17 de julho de 2024
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Em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, o senador Flávio Bolsonaro (PL) defendeu o bilionário Elon Musk, dono da rede social X (antigo Twitter), criticou o Judiciário, sobretudo o ministro Alexandre de Moraes, e afirmou, sem apresentar provas, que o processo eleitoral de 2022 foi manipulado para favorecer o presidente Lula. Ele também defendeu o arquivamento do inquérito das fake news e negou que seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, tenha tentado um golpe para permanecer no poder após a derrota, como apontam as investigações da Polícia Federal.

O senador saiu em defesa de Musk, que vem travando um embate com Moraes. No domingo, o ministro determinou que Musk seja investigado por obstrução à Justiça, inclusive em organização criminosa, e incitação ao crime, após o bilionário anunciar que retiraria todas as restrições de contas no X determinadas pelo Judiciário brasileiro. Até o momento, Musk não cumpriu a ameaça, mas usou a rede social, enquanto a entrevista acontecia, para atacar o ministro e pedir seu impeachment, chamando-o de ditador e acusando-o de ter favorecido a eleição de Lula.

Para Flávio Bolsonaro, Musk não cometeu crime algum e não deveria ser investigado. “Uma cidadão americano, uma empresa privada, do meu ponto de vista, não cometeu crime nenhum, apenas falou, se posicionou, fez uma pergunta ao ministro que usa a rede social dele. O Elon Musk não tem foro por prerrogativa de função, está tudo errado. O ministro toma mais uma vez uma decisão monocrática, antes que qualquer ato fosse cometido, já incluindo Musk no inquérito”, disse.

O senador comparou o Brasil à Venezuela, dizendo que o país pode sofrer sanções por não ser democrático. Mesmo o Brasil tendo passado recentemente por eleições consideradas justas e limpas, Flávio sugeriu que, se eleito nos Estados Unidos, Donald Trump pode adotar sanções contra o Brasil, como fez contra a Venezuela, por entender que a atuação do STF atualmente faz com que o país não tenha uma democracia. Ele ainda mencionou a proximidade entre Trump e Musk para reforçar a sugestão.

Apesar de criticar Moraes, o senador disse que seu impeachment “não é o caminho certo”. Para ele, o episódio com Musk é uma chance para o STF (Supremo Tribunal Federal) “voltar à normalidade”, arquivar inquéritos como o das milícias digitais.

“Não acho que pedir impeachment de ministro do STF seja o mais adequado. Defendo autorregulação do Supremo. E essa é uma ótima oportunidade”, disse.

Ameaças a ministros do STF

Flávio negou que os Bolsonaro e seus apoiadores tenham qualquer papel nos ataques sofridos por ministros do STF. “Não é culpa do Bolsonaro, o ódio sofrido pelos ministros (…) Você não pode atribuir isso ao bolsonarismo”, disse. Bolsonaro, aliados e apoiadores, porém, fizeram sucessivos ataques aos ministros, sobretudo a Moraes, e à Corte. No 7 de setembro de 2021, por exemplo, o então presidente chamou Moraes de “canalha” e disse que não cumpriria mais suas decisões.

Ataques ao processo eleitoral

Flávio atribuiu derrota do pai a interferências no processo eleitoral. Ao dizer que seu pai é honesto e está sendo bem recebido no Brasil todo, foi questionado sobre o porquê de ele ter perdido as eleições, se seu governo foi tão bom. O senador respondeu, sem apresentar provas, que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) favoreceu Lula. “O que o TSE fez antes, durante e depois das eleições, ficou muito claro para todo mundo que ele pesou muito mais a favor de um lado do que do outro”, disse.

Ao longo da entrevista, Flávio disse algumas vezes que não entraria na questão dos ataques às urnas eletrônicas, mas acabou colocando o sistema em dúvida repetidas vezes. Disse que “os brasileiros têm dúvidas” sobre a lisura do processo, sem mencionar que o próprio Bolsonaro e seus aliados passaram anos atacando as urnas, sem conseguir provar qualquer interferência no processo eleitoral. As urnas são auditadas junto a outros órgãos federais, incluindo as Forças Armadas.

