23 de janeiro de 2026
PF chega ao entorno de Castro por desvio de dinheiro
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Presidente e diretores do Rioprevidência foram alvos da Operação Barco de Papel na manhã desta sexta-feira

Diretores do Rioprevidência foram alvos de mandados de busca e apreensão cumpridos pela Polícia Federal nesta sexta-feira (23), no Rio de Janeiro, no âmbito da Operação Barco de Papel. A ação investiga aplicações irregulares de recursos do fundo previdenciário dos servidores estaduais no Banco Master e aprofunda o cerco ao entorno político do governador Cláudio Castro (PL).

Os investimentos do Rioprevidência em operações de alto risco cresceram de forma abrupta a partir de 2023 e alcançaram cifras bilionárias durante o governo Castro. Os recursos investigados fazem parte do montante destinado ao pagamento de aposentadorias e pensões de mais de 235 mil servidores estaduais, o que ampliou a gravidade institucional e política do caso.

A Polícia Federal cumpre quatro mandados de busca e apreensão, com ações na sede do Rioprevidência e em endereços nos bairros de Botafogo, Gávea e Urca, na Zona Sul da capital fluminense. Entre os alvos estão o então diretor-presidente do órgão, Deivis Marcon Antunes, o diretor de Investimentos Eucherio Lerner Rodrigues e o ex-gerente de investimentos Pedro Pinheiro Guerra Leal.

Antunes está fora do Brasil, em viagem aos Estados Unidos desde o dia 15, segundo a apuração. Após a deflagração da operação, ele apresentou uma carta de renúncia ao cargo. Apesar disso, a exoneração foi publicada no Diário Oficial por determinação do governador Cláudio Castro, criando um impasse formal entre a versão apresentada pelo ex-dirigente e a narrativa oficial do governo estadual.

Na carta, Antunes afirma que decidiu deixar o cargo de forma voluntária e sustenta que sempre atuou de maneira regular. Já o governo do estado afirma que o afastamento foi determinado pelo governador, que teria ordenado o “afastamento imediato” do presidente do Rioprevidência após a operação da Polícia Federal. A diferença entre renúncia e exoneração passou a ser tratada internamente como uma tentativa de controle político da crise.

Em nota, o governo informou ainda que instaurou, em dezembro, uma investigação interna para apurar “possíveis danos ao erário público, bem como eventuais e possíveis transgressões disciplinares de gestores do fundo”. A abertura do procedimento interno ocorreu antes mesmo da deflagração da operação da PF.

A investigação da Polícia Federal foi aberta em novembro de 2025 e apura nove operações financeiras realizadas entre novembro de 2023 e julho de 2024, período em que o Rioprevidência aplicou cerca de R$ 970 milhões em Letras Financeiras emitidas pelo Banco Master. Os títulos têm vencimento previsto para 2033 e 2034 e são instrumentos usados por bancos para captar recursos de longo prazo, com risco elevado em caso de quebra do emissor.

Segundo a apuração, os valores investidos integram o fundo responsável pelo pagamento de aposentadorias de servidores que ingressaram no serviço público estadual na última década. O trabalho da Polícia Federal contou com apoio da Secretaria de Regime Próprio e Complementar do Ministério da Previdência Social (SPREV/MPS), que elaborou um Relatório de Auditoria Fiscal considerado decisivo para o avanço das investigações.

Estão sob análise suspeitas de crimes contra o sistema financeiro nacional, como gestão fraudulenta, desvio de recursos, indução em erro da administração pública, fraude à fiscalização ou ao investidor, além de associação criminosa e corrupção passiva.

A operação ocorre três meses depois de o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) apontar uma “notável coincidência” entre a mudança na cúpula do Rioprevidência e o início dos investimentos no Banco Master. Entre julho e outubro de 2023, foram nomeados Deivis Marcon Antunes para a presidência do órgão, Eucherio Lerner Rodrigues para a Diretoria de Investimentos e Pedro Pinheiro Guerra Leal como gerente de investimentos. Pouco depois, em novembro daquele ano, começaram os aportes milionários no banco.

De acordo com o TCE, a nomeação de Eucherio Lerner foi publicada no Diário Oficial em 4 de outubro de 2023, mesma data em que o Banco Master enviou um e-mail solicitando credenciamento junto ao Rioprevidência, etapa obrigatória para receber recursos do fundo previdenciário. O procedimento interno foi aberto no mesmo dia.

Doze dias depois, Pedro Leal encaminhou ofício à Gerência de Controle Interno e Auditoria (GERCIA) informando que o banco atendia aos requisitos técnicos. Em 19 de outubro, Deivis Antunes autorizou o credenciamento. Para o tribunal, o trâmite ocorreu de forma acelerada e com aparentes irregularidades.

