15 de janeiro de 2026
Facções regionais se espalham de Norte a Sul do Brasil
Compartilhe:

Bonde dos Maluco, Os Mano, Comando Classe A e Comboio do Cão. Raio B, Bonde do Ajeita, Katiara e Família Monstro. Os Abertos, Trem Bala e Mercado do Povo Atitude. O que pode parecer a princípio uma lista com nomes curiosos de bandas de rock ou até mesmo grupos de funk carioca, trata-se, na realidade, de algo muito mais sério: estes nomes fazem parte de uma lista com 88 facções criminosas que surgiram nos moldes dos dois principais grupos criminosos do país — Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) — e se espalham sem controle pelo território nacional. 

Levantamento sigiloso da Diretoria de Inteligência Penitenciária (Dipen) da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) do Ministério da Justiça e Segurança Pública, do final de 2024, revela um panorama detalhado e assustador da criminalidade do Brasil. Foi mapeada a existência de pelo menos 88 grupos criminosos que podem ser considerados facções criminosas nos moldes de PCC e CV.

Chama a atenção que, hoje, todas as 27 unidades da federação, incluindo o Distrito Federal, possuem a atuação de alguma facção criminosa. Na definição da Senappen, “as facções criminosas são grupos que visam lucro por meio de atividades ilícitas contínuas e de alta demanda, como o tráfico de drogas”.

O órgão continua: “Elas utilizam da força, de uma estrutura hierárquica com viés ideológico e do enriquecimento ilícito para manter suas operações. Para o mapa de organizações criminosas, quanto mais presentes essas características, maior o impacto da organização na segurança pública do Brasil.” 

O trabalho envolveu 141 relatórios das agências estaduais de inteligência com base em triagem feita pelos policiais, segundo protocolos indicados para identificar facções, mantidos em sigilo. São consideradas como de alto impacto no sistema penitenciário 21 facções.

Todas as 27 unidades da federação, incluindo o Distrito Federal, possuem a atuação de alguma facção criminosa.

Destas organizações criminosas, 98% estão presentes nos sistemas prisionais, 96% estão presentes nas ruas e 98% possuem estrutura hierárquica bem definida. Pelo menos 12 destas facções atuam em mais de um estado e 98% possuem capacidade financeira relevante.

Apenas PCC e CV possuem alcance nacional e internacional. Ainda 92% destes grupos possuem outros grupos como inimigos declarados, 73% são aliados de outras facções e 71% possuem um estatuto próprio. 

“O mapa de organizações criminosas realizado pela Senappen apresenta uma análise detalhada do crime organizado no Brasil, destacando a presença de pelo menos 88 grupos criminosos nos últimos três anos que impactam diretamente a segurança pública do país”, afirma o relatório do Ministério da Justiça sobre o mapeamento. “Através do uso de ciência de dados, o estudo identifica as redes do crime organizado e sua abrangência territorial, permitindo uma visão clara da área de influência das facções.”

Maior diversidade de facções está na Região Sul

O Nordeste tem 14 grupos criminosos em atuação, mesma quantidade mapeada na Região Norte, conforme o levantamento. Por sua vez, a Região Sul, agrega 24 facções criminosas, seguida pelo Sudeste, com 18 grupos instalados. Fecha a lista a região Centro-Oeste, com a atuação de 10 facções criminosas. 

São Paulo é o único lugar onde apenas uma facção atua de forma sistemática e hegemônica, o PCC. No Rio de Janeiro, apesar de o Comando Vermelho ser a facção dominante, ela ainda enfrenta a concorrência e disputa de territórios com as milícias e as facções Povo de Israel, Amigos dos Amigos e Terceiro Comando Puro. 

Nos outros estados da federação há a atuação de pelo menos dois grandes grupos criminosos. O Rio Grande do Sul é o estado com mais facções criminosas em atividade, de acordo com o relatório do Ministério da Justiça. São 15 grupos, a maioria de pequeno porte, atuando por lá.

Depois vem a Bahia, um dos estados mais violentos do país, com 14 facções criminosas de pequeno e médio porte disputando controle de território nas periferias e rotas internas de tráfico de drogas e armas. Em terceiro lugar, considerado o número de facções presentes, está Minas Gerais, com a presença de 13 grupos criminosos. 

São Paulo é o único estado em que apenas uma facção atua de forma sistemática e hegemônica: o PCC.

Para especialistas, as cadeias funcionam como “escritórios do crime”, de onde líderes traçam planos e enviam ordens para as ruas. Com o controle falho pelo poder público e em condição precária, são espaços para cooptar novos integrantes, que entram como detentos comuns e viram parte do exército da facção. 

Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o País tem 683 mil detentos nas prisões, em celas estaduais e nas cinco unidades mantidas pela União — o déficit é de aproximadamente 191 mil vagas. As facções têm origem no sistema prisional. Após o Comando Vermelho surgir no Rio nos anos 1970, o modelo cresceu e chegou a São Paulo, com o nascimento do PCC em 1993. Com o crescimento do déficit de vagas nos presídios, houve aumento desses grupos, influenciando o surgimento de organizações locais. Isso porque, com a superlotação, os detentos passaram a operar uma espécie de autogestão.

“O levantamento da Diretoria de Inteligência Penitenciária (Dipen) que revela a presença de pelo menos 88 facções criminosas atuando em todas as unidades da federação é um retrato contundente do atual estágio da criminalidade organizada no Brasil”, afirma à Gazeta do Povo  Celeste Leite dos Santos, promotora em Último Grau do Colégio Recursal do Ministério Público de São Paulo (MPSP). “O Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho não apenas influenciam, mas, também, servem de modelo para outras organizações que se multiplicam de Norte a Sul do País.”

Na avaliação da promotora, o que antes se limitava a grupos isolados, hoje se configura como verdadeiras corporações do crime, com estrutura empresarial, estratégias de expansão e domínio territorial. “Diante desse cenário, é inevitável que surja a pergunta: há solução para o descontrole da criminalidade no Brasil? Como promotora de Justiça e presidente do Instituto Pró-Vítima, afirmo que sim, há solução — mas ela exige abordagem firme, integrada e, sobretudo, comprometida com a proteção da vida e da dignidade humana”, afirma Celeste. 

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/brasil/faccoes-regionais-modelo-de-negocios-pcc-cv-domina-brasil/