
DAVI MOLINARI
O bar “Fale Mais Sobre Isso” estava fechado. As grades de metal davam um ar de melancolia ao lugar, algo completamente fora do normal pra um sábado à tarde. Cheguei a pensar que tinha errado a data, mas a placa “Luto” pendurada na maçaneta não deixava dúvidas. Fiquei parado, com o chope de esperança na mão, imaginando o que poderia ter acontecido. Juvenal, o garçom-filósofo, era a minha principal preocupação. Aquela figura, mais que um empregado, era a alma do boteco. Onde estaria ele?
Quando me virei para ir embora, o som da porta destrancando me fez parar. Juvenal apareceu, com a cara de quem tinha passado a noite em claro. As feições, normalmente risonhas, estavam tomadas por um luto pesado. Ele não disse uma palavra, apenas fez um gesto com a cabeça, me convidando a entrar.
O bar estava vazio, as cadeiras empilhadas, a TV já ligada no canto, mas sem som, como se também guardasse respeito. Meus olhos se acostumaram à penumbra e foi aí que o vi. O doutor estava sentado em uma das mesas, com um copo de chope vazio e o semblante de quem havia perdido um irmão. Juvenal, ao lado dele, não conseguia segurar as lágrimas.
O silêncio era tão denso que fazia do zunido da geladeira uma turbina e do volume baixo da TV um incômodo. Foi preciso um esforço descomunal para me lembrar da nossa primeira sessão. Fui apresentado ao doutor por Juvenal, que me colocou na mesa dele durante um happy hour, alegando que o doutor era “gente boa e não te cobra por sessão, só a cerveja”. Aquele silêncio que antes era misterioso, agora fazia todo o sentido. Era o seu jeito de acolher a dor. Sem palavras, sem julgamentos.
Fiquei na minha, esperando o melhor momento para perguntar, mas parecia que a pergunta não sairia nunca. Eu me sentei e, para quebrar o gelo, comecei a falar do julgamento de Bolsonaro que passava na TV. Tentei traçar um paralelo entre ele e Macbeth, o criminoso que roubou o trono e, tomado pela culpa, se perdeu na violência. O doutor me olhava, com um misto de pêsames e compaixão. Enquanto eu discursava, ele continuava a consolar Juvenal, que se agarrava em seu braço como um náufrago.
Eu falava, gesticulava, me perdia nas teorias freudianas e junguianas sobre a culpa, a negação e a responsabilidade, enquanto a TV mostrava as últimas notícias sobre a fuga de Bolsonaro para uma embaixada. “É um fugitivo da própria consciência”, eu dizia. “Ele tenta burlar a lei dos homens, mas a lei de Macbeth já o alcançou. Aquele que se julga um deus, se torna um escravo do próprio ego.”
De repente, Juvenal se virou para o doutor e, com a voz embargada pela dor e a curiosidade, perguntou:
— Doutor, nesses trinta anos de amizade, o que nosso amigo falaria para o Bolsonaro?
O doutor olhou para os dois, pensou por um momento e, com a voz embargada, soltou a única frase daquela sessão:
— Tchê, por que é que o vivente não assume logo que é um baita de um filho da p… e vai de uma vez para Papuda?
Aquele sotaque, aquela frase… finalmente, o luto me atingiu em cheio. Entendi que o homem que havíamos perdido era o Analista de Bagé, o criador de máximas inesquecíveis. Lembrei do dia em que ele se aposentou, da sua voz enfraquecida e do seu cabelo ralo. Lembrei de quando ele disse que se tornaria seu próprio paciente. Nesse momento, Juvenal, o doutor e eu nos abraçamos em silêncio, em um luto compartilhado.
Luís Fernando Veríssimo (1936–2025)
Esta crônica é uma homenagem ao mestre da crônica brasileira, Luís Fernando Veríssimo, que faleceu aos 88 anos. Veríssimo nos deu o dom do riso e da reflexão, e nos mostrou que a vida é, por si só, uma comédia e uma tragédia. Seu legado, incluindo o Analista de Bagé, viverá para sempre em nossos corações.
Publicado originalmente em Divã no Boteco.
Fonte: https://horadopovo.com.br/o-luto-a-fuga-e-a-baita-frase-do-analista/