28 de novembro de 2025
Prender Bolsonaro e nunca esquecer seus crimes na pandemia
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SHAUAN KEVEN

“Não me comove o pranto de quem é ruim”. É com essa majestosa letra do samba da enfermeira e rainha do samba carioca Dona Ivone Lara que, nesta semana, milhões de brasileiros comemoram nas ruas e nas redes uma fresta de justiça com a prisão preventiva do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro.

Ele, que foi julgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e condenado a mais de 27 anos de prisão por participar e liderar uma organização criminosa que tentou acabar com o Estado Democrático de Direito, levando as massas à convulsão social e impedindo a posse do presidente e vice eleito; agora, tentando fugir da responsabilidade penal, foi preso e levado ao cárcere, se tornando mais um CPF no sistema prisional.

Em sua trajetória miliciana, Bolsonaro reacendeu na sociedade aquilo que há de pior na espécie humana: o viralatismo, o ódio, a falta de solidariedade e o orgulho da ignorância. Como militar, foi insubordinado e não contribuiu em nada com a defesa e soberania nacional. Como deputado estadual e federal, não aprovou uma lei sequer que contribuísse com a melhora da vida do povo. Como presidente, dividiu famílias e quebrou laços de amor e comunidade. Em apenas quatro anos de total aparelhamento da máquina pública, Bolsonaro destruiu direitos que já tínhamos consolidado como civilizatórios.

Utilizou até a religião para fazer “arminha” e distribuir cloroquina. Hoje, seus filhos tentam impetrar a impunidade apresentando junto com seus advogados que a idade e o estado de saúde frágil com supostos soluços, seriam atenuantes para que a pena não seja cumprida em regime fechado, na cadeia. Durante a pandemia, Bolsonaro institucionalizou a omissão, o charlatismo, o negacionismo e a falta de solidariedade ao próximo. Disseminou o vírus com aglomerações, pregou a imunidade de rebanho, atrasou a compra de vacinas, fez propaganda contra e superfaturou contratos dos imunizantes.

Como se já não bastasse, recomendou com sua equipe despreparada e charlatã, o kit covid com cloroquina e ivermectina e fez com que o exército comprasse milhões de unidades de uma medicação que com base nas evidências científicas, não ajudou em nada no combate ao vírus. Pelo contrário, milhares de brasileiros apresentam efeitos colaterais até hoje. Em relação às vacinas, ao invés de investir nas instituições brasileiras e fornecedores já usuais do SUS, tentou comprar uma vacina, com seus subordinados pedindo propina de 1 dólar por dose, perseguindo e demitindo o servidor que denunciou o esquema.

Em suma, Bolsonaro e sua corja foram omissos ou praticaram atos que resultaram na morte de mais de 700 mil brasileiros e brasileiras. Em suas “lives” semanais, imitou pessoas ficando sem ar, chamou o vírus de gripezinha e utilizando dinheiro público, fez motociatas reunindo milhares de pessoas em meio à maior crise sanitária do século. Nossos cientistas e especialistas, que expuseram as ações e omissões da administração foram perseguidos ou linchados virtualmente. A ciência foi colocada no mesmo patamar da Idade Média pela ignorância bolsonarista e a solidariedade, comum aos brasileiros, se tornou algo distante.

Bolsonaro não foi julgado pelos crimes na pandemia. A denúncia não foi admitida pela procuradoria e hoje o inquérito foi reaberto. Talvez siga impune e nunca seja responsabilizado por isso. Milhares de brasileiras e brasileiros morreram e muitos ainda deixam essas mortes no esquecimento. Talvez Bolsonaro nunca pague pela real responsabilização de seus atos.

Refletindo sobre os pedidos dos advogados do inelegível e agora encarcerado, penso que Dona Ivone, em sua trajetória de cuidado, jamais seria irresponsável em pleitear a opinião de não garantir o cuidado a quem precisa, mesmo aqueles que cometeram as maiores atrocidades. O sistema prisional brasileiro com toda certeza apresenta uma série de fragilidades que sentenciam milhares à condição sub-humana de existência.

No caso de Bolsonaro, ele afirma necessitar de medicações constantes para o tratamento de ansiedade e tosses, soluços e enjoo. Sua cela na PF tem 12m², frigobar, ar-condicionado, banheiro privativo e armário; além de atendimento médico de plantão 24h por dia. Para Bolsonaro, desejamos aquilo que eles nunca desejaram: o cuidado humano. Desejamos também aquilo que eles nunca desejaram para os milhares de encarcerados no Brasil: direitos humanos assegurados e uma vida digna sendo responsabilizado pelos seus atos. Por fim, desejamos que a responsabilidade de agora para os golpistas seja estendida também para os crimes cometidos na pandemia em respeito à memória das mais de 700 mil vidas perdidas.

Shauan Keven é coordenador da Juventude Pátria Livre Bahia e da coordenação da Executiva Nacional dos Estudantes de Enfermagem

Fonte: https://horadopovo.com.br/prender-bolsonaro-e-nunca-esquecer-seus-crimes-na-pandemia/