“Ao analisar o trâmite deste processo, fica absolutamente evidenciado que houve uma conduta acelerada para realizar a primeira aplicação no Banco Master, a qual ocorreu de forma inadequada e com aparentes irregularidades, sem as devidas formalidades básicas para garantir o melhor interesse ao RPPS [Regime Próprio de Previdência Social]”, diz trecho do documento do TCE.

Há divergência sobre o volume total de recursos expostos. O governo do estado afirma que aplicou R$ 960 milhões em Letras Financeiras do Banco Master. O TCE, no entanto, incluiu investimentos em fundos administrados pelo banco e por sua corretora, elevando o total para R$ 2,6 bilhões. Parte significativa desses valores, segundo o tribunal, não está coberta pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

Em maio de 2024, o TCE fez um alerta formal ao Rioprevidência, que foi comunicado ao governador Cláudio Castro e ao próprio Banco Master sobre os riscos das aplicações. Apesar disso, o fundo voltou a investir. Entre 20 de maio e 25 de julho, o Rioprevidência aplicou mais R$ 1,1 bilhão em fundos geridos pela corretora do banco, período em que a crise da instituição já era amplamente divulgada.

Nos bastidores da política fluminense, as nomeações no Rioprevidência são atribuídas ao União Brasil, partido que integra a base do governador Cláudio Castro. O TCE informou o governador sobre as suspeitas antes da liquidação do banco.

Em nota, Castro afirmou que nomeou Antunes com base em seu “currículo e comprovada competência técnica” e declarou que as indicações dos demais diretores são de responsabilidade da autarquia. O comunicado destaca ainda que a escolha do presidente passou pelo Conselho de Administração do Rioprevidência, formado por representantes do TCE, do Tribunal de Justiça, do Ministério Público e de associações de servidores.

Em ofício enviado ao TCE, Deivis Antunes alegou que o credenciamento do Banco Master começou no início de 2023 e foi concluído em 4 de outubro do mesmo ano. Segundo ele, o banco mantinha uma relação “longa e adimplente” com o Estado do Rio de Janeiro.

Na carta de renúncia apresentada nesta sexta-feira, Antunes afirmou que sempre agiu “com espírito público”:

“Ao longo do período em que estive à frente da instituição, dediquei-me integralmente ao fortalecimento do Rioprevidência, promovendo um ciclo virtuoso de gestão, marcado pela valorização dos servidores, pelo aprimoramento dos processos internos e pela defesa intransigente e inegociável dos interesses da autarquia (…) Enfatizo que repilo tentativas de inquinar como ilegal qualquer ato que pratiquei na gestão do Riopreviência, pois, como disse, sempre agi com espírito público, correção e dentro dos mais elevados preceitos éticos, conduta essa que sempre pautou minha vida profissional nos locais onde trabalhei”.

Durante a Operação Barco de Papel, a Polícia Federal apreendeu veículos de luxo, dinheiro em espécie, eletrônicos e documentos. Na sede do Rioprevidência, foram recolhidos arquivos digitais e documentos diversos. Na residência de Antunes, em Botafogo, os agentes apreenderam um veículo de luxo blindado, cerca de R$ 7 mil em espécie, um pen drive, um relógio e documentos. Em um imóvel na Gávea, foram apreendidos outro veículo de luxo, aproximadamente R$ 3,5 mil em espécie, um celular, um notebook, pen drives, HDs e documentos. Na Urca, os agentes recolheram um celular, um notebook e documentos.

O Banco Master entrou no centro de uma crise financeira e policial após o avanço de investigações que culminaram na prisão de seu controlador, Daniel Vorcaro, e na decretação de liquidação extrajudicial pelo Banco Central, em novembro de 2025. A instituição é investigada por suspeitas de gestão fraudulenta, criação de carteiras de crédito falsas, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro.

A crise se aprofundou após a tentativa frustrada de venda do controle para o Banco de Brasília (BRB), vetada pelo Banco Central em setembro de 2025. O BC avaliou que o banco apresentava grave risco de liquidez, impulsionado por uma estratégia agressiva de captação por meio de CDBs com remuneração de até 140% do CDI.

As investigações indicam ainda que o banco operava um esquema complexo envolvendo fundos de investimento, especialmente da gestora Reag, com sucessivas transferências de recursos e reavaliações artificiais de ativos. Em alguns casos, segundo apurações citadas pelo Ministério Público Federal, a valorização registrada superava 10 milhões por cento.

Fonte: https://horadopovo.com.br/pf-chega-ao-entorno-de-castro-por-desvio-de-dinheiro-do-rioprevidencia-para-o-banco-master/