12 de janeiro de 2026
Até 61 milhões de brasileiros vivem sob domínio de facções
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Amplas extensões do território nacional, principalmente nas grandes cidades, dominadas por grupos criminosos armados. Cenas de guerra em confrontos entre bandidos e polícia. Execuções cinematográficas de autoridades e criminosos em público e à luz do dia. Infiltração na política e na economia formal, com lavagem de bilhões de dólares no mercado financeiro do país. Autoridades zonzas e nenhuma luz no final do túnel. Afinal, o Brasil já pode ser considerado um narcoestado? 

Enquanto especialistas debatem o assunto e as autoridades batem cabeça em busca de soluções, independentemente do nome que se dê ao problema, o crime organizado avança país afora. Pesquisas recentes mostram a extensão da percepção do brasileiro sobre o problema, e mostram que, se não agir rápido para uma curva de reversão, em pouco tempo talvez esse caminho não tenha mais volta.

De acordo com o estudo “Governança criminal na América Latina: prevalência e correlações”, realizada na universidade britânica de Cambridge e publicada em agosto de 2025 na revista de ciência política Perspectives on Politics, uma população entre 50,6 milhões a 61,6 milhões de pessoas no Brasil vive em locais que possuem regras diferentes das vigentes para os demais cidadãos. São territórios onde prevalece também (ou apenas) o que mandam as facções criminosas.

Trata-se de algo entre 25% e 30% da população nacional, de acordo com o último Censo do IBGE. Outro levantamento recente sobre o problema, conduzido pelo instituto de pesquisas Datafolha e divulgado em outubro do ano passado, traz um número um pouco menos catastrófico, mas não por isso menos alarmante: ao menos 28 milhões de brasileiros vivem em territórios sob jugo de facções criminosas ou milícias no país. O crescimento foi de cinco pontos percentuais em um ano.

Presença de facções ou milícias aumenta

Facções criminosas e milícias aumentaram sua presença e alcançaram a vizinhança de nada menos que 19% da população, aponta a pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Um total de 2.007 pessoas com 16 anos ou mais foram entrevistadas em 130 municípios de todo o Brasil. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

O questionário cobriu questões como percepção sobre o crime organizado, roubos, agressões e golpes financeiros praticados em plataformas digitais. A presença de facções criminosas e milícias foi relatada com mais frequência em grandes cidades (com mais de 500 mil habitantes), nas capitais e na região Nordeste.

Ricos e pobres relataram a presença do crime organizado em suas vizinhanças com frequência similar. Quem afirma ter sofrido com a presença do crime organizado no local onde mora também relata, com maior frequência, ter conhecimento sobre cemitérios clandestinos nas cidades onde mora. E também afirma encontrar grandes grupos de usuários de drogas, ou cracolândias, nos trajetos diária até o trabalho ou a escola.

Para o Fórum de Segurança Pública, os dados indicam a necessidade de melhorar a coordenação entre órgãos de segurança e criar políticas duradouras de combate ao crime organizado. Os dados evidenciam também que está em curso um fenômeno de crescimento e ampliação do poder de captura das facções em relação ao controle de território e mercados

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Violência é a maior preocupação dos brasileiros

A percepção de que a criminalidade organizada tomou conta de parte relevante do cotidiano nas cidades brasileiras, mostrada pelo Datafolha e pelos pesquisadores de Cambridge, é confirmada por diversos outros levantamentos. Confirmando a série histórica dos últimos dois anos, pesquisa Quaest divulgada em novembro revela que justamente a violência continua sendo a maior preocupação dos cidadãos do país. 

De acordo com a Quaest, para 38% a violência é a maior preocupação em relação ao Brasil atual. O índice é o mais alto desde outubro de 2024.

Em relação à última rodada do levantamento, publicada em outubro, houve um aumento de oito pontos percentuais neste número. Foram ouvidas 2.004 pessoas em 120 municípios entre os dias 6 e 9 de novembro — depois da megaoperação das forças de segurança do Rio de Janeiro que deixou 121 mortos, entre eles quatro policiais, no Complexo do Alemão. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%.

Em agosto de 2023, apenas 10% dos brasileiros entrevistados pela Quaest colocavam a violência como principal problema do país, deixando o tema em quarto lugar no ranking. Naquele ano a economia era a principal preocupação, com 31% de citação na pesquisa. As questões sociais ficavam em segundo lugar com 21%, seguidas pela saúde em terceiro, com 12%. Em apenas pouco mais de dois anos, o tema da violência escalou 28 pontos percentuais para virar o principal problema do Brasil na opinião dos entrevistados.

Fórum de Segurança Pública evidencia que está em curso um fenômeno de crescimento e ampliação do poder de captura das facções em relação ao controle de território e mercados. Fórum de Segurança Pública evidencia que está em curso um fenômeno de crescimento e ampliação do poder de captura das facções em relação ao controle de território e mercados. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

País vê surgimento de facções criminosas disparar

Entre 2022 e 2023, houve redução de 2,3% na taxa de homicídio por 100 mil habitantes no Brasil. Com isso, o país atingiu o índice de 21,2 para cada 100 mil habitantes, o menor dos últimos 11 anos. Mesmo assim, 45.747 pessoas foram vítimas de homicídios, média que ultrapassa 125 por dia.

Os menores indicadores de homicídios por 100 mil habitantes estão localizados nos estados do Sul, além de São Paulo, Distrito Federal e Minas Gerais. Já as maiores taxas se concentram nas regiões Norte e Nordeste. Os dados são do Atlas da Violência 2025, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com a colaboração do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Na somatória do quadro, tudo indica que o Brasil está perdendo a guerra para o crime organizado. Relatório de Inteligência da Secretaria Nacional de Políticas Penitenciárias (Senapen) do Ministério da Justiça do final de 2024 aponta a existência de pelo menos 88 facções criminosas no Brasil — entre elas as duas hegemônicas, com atuação em praticamente todo território nacional e no tráfico internacional de drogas: Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC).]

Em 2019, o Fórum de Segurança Pública havia identificado a existência de 37 facções criminosas no Brasil. O número de grandes grupos criminosos organizados atuando em território nacional cresceu cerca de 237% em cinco anos

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  • Crime organizado no Rio de Janeiro - Comando Vermelho

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Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/brasil/brasileiros-vivem-sob-dominio-do-crime-faccoes-criminosas/