10 de janeiro de 2026
Esquerda adere a pautas da direita em busca de voto
Compartilhe:

Polícia “linha-dura”, captação de capital privado e defesa da vida. Desde a última vitória nas urnas de Lula (PT), em 2022, a esquerda foi obrigada a aderir à defesa de pautas mais alinhadas à realidade do brasileiro. O velho discurso militante passou do prazo de validade, distante do dia a dia do eleitor brasileiro, o que ficou evidente na queda de popularidade do governo petista.

O cenário acendeu o alerta do grupo político de Lula, que buscará a reeleição presidencial para a esquerda nas eleições em 2026. Para responder a questões urgentes como combate ao crime organizado e falta de infraestrutura, o governo federal e as gestões do PT nos estados tiveram que romper com batidos discursos da esquerda.

No Rio de Janeiro e no Ceará, petistas passaram a ser mais incisivos em declarações públicas sobre a necessidade de se combater de maneira ostensiva as facções criminosas, que além do comércio ilegal de drogas passaram a dominar territórios e impor um Estado paralelo nas comunidades dominadas.

Após a operação Contenção no Rio de Janeiro, que levou 113 criminosos do Comando Vermelho à prisão e deixou 121 mortos, o vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá (PT-RJ), lamentou a morte dos quatro policiais nos complexos da Penha e do Alemão, que ele fez questão de denominar como “heróis do Estado brasileiro”.

“Alguns inocentes morreram, mas obviamente a grande maioria foi de gente que portava fuzis, soldados do narcotráfico, que oprimem famílias e matam pessoas. Ninguém enfrenta fuzis com beijinhos”, declarou o vice-presidente petista. Lula e uma ala da esquerda chegaram a ensaiar a repetição do discurso que a operação policial teria sido um suposto “massacre”. No entanto, pesquisas junto à população indicaram que a operação coordenada pelo governo fluminense conduzido por Cláudio Castro (PL-RJ) foi aprovada. 

Castro também foi parabenizado pelo governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT-CE), que no final de outubro comemorou uma operação no sertão cearense que terminou com a morte de sete integrantes do Comando Vermelho. “Nenhum policial morto. Nenhum inocente alvejado. A população protegida. Parabéns à nossa Polícia Militar do Ceará”, declarou então o governador.

A letalidade policial também contraria o discurso de vitimismo da esquerda. O estado da Bahia, governado pelo petista Jerônimo Rodrigues, lidera o número de mortes em confrontos no país.

VEJA TAMBÉM:

  • Brasil tem maior índice da população sob jugo do crime na América Latina

Esquerda tenta expandir eleitorado com bandeiras da direita

Para a consultora política Andreia Maidana, a esquerda busca avançar em temas considerados como bandeiras históricas da direita para expandir o eleitorado, o que tem consequências nas urnas. “É uma movimentação muito mais estratégica do que mudança de discurso, são temas adicionados na agenda da esquerda dada a urgência destas temáticas na atual sociedade. E o mais importante, a esquerda precisa se inserir e enfrentar o debate com a direita. Sem conquistar o eleitor, não se ganha uma eleição”, analisa.

Maidana reforça que um dos principais temas das eleições de 2026 será a segurança pública e que o governo federal tenta liderar o debate com a PEC da Segurança Pública. A gestão petista também passou a investir em publicidade para destacar a operação Carbono Oculto, que teve como alvo um esquema de fraudes de combustíveis e lavagem de dinheiro pelo crime organizado, com participação de empresas do mercado financeiro, na Faria Lima, em São Paulo.

Por outro lado, governadores da oposição, considerados presidenciáveis em 2026, também levantam a bandeira da segurança pública em uma queda de braço com o petista. “Essa é uma pauta que toca o eleitor. Quem não quer se sentir seguro em sua casa e nas ruas? O cidadão espera este retorno por parte do Estado. Eu vejo que a linha que os governos estaduais e a gestão federal irão adotar será uma postura de enfrentamento da segurança pública para atingir o eleitorado”, avalia a cientista política.

VEJA TAMBÉM:

  • Governadores de direita

    O que falaram durante o ano os governadores que pretendem vencer Lula em 2026

Esquerda pode adotar parte do discurso conservador para cristãos nas eleições

Além da segurança pública e da parceria com o setor privado, o PT acena para pautas mais conservadoras com intuito de atrair o eleitorado cristão, principalmente no meio evangélico, no qual a rejeição aos candidatos de esquerda é maior que entre os fiéis da igreja católica. “Dado que nas últimas eleições se consolidou uma centro-direita, pautada no conservadorismo, a esquerda terá que enfrentar as pautas de costumes; se não o fizer, dará margem para a direita se posicionar e ganhar mais este espaço”, comenta Maidana.

