Em São Luís, o cenário de abandono de cães e gatos é um desafio de saúde pública que repousa, em grande parte, sobre os ombros de mulheres corajosas. Atuar na proteção animal na capital maranhense não é apenas um ato de amor; é uma rotina de sacrifícios financeiros, exaustão física e um constante enfrentamento à omissão do Estado.
Para entender essa realidade, conversamos com Márcia Macieira, protetora independente que transformou sua rotina para alimentar e medicar animais de rua, e Rakel Mota, fundadora do projeto Amor de Patas SLZ, que hoje abriga mais de 200 animais sob sua responsabilidade direta.
A rotina do sacrifício
O trabalho de uma protetora começa antes do sol nascer e muitas vezes não tem hora para acabar. Márcia relata uma rotina de preparo diário de alimentos, limpeza de vasilhas em pontos de rua e cuidados médicos imediatos. “Dá uma grande sensação de impotência e tristeza profunda quando chegamos tarde demais”, desabafa Márcia, referindo-se aos animais que sucumbem antes de receber socorro.
Rakel Mota vive uma escala ainda mais intensa. Além de cuidar de centenas de animais, ela estuda Medicina Veterinária e cuida dos pais. Sua trajetória é marcada pela instabilidade: “Tive que me mudar 23 vezes até chegar na minha própria casa, onde hoje funciona o abrigo”.
Para ambas, a falta de recursos é o maior gargalo. Campanhas e rifas ajudam, mas não cobrem as dívidas que, no caso de Rakel, chegam a R$ 20 mil em clínicas e fornecedores.
O peso do psicológico
Um ponto pouco discutido, mas trazido por ambas as entrevistadas, é o desgaste mental. “É uma carga emocional intensa… gera angústia, tristeza e sintomas de fracasso”, diz Márcia.
Já Rakel reforça: “O que passamos diariamente não é para qualquer um”. O apoio psicológico para quem lida com o sofrimento extremo de seres indefesos é uma necessidade urgente e negligenciada.
A castração como solução
A principal bandeira levantada pelas protetoras é a castração pública e contínua. Atualmente, programas municipais são vistos como insuficientes. Márcia classifica-os como “fraquíssimos” e destaca. “Hoje, São Luís tem uma população com mais de 1 milhão de habitantes e a procura é muito grande. Então, era necessário termos outros pontos de atendimento público veterinário”. Por outra perspectiva Rakel atribui nota 5, citando a dificuldade extrema de conseguir vagas e a distância geográfica do Hospital Veterinário Público.
A importância da castração não é apenas uma opinião das protetoras, mas uma questão de lógica epidemiológica e economia pública. Estima-se que uma única gata e seus descendentes, em um ciclo de 7 anos, podem gerar até 420.000 filhotes. No caso de cadelas, esse número chega a 67.000. Sem castração, o recolhimento é inútil.
A castração reduz a incidência de zoonoses como a Leishmaniose (calazar) e a Esporotricose, doenças recorrentes em São Luís. Animais castrados tendem a não vagar pelas ruas em busca de parceiros, o que diminui atropelamentos e brigas.
Por meio de análises sobre gestão pública, é possível compreender que o custo para castrar um animal é significativamente menor do que o custo para o Estado tratar um surto de zoonoses ou gerir o impacto de milhares de animais em lixões e vias públicas.
“Não adianta só recolher, pois no outro dia aparecem dezenas novamente. É preciso castração intensa em periferias, feiras e mercados”, ressalta Márcia Macieira.

Onde o poder público falha, a sociedade pode agir
As entrevistadas são unânimes: falta interesse real da classe política em ver o animal como um ser senciente. Enquanto políticas de conscientização não chegam às escolas e a castração não é descentralizada para os bairros, o suporte da sociedade civil é o que mantém esses animais vivos.
Sobre o assunto, solicitamos uma resposta da Prefeitura Municipal de São Luís, que informou que a Secretaria Municipal de Saúde (Semus) desenvolve ações permanentes voltadas ao cuidado, proteção e controle populacional de cães e gatos, em consonância com a Lei Federal nº 13.426, de 30 de março de 2017, que dispõe sobre a Política de Controle da Natalidade de Cães e Gatos, em todo o território nacional.
De acordo com a legislação, o controle populacional deve ser realizado mediante esterilização permanente, por cirurgia ou por outro procedimento, que garanta eficiência, segurança e bem-estar aos animais.
Nesse contexto, a castração se consolida como uma importante política pública, pois contribui para a redução do abandono e impacta positivamente na saúde pública, ao diminuir a ocorrência de zoonoses e outros agravos que afetam tanto os animais quanto os seres humanos.
“Em São Luís, a Semus já realizou, por meio do Programa de Manejo Populacional de Cães e Gatos, mais de 2.200 castrações, beneficiando animais em situação de vulnerabilidade e apoiando, de forma indireta, o trabalho desenvolvido por protetores e organizações da causa animal. O Município dispõe, atualmente, de dois Castramóveis, que são equipamentos de saúde animal itinerantes, além de dois centros cirúrgicos estruturados no Hospital Veterinário Municipal de São Luís (HVM), destinados à realização de procedimentos cirúrgicos, incluindo a castração”, informou a Semus.
O acesso aos serviços do Hospital Veterinário Municipal ocorre mediante inscrição prévia, que pode ser feita pelo site oficial da Prefeitura de São Luís ou de forma presencial, tanto na sede do HVM quanto na Unidade de Vigilância em Zoonoses (UVZ).
Os atendimentos seguem critérios técnicos previamente estabelecidos, priorizando animais em situação de risco, abandono ou pertencentes a tutores de baixa renda.
“A Semus reforça que reconhece a relevância do trabalho dos protetores independentes e das entidades de proteção animal, e segue empenhada em fortalecer políticas públicas que promovam o bem-estar animal, a saúde coletiva e a convivência responsável entre a população e os animais no município”, finaliza o órgão.
Como ajudar?
- Adoção responsável: preferir animais resgatados a animais de raça;
- Suporte financeiro: participar de rifas e doações para projetos como o @amordepatasslz;
- Não julgar: se não puder ajudar no resgate, não atrapalhe o trabalho de quem já está no limite de suas forças.
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Fonte: https://oimparcial.com.br/noticias/2026/01/protetoras-de-animais-lutam-para-manter-resgates-em-sao-luis/
