4 de abril de 2025
Investigação da PF apura desvios em contratos ao identificar ‘ponte’
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A Polícia Federal afirma em relatório enviado à Justiça que uma servidora pública alvo de investigação atuava como “ponte” entre um empresário na mira do mesmo inquérito e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e seu pai, Nabor Wanderley, prefeito de Patos (PB). O parlamentar e o mandatário não são investigados.

Eulanda Ferreira da Silva trabalha na área de convênios da prefeitura da cidade de 103 mil habitantes, que fica a 300 quilômetros de João Pessoa. O setor lida com a assinatura de acordos para o recebimento de verbas federais — um deles é o centro da operação realizada pela PF, Ministério Público Federal (MPF) e Controladoria-Geral da União (CGU) nesta quinta-feira.

Os agentes apuram se houve fraude em licitação e desvios de recursos públicos. Na primeira fase da operação, o montante direcionado à obra suspeita teve origem em uma emenda parlamentar enviada por Motta. O caso envolve a restauração de vias públicas da cidade conhecidas como Alças Sudeste e Sudoeste.

A intervenção foi realizada pela empresa Engelplan. Na operação de setembro, o celular do dono da firma, André Cesarino, foi apreendido. Com o aparelho em mãos, a PF obteve uma série de trocas de mensagens entre ele e Eulanda. A partir dos diálogos, a polícia aponta que a servidora usava sua posição na prefeitura para atuar em benefício do empresário.

Um dos exemplos, de acordo com a investigação, ocorreu em agosto de 2022, em meio a um problema na liberação de verbas para a obra. As conversas mostram a movimentação dela para destravar os repasses. Em um áudio transcrito pela PF, a servidora diz que enviou uma mensagem para um assessor de Hugo Motta “lá em Brasília”. Há um funcionário com o nome citado por ela no gabinete do presidente da Câmara.

“O diálogo reforça a complexidade dos trâmites financeiros relacionados à obra e evidencia a atuação de Eulanda como uma ponte entre os interesses de André Cesarino e figuras políticas e administrativas, como Nabor Wanderley e Hugo Mota, utilizando seu acesso privilegiado para tentar resolver pendências e destravar recursos que favorecem diretamente a execução do contrato de André”, diz a PF na representação.

Motta e seu pai, Nabor Wanderley, não não são investigados. Procurado, o presidente da Câmara disse que não ia se manifestar. No ano passado, o deputado havia afirmado que não era alvo da operação e confiava “nos órgãos de fiscalização financeira e controle para que qualquer ilegalidade comprovada seja punida, respeitado o devido processo legal”.

Em nota, a prefeitura de Patos afirmou que “não foi alvo da referida operação e permanece à disposição para colaborar com quaisquer investigações que se façam necessárias, reafirmando o compromisso com a transparência e a legalidade em todas as suas ações”. A empresa, seu sócio e a servidora não se manifestaram.

Como exemplo da relação entre Eulanda e Cesarino, a PF afirma que eles usavam palavras como “cheiro” e “beijo” para falar de propina. Em agosto de 2022, por exemplo, o empresário informou que estava indo à prefeitura e mencionou que iria dar “um cheiro” em Eulanda. A investigação diz que se tratava do “pagamento de vantagem indevida pelos serviços de assessoria prestados no interesse da Engelplan no âmbito da prefeitura municipal de Patos”.

Origem das verbas

Motta enviou, via Orçamento Secreto, R$ 5 milhões para o Ministério de Desenvolvimento Regional em 2020 durante o governo de Jair Bolsonaro. A destinação final do repasse era o município de Patos. A prefeitura firmou um convênio com a pasta em dezembro daquele ano, com R$ 4,78 milhões de verba parlamentar de Motta e R$ 285 mil de recursos municipais, totalizando R$ 5 milhões.

No ano seguinte, em outubro de 2021, a prefeitura de Patos firmou um contrato com a empresa no valor de R$ 4,2 milhões, após uma licitação. Com aditivos posteriores, o contrato chegou a R$ 5 milhões. Assim que o acordo foi formalizado, o município informou nas redes sociais que a contratação foi fechada com “recursos conseguidos pelo deputado federal Hugo Motta”. O próprio deputado também já falou sobre a obra nas redes.

“A Alça Sudeste é um fruto do nosso trabalho em Brasília em parceria com o prefeito Nabor Wanderley. Vamos seguir trabalhando para que mais investimentos cheguem e beneficiem a população”, escreveu o parlamentar nas redes sociais em 10 de janeiro do ano passado.

Com informações de O Globo

Fonte: https://agendadopoder.com.br/investigacao-da-pf-apura-desvios-em-contratos-ao-identificar-ponte-entre-empresario-e-hugo-motta/