Nas eleições de 2024, o deputado estadual Lúdio Cabral (PT-MT) chegou ao segundo turno na disputa eleitoral pela prefeitura de Cuiabá (MT) contra o aliado de Jair Bolsonaro, Abílio Brunini (PL-MT), e tentou se aproximar do eleitorado da capital do Mato Grosso – ligado ao agro e à direita conservadora – por meio de pautas mais alinhadas aos valores cristãos. 

No segundo turno, Cabral, que é católico, divulgou uma “carta aos cristãos” e prometeu uma administração em defesa da família com princípios éticos e morais. “Proponho uma administração abençoadora na vida das pessoas e da natureza, que valorize a vida desde a sua concepção, que cuide verdadeiramente das famílias, que proteja os idosos, que invista na educação, na proteção das nossas crianças e jovens”, declarou então o petista, que foi derrotado no segundo turno.

Brunini foi eleito com 53,8% dos votos válidos. Na carta, o deputado petista ainda lembrou do trabalho como médico e servidor público e se posicionou a favor da “defesa da vida”, sem falar abertamente sobre a prática do aborto. “Sempre dedicado à defesa da vida, que é a essência da minha profissão de médico. Tenho formação familiar cristã. Todas as minhas ações são conduzidas pela defesa e pela proteção da família e pela defesa da natureza, da nossa casa comum.”

A estratégia adotada em Cuiabá pode ganhar um caráter nacional no próximo ano. Com a alta rejeição entre os evangélicos, Lula deve reforçar o discurso político para agradar o nicho mais religioso do eleitorado em 2026, que foi decisivo para impulsionar Bolsonaro em 2018. A consultora política ressalta que o PT tem uma dificuldade histórica em conquistar o voto religioso, que está ligado a valores e identidade, variáveis centrais no atual do debate eleitoral.

Ela pondera que o voto entre evangélicos e católicos não é homogêneo, com diversidade ligada a raça, escolaridade, sexo, idade e renda, fatores que influenciam a escolha na urna. “Para se aproximar, o caminho ideal seria com medidas que impactam diretamente o dia a dia destes cidadãos, seja por meio da economia ou por políticas públicas na área da educação e saúde, por exemplo.” 

VEJA TAMBÉM:

  • Influência do voto entre os evangélicos deve impulsionar Tarcísio e moldar a disputa presidencial em 2026.

    Força do voto evangélico impulsiona Tarcísio entre os presidenciáveis para 2026

Governo Lula bate recorde com concessões privadas na Bolsa de Valores

Neste que é seu terceiro mandato presidencial, Lula passou a ostentar o maior programa de concessões privadas das últimas décadas no setor de infraestrutura, encabeçado pelo ministro dos Transportes, Renan Filho, que figura como presença constante na Bolsa de Valores de São Paulo, a B3. O ministro de Lula defende que o Estado brasileiro não tem condições de custear a manutenção das estradas e os necessários investimentos na área de infraestrutura e logística.

Assim, a União e os governos estaduais precisam do capital privado para o desenvolvimento da malha rodoviária, ferroviária e para a gestão de terminais portuários pelo país. Com a conclusão das concessões de seis lotes de rodovias no Paraná, em outubro de 2025, Renan Filho anunciou que o governo federal atingiu mais de R$ 200 bilhões em concessões de rodovias na gestão Lula.

“É algo muito significativo, porque o país tinha feito 24 leilões no início do programa de concessão lá atrás, entre 1998 e 2022. Ao final deste ano, nós vamos terminar com 22 leilões e vamos fazer outros 14 no ano que vem”, projetou o ministro.

De acordo com Renan Filho, o montante de investimentos é acrescido em R$ 100 bilhões, se levadas em consideração as concessões de outros setores da infraestrutura brasileira. “Foram contratados R$ 300 bilhões em todos os tipos de leilões: portos, aeroportos, até de florestas, porque agora a conservação de floresta está sendo leiloada também”, completou ele.

Na avaliação da consultora política Andreia Maidana, apesar de o presidente Lula manter a postura contra a desestatização das empresas públicas, com interferência em processos de privatizações encaminhados pelo ex-presidente Bolsonaro, logo no início do mandato, o petista reconhece a necessidade de buscar recursos na iniciativa privada pelas limitações do próprio poder público. “Privatizar estatais é uma defesa de governos de direita. Concessões são necessárias, dada a dificuldade de orçamento para manter a máquina estatal funcionando e agilizar investimentos para o desenvolvimento do país. O governo viu uma janela de oportunidades em abrir para investimentos privados na infraestrutura”, analisa.

VEJA TAMBÉM:

  • Lançamento da Política Nacional de Outorga de Ferrovias, pelo Ministério dos Transportes.

    Estados do Sul rejeitam plano de Renan Filho de fatiar ferrovia e não descartam ação judicial

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/seguranca-privatizacao-costumes-eleicoes-esquerda-pautas-direita-busca-votos/