Imagine entrar num avião sabendo que o motor lá fora está mais quente do que o ponto de fusão do próprio metal e, ainda assim, nada derrete. Os motores a jato operam em temperaturas que desafiam a lógica, em um ambiente cheio de poeira, forças brutais e variações extremas de pressão, mas giram por milhares de horas com regularidade quase automática.
Como funciona o motor a jato por dentro?
O turbofan, usado na maioria dos aviões comerciais, começa com um grande ventilador que puxa toneladas de ar por segundo. Cerca de 10% desse fluxo entra no núcleo do motor, é comprimido em várias etapas até atingir dezenas de vezes a pressão atmosférica e se aquece sozinho para algo em torno de 600 ºC.
Eles funcionam seguindo o ciclo de Brayton (compressão → combustão → expansão): o ar entra, é comprimido por estágios de compressor, recebe combustível na câmara de combustão e é inflamado, criando gases quentes que giram as turbinas e geram empuxo.
No turbofan, um ventilador grande na frente puxa ar; parte passa pelo núcleo para gerar energia e outra parte contorna o núcleo para gerar empuxo extra.
Por que o ventilador gera a maior parte do empuxo?
Em aviões de passageiros, mais de 80% do empuxo vem do grande ventilador frontal, não do jato de gases quentes. Apenas uma pequena fração do ar passa pela combustão; o restante contorna o núcleo e é acelerado “friamente” para trás, como uma hélice dentro de um tubo.
Empurrar muito ar um pouco mais rápido é energeticamente mais eficiente do que acelerar pouco ar a altíssima velocidade. Além disso, o anel de ar frio ao redor abafa ruído, melhora o rendimento em cruzeiro e explica por que os motores foram ficando maiores ao longo das décadas.
Por que os motores a jato não derretem em temperaturas tão altas?
Para transformar calor em trabalho útil, os projetistas exploram o contraste entre o gás quente interno e o ar gelado da alta atmosfera, que pode chegar a -55 ºC. Quanto maior a temperatura na câmara de combustão, maior o potencial de eficiência, mas mais severo é o ambiente para as pás de turbina.
Metais comuns perdem resistência rapidamente nessas condições, entrando em fluência e se deformando com o tempo. A solução veio com as superligas de níquel, que combinam elementos como cobalto, cromo, alumínio, tântalo, molibdênio e até rênio para suportar elevadas tensões térmicas e mecânicas por milhares de horas.

Como as pás de turbina são fabricadas e protegidas?
A fabricação começa com modelos de cera de alta precisão, revestidos em camadas cerâmicas no processo de fundição por cera perdida. O molde cerâmico reproduz canais internos de refrigeração que depois levarão ar frio através da pá, de ponta a ponta.
Após a fundição e tratamentos térmicos, as pás recebem um conjunto de proteções superficiais que garantem a sobrevivência em regime contínuo de alta temperatura:
- Revestimento metálico de ligação: protege contra oxidação e corrosão severas.
- Camada cerâmica: atua como barreira térmica, reduzindo a temperatura sentida pelo metal.
- Canais internos de refrigeração: formam um “sistema circulatório” para o ar de resfriamento.
- Controle rigoroso de defeitos: pequenas falhas na cera ou na cerâmica são eliminadas para evitar trincas.
Qual é o truque final para o motor a jato não derreter?
Mesmo com superligas monocristalinas e revestimentos cerâmicos, o ar de resfriamento é decisivo. Parte do ar comprimido, a cerca de 600 ºC, é desviado para circular pelos canais internos e sai por minúsculos furos, formando um “filme de ar” que protege a superfície das pás.
Esse sistema precisa de dosagem precisa: ar demais reduz empuxo e eficiência; ar de menos coloca o motor em risco. Poeira, areia fina e partículas semelhantes a cinza vulcânica podem derreter, aderir às pás, danificar revestimentos e entupir canais, o que leva engenheiros a testar novos revestimentos, geometrias de furos e ensaios com poeira controlada em bancada.
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