Segundo o documento encaminhado à ANEEL, mais da metade dos 8,5 milhões de clientes atendidos
Somente após questionamentos da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a Enel Distribuição São Paulo informou o número real de consumidores atingidos pelo apagão provocado pelo vendaval dos dias 9 e 10 de dezembro de 2025. Em documento enviado à área de fiscalização da agência reguladora, a concessionária admitiu que cerca de 4,4 milhões de clientes tiveram o fornecimento de energia interrompido – mais do que o dobro do número divulgado publicamente durante a crise.
Durante o apagão, a empresa sustentou reiteradamente que o número máximo de clientes sem energia havia sido de cerca de 2 milhões, dado apresentado em entrevistas, notas oficiais e pronunciamentos de seus diretores. Agora, porém, a Enel teve que reconhecer que esse número correspondia apenas ao pico simultâneo de desligamentos, e não ao total de consumidores efetivamente impactados ao longo do dia.
Segundo o documento encaminhado à agência reguladora, a consolidação posterior dos dados revelou que mais da metade dos 8,5 milhões de clientes atendidos pela empresa na Grande São Paulo sofreu interrupções no fornecimento de energia ao longo de mais de 12 horas de ventos fortes. “A Enel São Paulo esclarece que, após consolidação dos dados preliminares, identificou que o número de clientes afetados pelo ciclone extratropical que atingiu a área de concessão no dia 10 de dezembro foi de 4,4 milhões de clientes, o que corresponde à soma de unidades afetadas ao longo de mais de 12 horas seguidas de fortes ventos”, diz nota da empresa.
Além da subnotificação do número de atingidos, os dados oficiais também contradizem declarações da concessionária sobre a atuação das equipes de manutenção. Gráficos enviados à agência reguladora indicam que, na madrugada do dia 10 de dezembro, período crítico do apagão, o número de equipes em campo era praticamente zero. Na madrugada seguinte, quando ainda havia grande volume de consumidores sem luz, atuavam apenas cerca de 200 equipes pesadas em toda a região metropolitana, sem o apoio de equipes leves.
Essas informações desmentem a versão apresentada pela Enel durante o mega apagão, quando a empresa afirmou que mantinha equipes trabalhando 24 horas por dia, com sobreposição de turnos.
Em nota, a Aneel informou que os dados enviados pela concessionária estão sob análise técnica e que as apurações seguem em andamento. A agência afirmou que “as informações prestadas pela distribuidora serão auditadas” e que a fiscalização considera tanto o impacto do evento quanto a resposta operacional da empresa.
No entanto, a atuação do próprio órgão regulador passou a ser questionada. Reportagem do Metrópoles revelou que a agência manteve sob sigilo o relatório encaminhado pela Enel, apesar de pareceres internos da procuradoria federal da Aneel, da área técnica responsável por dados pessoais e do Ministério Público Federal junto à agência defenderem a publicização do conteúdo, com eventual ocultação pontual de dados pessoais.
De acordo com esses pareceres, o argumento da empresa de que o documento deveria ser mantido em sigilo por conter informações protegidas pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) não se sustenta, já que se trataria apenas de nomes e e-mails corporativos, sem risco à privacidade dos funcionários. Para os órgãos técnicos e o MPF, o interesse público prevalece, sobretudo diante da gravidade do apagão e de seu possível impacto sobre a concessão.
Diante da sucessão de falhas no fornecimento de energia, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que a Enel “perdeu as condições de permanecer à frente da concessão” na capital e na Grande São Paulo. Segundo o ministro, o governo federal solicitou à Aneel a instauração do processo de caducidade do contrato, medida prevista nos casos de descumprimento reiterado das obrigações contratuais por parte da concessionária.
INVESTIGAÇÃO
Na mesma linha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou que a Advocacia-Geral da União (AGU) e a Controladoria-Geral da União (CGU) apurem as responsabilidades pelas falhas recorrentes no serviço de distribuição de energia elétrica prestado pela Enel. O despacho presidencial, publicado nesta segunda-feira (12) também prevê a investigação de eventual responsabilidade da própria Aneel, diante da ausência de medidas mais duras apesar de alertas e pedidos anteriores do Ministério de Minas e Energia.
O processo de questionamento à concessionária ganhou força com a união inédita entre os governos federal, estadual e a Prefeitura de São Paulo – esses últimos, ressalte-se – insuspeitos de qualquer inclinação estatizante – e que passaram a defender conjuntamente a extinção do contrato. Para o Governo do presidente Lula, a subnotificação do número de consumidores atingidos e as inconsistências nas informações prestadas durante a crise reforçam a avaliação de que a empresa não tem garantido um serviço adequado à população.
Enquanto as investigações avançam, milhões de paulistas seguem convivendo com a insegurança no fornecimento de energia, em um cenário que revela não apenas as falhas da concessionária, mas recoloca no centro do debate a gestão privada de serviços essenciais, como energia e saneamento, e a efetividade da fiscalização e da regulação desses setores no Brasil.
Fonte: https://horadopovo.com.br/enel-confessa-que-apagao-atingiu-44-milhoes-de-casas-o-dobro-do-informado/
