Hoje presente em todo o Brasil e também no exterior, com o domínio de amplos territórios e exploração de serviços da economia formal e até infiltração nos serviços públicos e na política, o Comando Vermelho (CV) não nasceu nas ruas, mas sim dentro das muralhas do Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande, Angra dos Reis (RJ), a partir de 1979. É fruto de um dos maiores erros na história da segurança pública brasileira, que forneceria o modelo copiado depois pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo e outras facções criminosas ao redor do país.
O presídio de segurança máxima conhecido como “Caldeirão do Diabo” foi o berço involuntário da organização. Em um movimento que se mostraria histórico, a ditadura militar vigente na época misturou detentos comuns com presos políticos e militantes de organizações clandestinas guerrilheiras de esquerda, capturados pelo regime.
Os presos políticos e guerrilheiros, com sua experiência em organização, disciplina, ideologia e táticas de resistência aprendidas na luta armada contra o regime, acabaram transferindo seu conhecimento para os criminosos comuns. Surgia então a Falange Vermelha, precursora do Comando Vermelho.
“Misturou-se presos da Lei de Segurança Nacional, que eram terroristas, guerrilheiros de esquerda contra a ditadura, de linha leninista-marxista-trotskista, responsabilizados por atentados e roubo a banco, principalmente, com criminosos comuns, inclusive indivíduos perigosos, como assaltantes de bancos, mas sem nenhuma linha ideológica ou partidária”, afirma Paulo Storani, ex-capitão do Bope da Polícia Militar do Rio de Janeiro e especialista em segurança pública, com ampla experiência no combate ao Comando Vermelho, à Gazeta do Povo.
“O que se consolidou foi uma necessidade destes grupos, para poderem se sustentar dentro das cadeias e também pagar advogados e dar suporte às famílias, igual eles viram os terroristas de esquerda fazerem, começarem a se expandir para atividades criminosas fora dos presídios”, afirma Storani. Isso coincidiu, justamente ali no início dos anos 1980, com a expansão do tráfico de drogas no Rio de Janeiro, principalmente da cocaína.
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Assaltantes de banco viram no tráfico uma atividade mais lucrativa e menos perigosa
O ex-capitão do Bope pontua que, na década de 1980, já havia várias quadrilhas de tráfico de drogas, inclusive em comunidades. “Os integrantes do Comando Vermelho, na sua maioria até então assaltantes de bancos, enxergam nisso uma atividade muito mais lucrativa e menos perigosa, e migraram para ela”, conta ele.
Os pontos de vendas de drogas em comunidades de pequenos grupos independentes começaram a ser tomados pelo Comando Vermelho. Era o início do controle de território.
Assistencialismo do crime organizado com a comunidade se perdeu conforme as lideranças iniciais do CV foram substituída por outros mais jovens e mais violentos.
“Nessa primeira década, até os anos 1990, existia uma mentalidade de buscar se preservar a comunidade. Essa primeira geração de lideranças, que tinha tido contato lá atrás com o pessoal da guerrilha na cadeia, tinha essa ideia de criar uma zona de proteção por meio da cooptação da comunidade”, explica o ex-integrante do Bope carioca.
“Então tinha ali um assistencialismo como comprar remédio, brinquedo, comida, fazer sepultamento, festas, ajudar financeiramente, impedir crimes e violência dentro da comunidade, e isso criava uma simpatia natural de quem morava lá. Isso se perdeu ao longo do tempo, conforme essas lideranças iniciais foram sendo substituídas por outras mais jovens, mais violentas e menos ‘instruídas’”, diz o policial.
Após a consolidação de territórios no Rio de Janeiro, com a exploração do tráfico de drogas e de serviços prestados às comunidades, como gás, água, internet e até habitação, até os anos 2010, a expansão nacional do grupo e de seu modelo de negócios foi uma evolução natural a partir dali. Em franca e contínua expansão pelo território brasileiro, o Comando Vermelho tem atuado agora, cada vez mais, na diversificação de seus negócios criminosos.
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Provedores de internet encerram operação após ataques e ameaças de grupos criminosos
Depois do domínio da distribuição do sinal de internet em diversas cidades do Nordeste e da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, o que ficou conhecido como “cybercangaço”, a facção criminosa investe na invasão e grilagem de grandes áreas públicas e particulares país afora. De acordo com a Associação dos Provedores do Ceará (Uniproce), por exemplo, pelo menos cinco provedores de internet encerraram suas operações no estado devido a ataques e ameaças de grupos criminosos à infraestrutura e funcionários das empresas em 2025.
Os ataques aconteceram em Fortaleza, Caucaia, Caridade e São Gonçalo do Amarante. O Comando Vermelho começou a se estabelecer no Ceará há cerca de 10 anos, em 2015, em Fortaleza. Entre 2016 e 2017, avançou para o interior e litoral.
Na Amazônia, em paralelo à consolidação e domínio das rotas de narcotráfico fluvial que trazem cocaína da Bolívia, Colômbia e Peru para o Brasil, a partir de 2017, o Comando Vermelho aplica o mesmo modus operandi desde 2022. Por lá, assim como em outros locais do país, a invasão e a grilagem de terras são atrativos econômicos adicionais, com derrubada de madeira da floresta ou a possibilidade de garimpo ilegal, para além do valor da terra em si, em áreas de mata fechada e difícil acesso.
“A lógica da expansão contínua de território, adotada pelo Comando Vermelho, é baseada no número de pessoas que vivem nesses locais: quanto mais gente e terra, mais lucro. Com o tempo, grupos criminosos verificaram que podiam explorar e controlar toda a atividade comercial dentro das comunidades: marca de cigarro e bebida que pode ou não ser vendida nos bares, empreendimentos imobiliários, fornecedores dos mercados, pontos de venda de drogas, pontos de internet, monopólio na venda de água e gás, e por aí vai… daí as grandes comunidades serem muito visadas e alvo de tentativas de controle de facções rivais”, explica Storani.
Na opinião do especialista, a contínua expansão do grupo criminoso primeiro pelo Rio e depois por todo o país da década de 1980 até hoje aponta para uma incapacidade muito grande do poder público como um todo de lidar com a criminalidade crescente no país.
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Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/brasil/comando-vermelho-da-ilha-grande-a-ramificacoes-economia-servicos-publicos-politica/
