24 de janeiro de 2026
Na Era do Gelo, onças caçavam animais com quase 1
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Na última sexta-feira (23), o periódico britânico de artigos acadêmicos Taylor & Francis publicou uma pesquisa que estuda como onças-pintadas brasileiras caçavam presas de quase 1 tonelada durante a Era do Gelo. A presa em questão era a famosa preguiça-gigante, uma fonte concentrada de proteína que outrora fora disputada por onças, cachorros-do-mato e tigres dentes-de-sabre.

O artigo é uma parceria de pesquisadores e laboratórios estrangeiros e nacionais, com destaque para os nomes Mário A. T. Dantas, Luana Cardoso de Andrade, João Paulo da Costa, H. Gregory McDonald, Rodrigo Parisi Dutra, Claudia Guimarães Costa e muito mais. Você pode ler o artigo na íntegra clicando aqui.

Para quem tem pressa:

  • Pesquisadores brasileiros e estrangeiros, com destaque para Mário A. T. Dantas, estimam que grandes herbívoros da Era do Gelo foram caçados por onças-pintadas brasileiras;
  • O estudo analisou perfurações nos ossos de duas espécies de animais;
  • A descoberta também desvendou que as onças, inclusive, representavam um desafio mortal umas às outras.

Onças-pintadas brasileiras disputavam preguiças-gigantes como presa na Era do Gelo

Ilustração de uma preguiça-gigante do gênero Eremotherium laurillardi – Imagem: Rodolfo Nogueira/Jornal da USP

Quando pensamos na Era do Gelo, automaticamente lembrados da animação de sucesso da Disney. Mas, para além da clássica imagem mental de icebergs, permafrosts, e montanhas cheias de gelo, você sabia que o Brasil também passou por uma era quase tão gelada quanto?

Este cenário pode ser difícil de imaginar, considerando o país tropical onde vivemos hoje, mas durante a última parte do período do Pleistoceno (de ~2,6 milhões até 11,7 mil anos atrás), o clima por aqui era bastante seco e frio. Embora não tão frio e coberto de gelo como ficou o Hemisfério Norte, por exemplo, algumas florestas eram mais curtas, menos densas, e o famoso verde do nosso país era mais discreto em determinadas regiões.

Dentro da fauna brasileira daquela época, um padrão se manteve: animais de grande porte com hábitos nômades e que se banhavam (e se hidratavam) em rios e lagos. Em momentos oportunos como esses, as onças-pintadas daquela época predavam preguiças-gigantes.

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Eu vejo que a onça continua basicamente com o mesmo tipo de nicho e não mudou tanto” disse à Folha de SP o paleontólogo Mário Dantas, que trabalha no Laboratório de Ecologia e Geociências da Universidade Federal da Bahia. Ele é principal nome destacado na pesquisa.

Ela tinha como opções outros tipos de recursos alimentares, que hoje não existem mais, e por isso podia chegar a tamanhos maiores. Com a extinção da megafauna, o dente-de-sabre, que era especialista em capturar os maiores mamíferos, desapareceu, enquanto as onças diminuíram um pouco de tamanho e conseguiram sobreviver.

— Mário Dantas, paleontólogo, em entrevista à Folha de SP

Onça
Onça / Crédito: adalbert dragon (shutterstock/reprodução)

Consoante as informações do artigo, a equipe desvendou a participação das onças-pintadas devido a marcas suspeitas nos ossos de duas espécias de animais típicos da megafauna da Era do Gelo [brasileira].

Dentre os bichos de grande porte, é possível destacar a preguiça-gigante (Ahytherium aureum), cuja expectativa de peso girava em torno de quase 1 tonelada, o que equivale a mil kg.

Além dela, um curioso herbívoro da Bahia também estava entre os predados: o Xenorhinotherium bahiense, cuja tradução significa algo como “besta de nariz estranho da Bahia“. A ciência o descreve com o corpo parecido com o de uma lhama, mas com uma tromba (ou ‘apêndice’ nasal) que lembra a de um elefante.

Xenorhinotherium bahiense, o herbívoro estranho que viveu na Bahia (Reprodução: Nato Gomes)

Enquanto a carcaça da preguiça-gigante foi achada na Bahia, a do X. bahiense foi encontrada no interior de Pernambuco. Ambas apresentam perfurações nas patas dianteiras, o que, após um exame minucioso, estimou-se ser de uma onça-pintada.

O estudo realizado comparou a dentição de inúmeras espécies de animais carnívoros, além de questionar se os buracos haviam sido feitos por larvas de inseto. Só, então, a onça entrou na jogada.

Apesar da alta eficiência no abate dos predadores, as onças-pintadas não estavam à prova de ataques. Isso porque o artigo também mostrou que fósseis de grandes felinos — também do Pleistoceno —, achados numa caverna localizada na Bahia, detinham furos no crânio similares aqueles achados nos herbívoros (bicho-preguiça e X. bahiense).

Em outras palavras, essas onças não apenas representavam um perigo direto para as presas, mas estima-se que também brigavam entre si, e dado o seu grande porte e mordidas fatais, as brigas colocavam suas vidas em jogo.

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Fonte: https://olhardigital.com.br/2026/01/24/ciencia-e-espaco/na-era-do-gelo-oncas-cacavam-animais-com-quase-1-tonelada/