Catas Altas, em Minas Gerais, lidera o ranking nacional de PIB per capita. Com apenas 5.706 habitantes, o município registra um indicador que seria o equivalente a R$ 920 mil anuais por morador. A produção bilionária da mineração na cidade eleva os índices econômicos, mas mais da metade da população de Catas Altas está registrada na Cadastro Único (CadÚnico) para programas sociais do governo federal.
Localizada a 120 quilômetros de Belo Horizonte, a cidade integra uma região estratégica de grandes complexos de minério de ferro. A extração mineral forma a base da economia e concentra áreas de beneficiamento na região serrana. O município integra o “Circuito do Ouro”, grupo de 15 cidades com herança colonial e arquitetura barroca.
O Produto Interno Bruto (PIB) de Catas Altas se aproxima de R$ 5 bilhões. Para comparação, a cidade de São Paulo registra PIB de R$ 3,5 trilhões e PIB per capita de cerca de R$ 70 mil, valor 13 vezes menor que o de Catas Altas. O indicador resulta da divisão da soma das riquezas produzidas pelo número de moradores e mede produção econômica, não renda individual.
“A extração impulsiona o PIB da região, mas a economia permanece altamente concentrada. Nesse modelo, a chamada economia do gotejamento não funciona. A riqueza fica no topo e não chega às bases”, contextualiza o economista Mário Marcos Sampaio Rodarte, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
“Em pequenas e médias cidades com esse perfil produtivo, essa estrutura apresenta uma deficiência clara e resulta em baixa capacidade de geração e distribuição de renda”, aponta ele.
Município com maior PIB per capita do Brasil recebe royalties da mineração
A mineração responde por cerca de 90% da economia de Catas Altas e sustenta uma ampla cadeia de logística, serviços e empregos. Empresas como Vale e Samarco mantêm operações no território. Esse peso ajuda a explicar os indicadores elevados de produção, mas não proporciona que a riqueza permaneça no município.
“O PIB per capita mede o valor gerado no município, mas isso não significa que a renda permaneça ali. Um empreendedor pode morar em Itabira e ter uma padaria em Catas Altas. Nesse caso, o lucro do negócio tende a ficar na cidade onde ele vive e investe, não necessariamente onde a atividade econômica ocorre”, explica o economista Mauro Sayar Ferreira, da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG.
Apesar dessa distorção entre produção e apropriação da renda, Ferreira ressalta que a atividade econômica produz efeitos locais relevantes, especialmente no mercado de trabalho. “Ainda assim, além dos repasses obrigatórios previstos em lei, como os royalties, a atividade econômica gera empregos, o que ajuda a movimentar a economia local”, afirma.
Os dados oficiais ajudam a dimensionar esse impacto. Segundo o Ministério do Trabalho, em janeiro de 2026, Catas Altas registrou 1,8 mil trabalhadores com carteira assinada, distribuídos da seguinte forma:
- Indústria (com ênfase na extrativa): 821 empregos
- Serviços: 759 empregos
- Comércio: 106 empregos
- Construção civil: 103 empregos
- Agropecuária: 11 empregos
Índices evidenciam vulnerabilidade social em Catas Altas
Apesar de Catas Altas concentrar o maior PIB per capita do Brasil, os indicadores sociais apontam fragilidades do município. Catas Altas apresenta Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,684, segundo a última medição do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referente a 2010. O índice varia de 0 a 1 e considera renda, educação e saúde.
A média nacional é de 0,765, conforme dados de 2019 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Na área educacional, a última divulgação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), em 2024, apontou que Catas Altas ficou com 6,5 – pouco abaixo da média nacional de 6,7.
E, a partir de indicadores oficiais, a Gazeta do Povo desenvolveu um levantamento próprio: pelo Ranking de Cidades publicado em dezembro do ano passado, o município de Catas Altas obteve nota 7,63 e ficou na 59ª colocação – 1,09 a menos que o primeiro lugar, Jateí, no Mato Grosso do Sul, que liderou a lista com 8,72 pontos. O ranking combina 27 indicadores, incluindo segurança, economia, educação e opções de cultura.