“Desconfiança das urnas é só em casos pontuais, tipo para a Presidência”, disse o senador. Ele havia sido questionado sobre a incongruência de pôr em xeque um sistema que o elegeu diversas vezes, assim como a seu pai e seus irmãos.

Tentativa de golpe

Flávio classificou como “crime impossível” a suposta tentativa de golpe por Bolsonaro. De acordo com investigações da Polícia Federal, o então presidente e seus aliados planejaram um golpe de Estado para reverter o resultado das eleições. Ele teve o passaporte retido depois de ser alvo de uma operação em fevereiro.

Indícios do plano incluem depoimentos de dois comandantes das Forças Armadas e minuta golpista encontrada na casa do ex-ministro da Justiça Anderson Torres. O plano golpista foi confirmado por Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, em acordo de delação premiada.

Flávio diz que não houve crime de tentativa de golpe. O senador comparou a situação ao planejamento de um assassinato, em que alguém chega a comprar uma corda para cometê-lo, mas muda de ideia. Ele foi questionado pelos entrevistadores, uma vez que a mera tentativa de golpe já é um crime tipificado.

Novamente sem provas, Flávio sugeriu que Lula foi responsável ou conivente com os atos de 8 de janeiro. No dia dos ataques, Lula estava em Araraquara, interior de São Paulo, para prestar assistência às vítimas das chuvas que atingiram a região. Para Flávio, Lula “fugiu”.

“O que ele estava fazendo lá? Eu acho que ele saiu [de Brasília] torcendo para acontecer o que aconteceu. Não dá para colocar na conta do Bolsonaro o 8 de janeiro. Lula já estava no cargo, os movimentos estavam esvaziando. Eles sabiam e tinham a informação e não fizeram nada”, disse.

Ex-integrantes da cúpula da PM do Distrito Federal são réus no STF por omissão nos atos golpistas. Na denúncia, a PGR (Procuradoria-Geral da República) apontou “alinhamento ideológico e de propósitos” entre os denunciados e os bolsonaristas que pediam a intervenção das Forças Armadas.

Bolsonaro não var fugir em caso de condenação, diz senador. Ele foi questionado sobre os planos do ex-presidente em caso de pedido de prisão pelas investigações do 8/1. Para Flávio, seu pai sofre “perseguição” e “nem deveria ser investigado”.

Flávio minimiza caso da embaixada da Hungria. Questionado sobre a estadia de Bolsonaro na embaixada da Hungria, após operação da PF que apreendeu seu passaporte, o senador disse que não havia qualquer intenção de fuga ou pedido de asilo e que seu pai é muito amigo do presidente húngaro, Viktor Orbán. Segundo o senador, Bolsonaro não teria avisado sobre o caso nem à sua mulher, Michelle Bolsonaro. Ao ser questionado sobre a estranheza da situação, em pleno carnaval, Flávio afirmou que “não tinha nada para fazer em Brasília no carnaval.

Caso dos imóveis pagos em dinheiro vivo e das milícias

Flávio se defendeu de acusações de ‘rachadinha’. Ele afirmou que tem patrimônio compatível com sua renda e negou o uso de dinheiro vivo na compra de imóveis, como foi revelado por reportagem do portal UOL em 2022. De acordo com o parlamentar, as aquisições foram feitas em moeda corrente, por meio de transferências, e não em dinheiro vivo

O senador também negou ter ligações com milícias do Rio de Janeiro. Ele afirmou ter conhecido o miliciano Adriano da Nóbrega por causa de seu trabalho no Bope, em 2001. “Soube que estavam sendo injustiçados”, disse. A mãe e a ex-mulher de Adriano teriam sido contratadas para trabalhar no seu gabinete como gesto de solidariedade pela situação vivida pelo ex-policial e em prol da “causa dos policiais injustiçados”.

“Não tem nada a ver Bolsonaro com grupo de extermínio, vinculação de Bolsonaro com milícias. Nunca defendi poder paralelo para extorquir morador”, concluiu.

Com informações do UOL.

Leia mais:

Flávio Bolsonaro se declara contra o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, em entrevista ao Roda Viva (veja o vídeo)

Fonte: https://agendadopoder.com.br/flavio-bolsonaro-defende-elon-musk-e-afirma-sem-apresentar-provas-que-tse-favoreceu-eleicao-de-lula/