6 de abril de 2025
Reação da China ao “tarifaço” de Trump derrete bolsas no
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Os mercados globais encerraram a semana aterrorizados com a possibilidade de uma nova recessão econômica mundial, após a taxação universal anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na quarta-feira. Ontem, a reação da China à sobretaxa, que começa a valer hoje para 185 países, fez as bolsas desabarem e o preço das commodities caíram.

A medida, vista como um marco na escalada da guerra comercial, levou o banco JP Morgan Chase a elevar de 40% para 60% a probabilidade de recessão na economia americana e, por consequência, global. “As políticas disruptivas dos EUA foram reconhecidas como o maior risco para as perspectivas globais durante todo o ano”, afirmou Bruce Kasman, economista-chefe do banco norte-americano JP Morgan Chase. Segundo ele, as tarifas representam um forte choque macroeconômico, que não estava contemplado nas projeções anteriores do banco.

O cenário traçado pela instituição alerta que, caso as medidas sejam implementadas conforme anunciadas, a recessão será iminente. O JP Morgan destaca que as tarifas, na prática, equivalem ao maior aumento de impostos sobre famílias e empresas americanas desde 1968 — ano que antecedeu a recessão de 1969-1970. A expectativa inicial era de que Trump manteria o compromisso de apoiar o ambiente de negócios e sustentar a expansão econômica.

No entanto, Kasman observa que a combinação atual de políticas do governo “parece estar se afastando ainda mais do apoio à expansão atual da economia”. A tensão entre Estados Unidos e China atingiu novo patamar após a resposta de Pequim, que anunciou tarifas adicionais de 34% sobre produtos norte-americanos.

O revide chinês agravou a aversão ao risco nos mercados, desencadeando uma onda de vendas que afetou bolsas ao redor do mundo e a brasileira, que, de acordo com especialistas, teve um choque de realidade, ontem, após fechar estável na véspera. “O mercado analisou melhor os impactos dessa guerra comercial no Brasil e hoje ficou mais claro que o país também tem muito a perder nesse cenário de aumento de risco global, o que ajuda a valorizar ainda mais o dólar, porque o fluxo para mercados emergentes tende a diminuir”, explicou Eduardo Velho, economista-chefe da Equador Investimentos.

O Índice Bovespa (IBovespa), principal indicador da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), caiu 2,96%, ontem, para 127.256 pontos. Foi a maior queda do IBovespa desde 18 de dezembro de 2024. Enquanto isso, o dólar voltou a subir e fechou com alta de 3,68%, cotado a R$ 5,835 para a venda. Na avaliação de Velho, nos últimos pregões, a divisa norte-americana não estava refletindo a conjuntura de um cenário recessivo da economia brasileira ao ser negociada em torno de R$ 5,70. A Bolsa de Tóquio despencou 12%, na pior queda desde a “segunda-feira negra” de 1987.

Na Europa, os principais índices também registraram perdas expressivas, refletindo não só a tensão comercial, mas também a crescente preocupação com a desaceleração da economia norte-americana. Nos Estados Unidos, o Índice Nasdaq, a bolsa das empresas de tecnologia está derretendo desde a posse do republicano, acumulando queda de 20% em relação ao último pico da bolsa. Paralelamente, os rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano de 10 anos recuaram para abaixo de 4% ao ano, sinalizando expectativas do mercado por cortes nas taxas de juros por parte do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA).

O presidente do Fed, Jerome Powell, reconheceu a gravidade da situação. Em discurso, ontem, alertou para o risco de um cenário de estagflação — inflação elevada combinada com crescimento fraco — impulsionado pelas tarifas. Powell admitiu incertezas significativas sobre o futuro da economia e alertou para possíveis impactos no mercado de trabalho e nos preços dos imóveis. Mesmo com a divulgação de dados positivos do relatório payroll, com indicadores do mercado de trabalho que indicaram robustez no emprego antes dos efeitos das tarifas, os mercados mantêm o foco nas próximas movimentações entre Washington e Pequim.

Investidores continuam buscando proteção em ativos considerados mais seguros, como ouro e títulos soberanos, diante do aumento da incerteza global. Para o Brasil, os desdobramentos da guerra comercial também representam uma ameaça direta. A retração da atividade econômica global tende a pressionar os preços das commodities, com impacto significativo na balança comercial brasileira. “Commodities devem ser fortemente afetadas se o ambiente for de queda generalizada na atividade econômica — o que faz preço diretamente no Brasil”, disse Paula Zogbi, gerente de Research da Nomad.

Luis Otavio Leal de Barros, economista-chefe da G5 Partners, considera que, após o anúncio do tarifaço de Trump, nesta semana, “o comércio internacional como conhecemos acabou”. “Ao rasgar todas as regras estabelecidas nos últimos 80 anos, Trump abriu uma caixa de pandora de impactos imprevisíveis. Entretanto, os primeiros efeitos até podem não ser tão ruins para o Brasil”, avaliou, citando que o dólar mais fraco e o aumento da disponibilidade de produtos no mundo deverão impactar positivamente a inflação brasileira. “Mas, por enquanto, apesar de os cenários traçados acima serem bastante possíveis, ainda temos pouca convicção sobre o que pode acontecer daqui para a frente”, concluiu.

*Fonte: Correio Braziliense

Fonte: https://oimparcial.com.br/politica/2025/04/reacao-da-china-ao-tarifaco-de-trump-derrete-bolsas-no-mundo-inteiro/