Em uma escala de tempo que desafia a percepção humana, onde continentes dançam ao ritmo lento das placas tectônicas, a história da Terra é escrita em ciclos de colisão e separação. Todos conhecem a Pangeia, o supercontinente dos dinossauros, mas poucos fora dos círculos da geologia ouviram falar de sua possível predecessora polar: a Panótia, uma massa de terra que, para alguns, virou o planeta de cabeça para baixo e, para outros, talvez nunca tenha se erguido de fato.
De acordo com uma reportagem do IFL Science, Panótia, cujo nome significa “todo o sul” em grego, é proposta como o supercontinente que dominou o Hemisfério Sul entre 600 e 560 milhões de anos atrás. Sua existência, porém breve, teria sido cataclísmica. Geólogos sugerem que sua formação desencadeou cadeias de montanhas pan-africanas, uma queda global no nível do mar e as severas glaciais do período Neoproterozoico. Mais intrigante ainda: sua posterior fragmentação é apontada como um possível gatilho para a “Explosão Cambriana”, o surgimento súbito e diversificado da vida animal complexa.
Por décadas, as evidências pareciam sólidas. “As evidências geológicas que sustentavam a existência de um supercontinente como esse eram mais fortes do que para qualquer outro, com exceção da Pangeia”, defendeu o geólogo R. Damian Nance em um artigo da Yale de 2020. Registros fósseis, química oceânica e dados isotópicos formavam um quadro coerente de um mundo reunido ao redor do Polo Sul.
O continente fantasma
O consenso, no entanto, ruiu com o avanço da tecnologia. A paleomagnetismo, que rastreia a posição passada dos continentes, e datações mais precisas começaram a corroer as bases de Panótia. Rochas que se pensava terem sido forjadas em sua criação apareceram como sendo mais jovens. Evidências de crosta continental que deveriam ter surgido após sua fragmentação parecem, na verdade, ser mais antigas.
“Se Pannotia realmente existiu, então o ciclo dos supercontinentes estaria se acelerando dramaticamente”, aponta David Evans, paleomagnetista de Yale e cético quanto à hipótese. “Precisaríamos de uma explicação profunda para esse ritmo, e o próximo supercontinente já estaria a caminho.”
O debate hoje não é preto no branco. Muitos pesquisadores argumentam que, embora houvesse aglomeração de massas de terra no sul há 600 milhões de anos, elas nunca chegaram a se fundir em um único supercontinente coeso. Panótia seria, na visão de Evans, um “mero degrau” no longo caminho que levou à formação da Pangeia, e não um evento completo de formação e ruptura.

A ciência no ritmo da Terra
A incerteza, longe de ser um fracasso, é o motor da descoberta. “A incerteza é um aspecto essencial de qualquer ciência saudável”, reflete Evans. “Todos devemos estar preparados para repensar nossas crenças se novos dados exigirem.”
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Seja um supercontinente de fato ou uma fase de transição intensa, o que ocorreu no limiar do período Cambriano foi crucial para moldar o planeta que herdamos. A resposta final sobre Panótia ainda está inscrita nas rochas, aguardando ser decifrada. Como brinca Evans, as rochas “provavelmente podem esperar um pouco mais” para que desvendemos seu enigma. Enquanto isso, o debate continua – uma prova viva de que a história da Terra, assim como seus continentes, está sempre em movimento.
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