DAVI MOLINARI
(continuação da crônica anterior)
A paralisia durou o tempo de um disparo de sinapse. Um clique. Exatamente aquele segundo suspenso que antecede a manchete histórica: uma explosão de adrenalina. O bar estava cheio. A tensão no ar era fustigada pelo sorriso do Laranjão, convencido de que a noite lhe pertencia por escritura divina. E agora aquilo ofuscava minha retina: Juvenal sendo arrastado por Dementadores de farda sem rosto, como soldados terceirizados do arbítrio, braço operacional da OTAN do autoritarismo doméstico — não pensam, apenas executam.
O Laranjão regia a equipe Delta e operava o caos com o sorriso de quem acaba de arrematar um lote no inferno em suaves prestações narcisistas. A cena foi um curto-circuito no meu sistema nervoso. Olhei para o Doutor, que permanecia como uma esfinge de terno de linho amassado. Com a frequência cardíaca de uma tartaruga em hibernação profunda, observando o colapso do Fale Mais Sobre Isso como quem analisa um sonho corriqueiro. Aquilo me irritou profundamente. Como alguém consegue manter o córtex pré-frontal tão refrigerado enquanto o meu sistema límbico estava em desespero, com sirene e passado mal resolvido?
— Doutor… isso não é mais síndrome do pânico — tentei gritar. Mas minha voz saiu feita um sussurro asmático, institucionalizado. — Isso é o país sendo sequestrado via delivery. E o senhor aí… fazendo a egípcia freudiana!
Surtei. Foi então que o chão mudou de densidade. Não foi explosão. Não foi tiro. Foi gente. Centenas de estudantes, previamente convocados por Juvenal, surgiram das esquinas. Caminhavam e cantavam, com braços entrelaçados. Corpos colados. Em linha. Uma muralha humana. Era a vanguarda do coping — que na psicologia é estratégia de enfrentamento, mas ali era o famoso “se vira ou vira estatística”.
O Laranjão começou a recuar. O pânico dele era estético, o meu era existencial. Sabe o conceito freudiano de Angst? O pessoal acha que é frescura, mas é como o sensor de ré do carro: apita quando você está prestes a bater no mundo real. Minha angústia cansou de ser sinal e virou motor. Em um movimento que nem a neurobiologia explica, eu parei de tremer. Minha amígdala cerebral entregou os pontos e passou o bastão para o meu instinto mais primitivo.
Quando dei por mim, eu não era mais o paciente ansioso precisando de Rivotril. Eu era o braço forte da lei da física. Me aproximei e apliquei um mata-leão no Laranjão com uma precisão que faria o Freud admitir que, às vezes, a pulsão de morte precisa de um empurrãozinho manual. Mas não queria matá-lo, só queria fazer um recall da existência dele no meu campo de visão.
— Que que é isso, companheiro? — perguntou Dirceu, o líder estudantil, chocado com a minha performance de Vingador do Happy Hour.
— Isso aqui? É estratégia de enfrentamento focada no problema! — respondi, arfando. — O problema é ele, a solução sou eu apertando o gogó da elite. Me dá esse megafone!
Peguei o aparelho. Da mesa, onde estava, o Doutor assentiu minha ação com um movimento de cabeça tão sutil que parecia uma validação pericial. Mirei os encapuzados e falei: — Soltem o Juvenal e eu liberto o Laranjão.
Um dos sequestradores sacou uma pistola e deu um tiro para o alto: PÁ! O silêncio que se seguiu foi mais pesado que o “não” de uma noiva no altar ou o “sim” de um oficial de justiça no portão. O medo tentou voltar, mas, de repente, o Doutor se materializou do meu lado. Ele pegou o megafone da minha mão com a delicadeza de quem faz uma angioplastia coronariana. Sem gritar, ele fez uma intervenção clínica em campo aberto. Ajustou o volume e, com aquela voz que faz a gente confessar até pecados de jardim de infância, soltou a frase que desfez o nó cego na frente do Fale Mais Sobre Isso:
— “Senhores, liberem o Juvenal e busquem sua própria fuga; o pânico de vocês é o sintoma de um mandante que a realidade já descartou. O Laranjão fica para a justiça dos estudantes, pois não há divã que cure quem confunde delírio de onipotência com direito à liberdade.”
Foi um nocaute psíquico. A lógica do Doutor foi um bisturi: ofereceu a saída para os paus-mandados, que estavam loucos para sumir antes que a PM chegasse, e entregou o “Id” da questão — o Laranjão — para a fúria organizada do Dirceu. Os encapuzados se olharam. A resiliência deles era movida a soldo; a nossa era movida a indignação e manjubinha. Eles empurraram o Juvenal para frente e, como sombras covardes, bateram em retirada pelo corredor aberto pelos estudantes.
O Laranjão, roxo e sem o glamour do duplex, foi carregado pela turma do megafone direto para o distrito policial. Juvenal caminhou até a nossa mesa, ajeitando o avental como se tivesse apenas voltado de uma entrega malfeita.
— Olha… — suspirou Juvenal, pegando as tulipas murchas. — Por essas e outras que eu prefiro a anistia do fogão. Esses caras acham que poder é o berro de uma arma. Não sabem que o verdadeiro poder é manter a manjubinha crocante e a amizade com os estudantes mobilizados no meio de um golpe de Estado.
Sentei-me, sentindo a adrenalina baixar. Era o famoso “desgaste pós-resposta de luta” que a psiquiatria adora citar para justificar um atestado de afastamento. E eu estava precisando. O Doutor voltou a abrir seu bloquinho, impassível.
— E aí, Doutor? — perguntei, tentando recuperar o fôlego. — O meu mata-leão foi uma “sublimação da agressividade” ou só falta de paciência com o neoliberalismo de bairro?
O Doutor não respondeu de imediato. Apenas guardou a caneta, olhou para o rastro deixado pelos estudantes e soltou um murmúrio:
— Foi a subjetividade exercendo o seu legítimo direito de não ser assaltada pelo delírio de quem não aceita a realidade.
Juvenal apareceu com duas tulipas novas, transbordando espuma fria.
— Por conta da casa. Hoje a terapia foi em grupo, e o tratamento para o fascismo é a base de cevada e coragem.
Publicado originalmente em Divã no Boteco – LXX. Enviado pelo autor.
Fonte: https://horadopovo.com.br/o-mata-leao-de-freud-contra-o-laranjao/
