18 de julho de 2024
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A apuração da morte do filho do bicheiro José Caruzzo Escafura, o Piruinha, contraventor mais velho da antiga cúpula do Jogo do Bicho vai à júri popular por homicídio qualificado nesta terça-feira (9), foi citada no relatório final da Polícia Federal sobre a investigação do caso Marielle Franco.

Segundo o documento, há indícios de que a Polícia Civil não chegou à conclusão de quem matou Haylton Carlos Gomes Escafura por uma possível interferência do delegado Rivaldo Barbosa, que chefiava a Divisão de Homicídios na época.

O filho de Piruinha foi encontrado morto em junho de 2017 em um hotel na Barra da Tijuca, ao lado da mulher, a policial militar Franciene de Souza. De acordo com as investigações, o motivo da execução foi a disputa pelos pontos de venda de máquinas caça-níqueis, uma vez que ele vinha tentando recuperar de territórios do jogo do bicho em partes da zona norte do Rio.

O depoimento do delegado Brenno Carnevale, citado no relatório da PF no caso Marielle, coloca em dúvida a distribuição dos inquéritos que apuravam mortes possivelmente decorrentes da ação de contraventores.

“Durante o período em que o depoente [Brenno Carnevale] esteve na DH, ocorreu um duplo homicídio na Barra da Tijuca, que vitimou Haylton Escafura, filho do contraventor vulgo “Piruinha”, bem como uma mulher, que era policial militar. Como era o depoente que investigava as mortes de policiais militares no município do Rio de Janeiro, assim que chegou DH, para trabalhar, solicitou que todo o material apreendido no local do homicídio ficasse em local seguro, a disposição do depoente e de sua equipe, para ser analisado e também colocou o procedimento em sigilo, por entender se trata de investigação sensível. No entanto, investigação foi retirada da atribuição do depoente, assim como o material aprendido que estava em sua sala”, cita o documento.

Em depoimento ao Ministério Público do RJ, Carnevale foi além: ele informou que não houve elucidação dos crimes envolvendo bicheiros entre agosto de 2016 e março de 2018. Ele denunciou, ainda, que materiais apreendidos e inquéritos haviam desaparecido de forma misteriosa.

No relatório, a PF apontou indícios de “negligências” propositais em investigações para proteger pessoas do interesse de Barbosa, que pagavam por essa proteção. O relatório afirma que, no período em que esteve à frente da Delegacia de Homicídios da Capital, por exemplo, o delegado recebia vantagens indevidas da contravenção para não investigar ou não deixar investigar os homicídios praticados em decorrência das disputas territoriais para exploração do jogo do bicho. Tanto, que foi aberto procedimento para apurar a prática dos crimes de organização criminosa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro praticados por Rivaldo Barbosa e policiais a ele subordinados, familiares e empresários.

Para embasar as denúncias de corrupção, os invetigadores da PF também citam no documento o depoimento do ex-PM e miliciano Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica, que afirmou que existia um sistema de pagamento mensal realizado pelos contraventores para as delegacias do Rio de Janeiro.

“Não, é uma tabela. Isso é uma tabela. Delegacias como a 22, a 21, a 27, a 38, elas ganham R$40 mil por mês da contravenção. A 35 ganha R$40 mil por mês. Existe uma tabela, tá? A DH, as especializadas, ganham mais, que varia entre R$ 60 e 80 mil por mês. A DH, além do que eles recebem mensal, quando entra um homicídio, por exemplo, deixou uma filmagem, deixou um rastro que eles conseguem direcionar o homicídio para determinado contraventor, eles pagam por fora, como foi o caso do Pereira e o caso do Escafura”, afirmou o miliciano.

Segundo relato, a Delegacia de Homicídios da Capital teria recebido de pessoa ligada ao bicheiro Rogério de Andrade cerca de R$300 mil para não “perturbar” os prováveis envolvidos na execução do ex-PM Geraldo Pereira. Pagamentos à parte também teriam acontecido para não se chegar à solução das mortes do presidente da Portela, Marcos Vieira de Souza, conhecido como Falcon, e Haylton Escafura.

Com isso, de acordo com a PF, Barbosa teria ficado responsável também pelo chamado “balcão de negócios” instalado no departamento, que combinava, mediante pagamento de propina a omissão em determinados casos ou o direcionamento de investigações para pessoas inocentes, a fim de livrar os verdadeiros culpados. “Para tanto, Rivaldo fez negócio com contraventores, milicianos e, como se vê no caso em tela, políticos, no afã de se locupletar financeira e politicamente”, afirma a PF.

O relatório conclui que “Rivaldo lucrava enquanto as organizações criminosas empilhavam corpos pela Região Metropolitana do Rio de Janeiro. A criação desse ambiente pernicioso permitiu o fortalecimento de grupos criminosos, tendo em vista que a omissão deliberada na repressão dos crimes de homicídio tem o condão de cultivar um ambiente fértil para todo o tipo de criminalidade, sendo esse crime o esgoto no qual desaguam os reflexos dos demais”.

A CNN tenta contato com a defesa do delegado Rivaldo Barbosa.

Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/morte-do-filho-de-piruinha-foi-citada-no-relatorio-da-pf-no-caso-marielle/