Dados do CadÚnico (Cadastro Único para Programas Sociais do governo federal) de janeiro deste ano também evidenciam o contraste social no município mineiro. Ao todo, 3.225 moradores estão inscritos em situação de vulnerabilidade, com os seguintes perfis de renda:
- 1.159 pessoas vivem na faixa de pobreza e são elegíveis ao Bolsa Família;
- 1.828 pessoas possuem renda per capita de até meio salário mínimo;
- 1.397 pessoas têm renda per capita acima de meio salário mínimo;
- 1.232 pessoas recebem o Bolsa Família.
Catas Altas recebeu quase R$ 36 milhões em royalties em 2025
Os royalties da extração de ferro no Brasil são pagos por meio da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM). A alíquota é de 3,5% sobre a receita bruta de venda, com dedução dos tributos incidentes. A Agência Nacional de Mineração (ANM) fiscaliza os valores.
A CFEM é a contrapartida paga pelas mineradoras pela exploração de recursos minerais, que pertencem à União. A legislação define a seguinte divisão dos recursos:
- 60% para os municípios produtores;
- 15% para os estados ou o Distrito Federal;
- 15% para municípios afetados pela mineração, mesmo sem extração direta;
- 10% para a União, repartidos entre ANM, Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e Ibama.
Em 2025, Minas Gerais arrecadou R$ 3,6 bilhões em CFEM, o segundo maior valor da série histórica da ANM, atrás apenas do resultado obtido em 2021. Na comparação com 2024, a arrecadação cresceu 7,6%. Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Catas Altas, o município recebeu R$ 36.383.409,67 em royalties da exploração mineral em 2025.
Conforme a gestão municipal, os recursos devem financiar projetos municipais de:
- Infraestrutura urbana, como vias e saneamento;
- Meio ambiente, com recuperação de áreas degradadas;
- Saúde e educação, pressionadas pelo crescimento populacional;
- Diversificação econômica, para reduzir a dependência da mineração.
O economista Mauro Sayar Ferreira afirma que, no fim, como ocorre com todo recurso público, a questão central é saber se ele está sendo usado de forma eficiente. “A lei impõe percentuais mínimos para áreas como saúde e educação, mas a gestão local define como gastar esses recursos. Esse uso nem sempre passa por controle efetivo, o que torna essencial a avaliação da população sobre a qualidade e as prioridades do gasto”, explica ele.
Prefeitura de Catas Altas vê repasse de royalties como forma de desenvolvimento
A prefeitura de Catas Altas aponta que o repasse da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) é uma oportunidade estratégica para impulsionar o desenvolvimento local.
Segundo a secretária municipal de Desenvolvimento Econômico, Empreendedorismo e Inovação, Flávia Mendes Batista, o município busca aplicar os recursos de forma responsável e planejada.
Ela destaca como objetivo central da política pública converter a arrecadação mineral em avanços concretos para os moradores. “O compromisso do município é transformar a riqueza gerada pela exploração mineral em melhorias concretas na qualidade de vida dos cidadãos, com transparência, planejamento e sustentabilidade”, diz.
História preserva o cotidiano mineiro na cidade com maior PIB per capita do Brasil
Apesar dos contrastes econômicos e sociais, o município com o maior PIB do Brasil mantém um cotidiano marcado pelo ritmo tranquilo do interior mineiro, atraindo turistas pela riqueza histórica que mantém. Quem chega no município se depara com um conjunto de casarios coloniais preservados.
Ao fundo, a Serra do Caraça domina a paisagem e molda a relação dos moradores com o território. A origem do município remonta a 1694, quando a descoberta de ouro atraiu os primeiros ocupantes da região.
O nome do município explica essa história. De acordo com o Circuito Cultural Vieira Servas da UFMG, o termo “catas” se refere aos garimpos, geralmente localizados nas áreas mais altas dos morros. Essa característica geográfica deu origem à denominação Catas Altas.
O patrimônio histórico se transformou em um dos principais atrativos turísticos da cidade. Igrejas erguidas no século XVIII, como as de Santa Quitéria e de Nossa Senhora da Conceição, preservam elementos originais e abrigam obras atribuídas a nomes centrais do barroco mineiro, entre eles Aleijadinho, Mestre Ataíde e Francisco Vieira Servas.
Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/brasil/paradoxo-cidade-brasileira-maior-pib-per-capita/
