Patrimônio Mundial da Humanidade desde 1997, o Centro Histórico de São Luís atravessa um momento de intenso movimento turístico e renovado interesse cultural. Após as festas de fim de ano, a área segue como um dos principais cartões-postais da capital maranhense, atraindo visitantes de diferentes regiões do Brasil e do exterior, ao mesmo tempo em que evidencia desafios antigos ligados à conservação, infraestrutura e gestão do fluxo de pessoas.
Quem acompanha de perto essa dinâmica é a guia de turismo Zildenice Barros, de 53 anos, que há 25 anos conduz visitantes pelas ruas de casarões coloniais e praças históricas da cidade. Segundo ela, neste período do ano predominam turistas nacionais e moradores locais, que aproveitam as férias escolares para conhecer melhor a própria história. “Geralmente, temos mais turistas brasileiros e a própria comunidade local, que passa a olhar o Centro Histórico com mais curiosidade e interesse cultural”, relata.
Zildenice observa que o perfil do público muda conforme o calendário cultural da cidade. Após as festas de fim de ano, os visitantes demonstram maior interesse por experiências ligadas ao conhecimento histórico e ao lazer cultural. “As festas que acontecem dentro do celeiro histórico atraem pessoas que buscam museus, monumentos e entender melhor o que São Luís representa”, explica.
Para ela, um dos pontos que mais despertam surpresa é a relevância econômica que o Maranhão teve durante o ciclo do algodão. “Quando eles entendem a nossa história de luta e resistência, passam a compreender por que temos o maior acervo arquitetônico colonial da América Latina”, destaca.
Do ponto de vista institucional, esse crescimento também é confirmado por dados oficiais. A presidente da Fundação Municipal de Patrimônio Histórico (FUMPH), Kátia Bogéa, afirma que São Luís vem registrando forte expansão do turismo, impulsionada por grandes eventos culturais e musicais ao longo de 2025.
A capital alcançou média de ocupação hoteleira de 85,62%, com recordes de desembarques e presença expressiva de visitantes de estados como São Paulo, Pará, Rio de Janeiro, Distrito Federal e Minas Gerais, além de estrangeiros vindos dos Estados Unidos, Portugal e Alemanha. “O foco desses visitantes recai principalmente sobre o Centro Histórico, o que demonstra que São Luís se consolida como um destino competitivo e em ascensão”, avalia.
Festas potencializam preocupação
Com as festas pré-carnavalescas e a proximidade do período carnavalesco, cresce também a preocupação com a capacidade do território de absorver o aumento do fluxo de pessoas. Zildenice alerta que a preparação precisa ir além da programação cultural. “Vai circular muito mais gente, então precisamos de mais banheiros públicos, reforço na segurança e informações claras sobre a importância da preservação do nosso Centro”, pontua. Para ela, a falta de banheiros e o fechamento frequente de casas de cultura e museus, especialmente em dias de grande movimento, comprometem a experiência do visitante.
Kátia Bogéa explica que as grandes aglomerações do Carnaval ocorrem, em sua maioria, em áreas de entorno do sítio histórico protegido, como a Avenida Beira-Mar, o Aterro do Bacanga e o bairro da Madre Deus. “O impacto direto sobre as áreas patrimoniais é menor, pois os blocos que circulam pelo Centro Histórico são menores e sem grandes estruturas”, afirma. Ainda assim, segundo ela, há um cuidado permanente dos órgãos governamentais com licenças, segurança, instalação de banheiros químicos e proteção de monumentos mais frágeis.
A infraestrutura segue como um dos principais gargalos. A acessibilidade para idosos e pessoas com mobilidade reduzida ainda é rara, como relata Zildenice. “O guia precisa ter muito jogo de cintura. A cidade necessita muito de acessibilidade”, diz. A conservação dos casarões, igrejas e praças também influencia diretamente a percepção dos visitantes. Embora reconheça a beleza do conjunto arquitetônico, a guia aponta fatores como o clima, o alto custo de manutenção, o abandono por parte de proprietários e o vandalismo como obstáculos permanentes.
Segundo a FUMPH, o desafio é estrutural: o Centro Histórico de São Luís possui cerca de seis mil imóveis tombados, dos quais 85% são de propriedade privada. “A responsabilidade legal pela manutenção é do proprietário. O maior desafio é evitar o abandono, que coloca vidas em risco e compromete a preservação do acervo”, explica Kátia Bogéa. Ela ressalta que somente o uso contínuo dos imóveis garante sua conservação e que o poder público só pode intervir diretamente em propriedades privadas em situações emergenciais.
Apesar dos desafios, tanto os profissionais do turismo quanto a gestão pública veem o turismo como um aliado potencial da preservação. Zildenice acredita que o aumento do fluxo turístico pode fortalecer a economia local, desde que haja organização e respeito à capacidade de carga. “Turismo sustentável e responsável pode fazer de São Luís um dos melhores destinos”, afirma. Ela defende ainda a descentralização da visitação, já que grande parte dos turistas se concentra no entorno da Praça Dom Pedro II e do Mercado das Tulhas, enquanto áreas como a Praça Gonçalves Dias, o Panteon, Madre Deus e Desterro permanecem menos exploradas.

Essa descentralização já começa a ser pensada em políticas públicas. A FUMPH elaborou um Guia Turístico Cultural do Centro Histórico com 11 roteiros que abrangem diferentes áreas do sítio histórico. Além disso, a Fundação investe fortemente em educação patrimonial, considerada a principal prioridade da gestão. Entre as ações estão a distribuição de manuais aos moradores, programas educativos em escolas da rede municipal e cursos de formação para guias de turismo.
Para Kátia Bogéa, o patrimônio cultural é a alma da cidade e define sua identidade. “A cidade precisa ser boa e bem cuidada para sua população. Assim, poderá receber visitantes com orgulho e dignidade. Nesse sentido, o turismo é um aliado estratégico da preservação”, afirma. Ela reconhece, no entanto, que ainda não existem mecanismos eficazes para garantir que a atividade turística gere retorno financeiro direto para a conservação, o que exige decisões políticas mais firmes e planejamento de longo prazo.
Entre projetos futuros, estão a implantação do Centro de Interpretação do Centro Histórico e do Museu Nacional do Azulejo, iniciativas que prometem ampliar o uso cultural e turístico dos espaços históricos. Para o futuro, tanto a Fundação quanto os profissionais que atuam diariamente no território concordam em um ponto: o caminho mais adequado é o do turismo histórico, cultural e gastronômico, baseado em sustentabilidade, educação patrimonial e valorização das pessoas que vivem e trabalham no coração histórico de São Luís.
Fonte: https://oimparcial.com.br/brasil/2026/01/centro-historico-de-sao-luis-vive-novo-folego-turistico-com-missao-de-conciliar-preservacao-e-visitacao/
