Quando um hospital filantrópico de Curitiba passou a figurar de forma recorrente entre os melhores do mundo em pediatria, a pergunta deixou de ser apenas “em que posição ficou” para se tornar “como isso foi possível”. O Hospital Pequeno Príncipe aparece, pelo quinto ano consecutivo, como o melhor hospital exclusivamente pediátrico da América Latina no ranking anual da revista Newsweek, elaborado a partir de pesquisas espontâneas com profissionais de saúde de diversos países, além da análise de critérios técnicos e certificações.
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A presença constante do Hospital Pequeno Príncipe na lista não resulta de candidatura formal. Segundo o diretor-corporativo do Complexo Pequeno Príncipe, José Álvaro da Silva Carneiro, o reconhecimento começou a se desenhar nos anos 2000, quando médicos e pesquisadores passaram a circular em congressos científicos e estabelecer parcerias técnicas no exterior.
“Esse movimento se consolidou quando estruturamos o hospital como o primeiro Children’s Hospital do Brasil, integrando assistência, ensino e pesquisa de forma permanente”, afirma.
De hospital filantrópico local à projeção internacional
Ao longo da última década, o Hospital Pequeno Príncipe ampliou relações com centros estrangeiros de excelência, como o Children’s Hospital de Pittsburgh, por meio de projetos de telemedicina e cooperação clínica. O objetivo, segundo Carneiro, foi alinhar protocolos, governança e práticas assistenciais às melhores referências globais.
A diferença é que esse avanço ocorreu dentro de um hospital filantrópico que destina cerca de 70% de seus atendimentos ao Sistema Único de Saúde (SUS). Essa escolha institucional exige equilíbrio delicado entre ciência e sustentabilidade financeira.
“Assumimos que nenhuma criança pode receber menos cuidado em função da renda da família”, diz o diretor do complexo. Procedimentos remunerados pelo SUS custam, na prática, dezenas de vezes menos do que na rede privada, o que obriga o Hospital Pequeno Príncipe a buscar doações, parcerias e gestão rigorosa de recursos para manter o mesmo padrão tecnológico e assistencial.
Outro pilar dessa trajetória está na pesquisa científica. A criação do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe permitiu que o conhecimento produzido em laboratório retornasse diretamente para a assistência.
Doenças raras, genéticas e condições complexas da infância passaram a ser investigadas com foco em diagnóstico mais rápido e tratamento mais preciso. O hospital mantém ainda um programa de pós-graduação com reconhecimento acadêmico nacional, voltado à biotecnologia aplicada à saúde infantil.
E a excelência do hospital filantrópico não se limita ao campo técnico. O modelo de atendimento inclui acompanhamento psicológico, pedagógico e social durante internações prolongadas.
A presença da família no tratamento, inclusive em unidades de alta complexidade, faz parte da rotina desde antes de a prática se tornar regra no país. “O cuidado não é só da doença, mas da criança como um todo”, resume Carneiro.
Impacto global e histórias reais
Foi esse conjunto de fatores que transformou o Hospital Pequeno Príncipe em referência para Mary Carmen Sifontes, venezuelana que chegou ao Brasil em 2019 com a filha Sofia Daimar Oliveros, então em estado grave. Diagnosticada com bexiga neurogênica, a menina perdeu a função dos rins e iniciou hemodiálise em Roraima. A busca por um tratamento mais completo levou mãe e filha a Curitiba.
“Tomei coragem e vim. Procurei uma unidade de saúde, e logo nos encaminharam para o Hospital Pequeno Príncipe. Foi muito rápido, tudo pelo SUS”, conta Mary Carmen. No hospital filantrópico, Sofia passou por cirurgia de reconstrução da bexiga, seguiu em hemodiálise, entrou na fila de transplante e recebeu um novo rim.
Além do tratamento clínico, teve acompanhamento psicológico, nutricional e escolar durante o período de internação. “Em menos de três anos aqui, minha filha passou pela hemodiálise, entrou na fila do transplante e transplantou. Nunca pagamos nada; hoje minha filha está bem”, diz.
Para o secretário estadual da Saúde, Beto Preto, a atuação do Hospital Pequeno Príncipe fortalece a política pública de manter tratamentos de alta complexidade dentro do Paraná. “Isso garante que nenhuma criança precise sair do estado para procedimentos de alta complexidade”, afirma.
Para ele, o reconhecimento internacional reforça a eficiência de um modelo que une gestão, ciência e responsabilidade social. O governo estadual investe na expansão da estrutura do complexo, com previsão de novas unidades hospitalares, de pesquisa e de um hospital-dia voltado a procedimentos menos invasivos. A expectativa é ampliar a capacidade de atendimento sem comprometer o padrão técnico que sustenta o destaque do hospital filantrópico no cenário mundial.
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Hospital Pequeno Príncipe e o modelo brasileiro de excelência
O Hospital Pequeno Príncipe é o único hospital exclusivamente pediátrico fora de São Paulo a figurar entre os melhores do mundo no ranking da Newsweek. Para Carneiro, o resultado não é um ponto de chegada, mas um reflexo de decisões acumuladas ao longo de décadas.
“A excelência não se constrói apenas com recursos, mas com escolhas. Escolhas que colocam a criança no centro do cuidado”, defende ele. Em um cenário dominado por instituições privadas bilionárias, a trajetória de um hospital filantrópico brasileiro chama atenção por outro motivo: mostra que ciência, gestão e compromisso social podem caminhar juntos. E que, em Curitiba, esse caminho começa na pediatria.
Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/parana/como-hospital-pequeno-principe-virou-referencia-mundial/
