
Entretanto, foi após a privatização que a empresa passou a operar no limite máximo de extração, apostando que as chuvas futuras compensariam a retirada excessiva. Enquanto moradores armazenam baldes para dar descarga, córregos transbordam, trens param, bairros alagam e o governador Tarcísio de Freitas assiste à consolidação de um colapso anunciado.
Fonte: https://horadopovo.com.br/em-sao-paulo-so-falta-agua-na-torneira/
