2 de janeiro de 2026
A cidade que lidera a produção de cebolas no Brasil
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A alta produtividade e a baixa remuneração no mercado tem marcado a safra de cebola 2025/2026 em Ituporanga (SC), no Alto Vale do Itajaí. Enquanto o município — maior produtor nacional de cebola — projeta uma colheita robusta de 168 mil toneladas, o cenário contábil nas propriedades é de crise.

A principal pressão vem da disparidade entre o custo de produção e o valor pago pelo mercado. O quilo da cebola é comercializado entre R$ 1 e R$ 1,20, patamar que, segundo representantes do setor, não cobre as despesas básicas da atividade. “Estamos vendendo cebola ao mesmo preço de 20 anos atrás, mas com um custo de produção infinitamente maior”, compara o agricultor Jelson Gesser.

Com 12 hectares cultivados, Gesser relata que o preço de venda está entre R$ 0,40 e R$ 0,50 abaixo do custo por quilo. O prejuízo acumulado nos últimos 18 meses tem resultado em endividamento crescente.

O agricultor Jelson Gesser planta cebolas desde a infância ao lado da família. (Foto: Jelson Gesser/Acervo pessoal)

O custo de manejo fitossanitário para doenças fúngicas é o maior componente do custo de produção, segundo o produtor. A situação é agravada pela dependência do dólar, uma vez que que insumos (fertilizantes e defensivos) são cotados na moeda estrangeira, enquanto o produto final é vendido a preços baixos no mercado interno.

Para a safra de 2025/2026, Ituporanga alcançou uma área cultivada de aproximadamente 4.900 hectares de cebola. Segundo a Secretaria Municipal de Agricultura e Meio Ambiente, a produtividade média estimada é de 35 toneladas por hectare, patamar considerado alto para a cultura.

Os números municipais ajudam a impulsionar o desempenho estadual. Nesta safra, Santa Catarina espera uma produção recorde de 597 mil toneladas, cultivadas em 19.568 hectares. Entretanto, a expectativa de nova oferta elevada, tanto em Santa Catarina quanto em estados vizinhos, mantém os preços pressionados e retira o poder de barganha do produtor. Na safra 2024/2025, o valor total da produção no estado já havia sofrido uma queda drástica, recuando de R$ 938 milhões para R$ 647 milhões.

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Pesquisa para culturas mais produtivas e resistentes

Em meio às dificuldades econômicas, a pesquisa tem sido um dos pilares para manter a competitividade da cebolicultura catarinense. A Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) atua no melhoramento genético da cultura desde 1984.

O trabalho é conduzido pela estação experimental de Ituporanga, que se tornou referência no desenvolvimento de materiais adaptados ao clima do Sul do Brasil. Segundo o pesquisador e gerente da estação, Gerson Henrique Wamser, o foco está na busca pela produtividade e estabilidade ao produtor.

A expectativa da produção de cebolas para a safra de 2025/2026 é de 597 mil toneladas.A expectativa da produção de cebolas para a safra de 2025/2026 é de 597 mil toneladas. (Foto: Gerson Henrique Wamser/Acervo Pessoaç)

Um dos principais resultados desse esforço é a cultivar SCS373 Valessul. O material se destaca pela alta produtividade, pela casca marrom e, principalmente, pela capacidade superior de armazenamento. Essa característica permite que os produtores escalonem a comercialização até abril ou maio do ano seguinte, reduzindo a pressão de venda logo após a colheita e contribuindo para melhor planejamento da produção.

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Produção de cebolas conta com assistência técnica e zoneamento climático

Além da pesquisa, a Epagri atua na extensão rural, oferecendo assistência técnica aos produtores, especialmente no acesso ao crédito rural. O suporte técnico é considerado essencial para o planejamento e a gestão das propriedades.

O Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola (Cepa) fornece dados sobre preços, custos de insumos e terras, auxiliando os agricultores na tomada de decisão e na análise de viabilidade econômica. Um marco recente para a gestão de riscos foi a inclusão da cebola no Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), em fevereiro de 2024. O zoneamento identifica as épocas de plantio mais seguras por município.

A adesão ao zoneamento é obrigatória para que médios produtores e demais agricultores tenham acesso a políticas públicas como o Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro) e o Seguro Rural. “A Epagri tem garantido a adaptação agronômica da cebola catarinense, mas sem solução para a disparidade entre custo e preço, a sustentabilidade da atividade permanece sob grave ameaça”, avalia Wamser.

Expectativa na produção de cebolas é de preços baixos para a safra de 2025/2026.Expectativa é de preços baixos para a safra de 2025/2026. (Foto: Jelson Gesser/Acervo pessoal)

Inovação contra a escassez de mão de obra

Diante do aumento nos custos e a dificuldade em encontrar trabalhadores para a colheita, a mecanização tornou-se uma alternativa estratégica para a viabilidade das propriedades dedicadas à produção de cebolas. Recentemente, uma empresa de Ituporanga (SC) desenvolveu a primeira colhedora de cebola autopropelida (com motor próprio) do Brasil.

Até então, as máquinas disponíveis no mercado dependiam do acoplamento em tratores, o que limitava a agilidade. Em entrevista à rádio Sintonia, o proprietário da SJ Máquinas, Sidnei Justen, destacou que a inovação visa reduzir a dependência de mão de obra manual, um dos componentes mais caros da produção.

“A gente sentiu a necessidade pela falta de mão de obra. Hoje ninguém mais quer trabalhar no sol, no pesado. Então a máquina veio para suprir essa falta e baixar o custo para o agricultor”, explica o empresário.

O projeto foi desenvolvido em dois anos e resultou em um equipamento dotado de motorização hidráulica, sistema de movimentação bidirecional e rolos niveladores que garantem a precisão do corte em diferentes tipos de solo.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/santa-catarina/safra-recorde-producao-cebolas-esbarra-em-precos-baixos-endividamento-produtores/