A ideia de que o neonazismo e as ideologias de extrema-direita são fenômenos restritos ao Sul do Brasil ou aos livros de história tem sido confrontada por uma realidade incômoda. Casos recentes no Rio Grande do Norte e no Maranhão acendem o alerta para a infiltração de símbolos de ódio em contextos nordestinos, revelando que a “distância” geográfica e cultural é, muitas vezes, uma ilusão perigosa.
O choque em Mossoró: do cerimonial ao crime
O caso mais recente ocorreu no último sábado (10), em Mossoró (RN), durante um baile de formatura de Medicina. O que deveria ser a celebração de uma conquista acadêmica transformou-se em um episódio de repúdio coletivo quando um adolescente, convidado de formandas, vestiu-se com um uniforme inspirado na Wehrmacht (exército da Alemanha Nazista) e realizou gestos de saudação ao regime de Adolf Hitler.
A empresa organizadora, Master Eventos, e a instituição de ensino Facene emitiram notas de repúdio, classificando o ato como “repugnante”. Segundo a organizadora, o jovem teria trocado de roupa de forma furtiva para registros fotográficos pessoais. O episódio, porém, ultrapassa a esfera do “mau gosto”. A apologia ao nazismo é crime previsto pela Lei 7.716/1989, com pena de reclusão.
Do “cosplay” à “piada”: o padrão da negação
O ocorrido em Mossoró guarda paralelos simbólicos com um caso de 2020 em São Luís, Maranhão. Na ocasião, o blogueiro Ricardo Santos publicou fotos consumindo leite — um símbolo apropriado por grupos supremacistas brancos nos EUA e importado pela extrema-direita brasileira — acompanhado de uma saudação nazista e a frase: “Posso ser nazista com intolerância a lactose?”.
Na época do ocorrido, o blogueiro negou possuir intenções nazistas e afirmou “Lógico que ali é uma má interpretação que está havendo. Eu não fiz nada disso. Vim aqui para a varanda de meu apartamento, tomei leite, dei um tchau para a câmera e pronto!”, declarou Ricardo Santos.
Em ambos os casos, nota-se uma estratégia comum de defesa: a banalização. Enquanto o blogueiro maranhense afirmou que o gesto era apenas um “tchau” e uma “má interpretação”, o caso no Rio Grande do Norte ocorreu sob o pretexto de uma “fantasia” ou “registro pessoal”.
Especialistas apontam que o uso de humor ou estética militar para introduzir símbolos nazistas serve como uma “camada de proteção” que permite ao agressor recuar para o argumento da brincadeira quando confrontado, técnica conhecida como ironia pós-moderna.
A antropóloga brasileira Adriana Facina, que estuda autoritarismo e cultura, discute como a estética militar e o humor são usados para “testar os limites” da democracia. Ela aponta que, ao usar uma fantasia ou uma piada, o agressor cria uma ambiguidade estratégica: se for aceito, ele avançou o terreno da ideologia; se for punido, ele se vitimiza dizendo que “era apenas uma brincadeira” ou “liberdade de expressão”.
Por que os olhos da sociedade devem permanecer atentos?
A recorrência desses episódios no Nordeste evidencia um fenômeno complexo de “autofagia ideológica” e desinformação. A importância de manter o rigor social e jurídico sobre esses atos fundamenta-se em três pilares:
- A estética como porta de entrada: O nazismo não começa com campos de concentração, mas com a normalização de seus símbolos. Permitir que uniformes ou saudações circulem em festas ou redes sociais sem punição esvazia o horror histórico do Holocausto.
- O combate à impunidade: A legislação brasileira é clara. Tratar esses casos como “erros de juventude” ou “liberdade de expressão” fere a dignidade das populações que são alvos históricos desses grupos: judeus, negros, LGBTQIA+ e o próprio povo nordestino.
- Educação e vigilância: A reação das instituições (empresas de eventos, universidades e o Ministério Público) é vital. Como visto no caso do Maranhão, a denúncia por parlamentares e a pressão social são os mecanismos que retiram esses indivíduos do anonimato da “piada” e os colocam diante do tribunal.
Conclusão
O Nordeste não é uma bolha isolada do extremismo global. O caso do adolescente em Mossoró e o histórico do blogueiro no Maranhão mostram que o discurso de ódio é adaptável e persistente. A sociedade civil e as autoridades não podem se dar ao luxo da complacência.
Vigilância constante não é censura; é a manutenção mínima da civilidade e do respeito aos direitos humanos em uma democracia que ainda cicatriza suas feridas.
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Fonte: https://oimparcial.com.br/noticias/2026/01/do-rio-grande-do-norte-ao-maranhao-a-presenca-oculta-do-nazismo-no-nordeste-brasileiro/
